Estudos comprovam: experiência educacional facilita o desenvolvimento esportivo do atleta de alto rendimento

05 de outubro de 2016 ● POR

No artigo anterior, eu discuti a relação entre a Educação Física e o desenvolvimento cognitivo (link) e os efeitos dessa relação para o desenvolvimento humano. O foco desse texto está em uma relação que deveria trazer também benefícios, mas que tem sido relegada e muitas vezes é tratada com irrelevância, que é o efeito da educação formal nos atletas de alto nível. Nesse caso, em um sentido amplo, os indivíduos que atuam no esporte de competição.
Pouca atenção e muito menos projetos existem com o objetivo da manutenção dos atletas de alto rendimento no sistema educacional, principalmente no âmbito universitário, em oposição ao sistema americano que raramente o atleta alcança o esporte profissional sem concluir o ensino superior. O sistema esportivo brasileiro, em grande medida, força os atletas no final da juventude a optar entre o estudo e a continuidade da carreira esportiva.
Em razão do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e um acompanhamento maior do Ministério Público tem se exigido que os atletas permaneçam na escola até o ensino médio. E de cara surge uma questão: apenas para cumprir tabela? Apenas para cumprir uma exigência ou há efetivamente a preocupação com a qualidade e o futuro da carreira do atleta?
Não parece ser efetivamente a qualidade ou o futuro do atleta a via primária. Normalmente, os atletas jovens contam com bolsas de estudo nos colégios privados, pelo menos essa é uma característica em São Paulo, em contrapartida eles disputam as competições escolares representando as escolas.
Em um estudo recente de Melo e colaboradores (2014) com atletas de futebol, eles detectaram que o tempo gasto com a formação no futebol pode criar dificuldade para uma vida escolar dedicada e para uma formação cultural de qualidade.
Os dados deste estudo sugerem que a formação no futebol se torna prioridade em relação à escola em função dos desejos dos atletas que buscam a pro?ssionalização. Isto ocorre por completa ausência de diálogo entre o sistema escolar e o esportivo.
Não se objetiva que tenham uma formação após a carreira esportiva, que inclusive pode ser abreviada por lesões ou por falta de espaço para o desenvolvimento. E a compreensão de que a subida para a vida adulta no esporte de alto nível é para poucos em qualquer lugar do mundo.
Ryba e colaboradores (2016) destacam que o aumento da pressão sobre o atleta adolescente na busca do sucesso esportivo e acadêmico pode render vulnerabilidade a ansiedade, a uma sobrecarga de estresse, overtraining e abandono.
Uma outra problemática é possível de ser identificada: os clubes esportivos, usualmente, planejam suas sessões de treinamento apartadas do sistema educacional, isto é, como entendem que a prioridade são eles – os treinamentos; não é incomum serem marcados exatamente nos períodos ou na transição do período, isto é, o treino inicia no final da tarde e entra no início da noite bloqueando dois períodos do dia em que o atleta deveria e poderia cursar a escola.
No sistema universitário, as características são similares aos encontrados nos anos anteriores. Os atletas obtêm bolsas de estudo para representar as Instituições de Ensino como forma de contrapartida da divulgação do nome da Instituição ou utilizam-se da exigência que, algumas delas, têm para manter seu regime filantrópico com a concessão de bolsas enquadradas com projetos sociais.
Esse sistema é diverso do realizado nos Estados Unidos, que tem o sistema esportivo integrado à escola e, principalmente, com as Universidades. Mas, a dificuldade de acesso ao sistema esportivo profissional é exígua e, exatamente por isso, que os atletas estão integrados a universidade, pois caso não consigam adentrar no sistema profissional, eles tenham uma formação universitária que lhes dê opções.
Para se ter ideia da dificuldade, um estudo de 2012, da NCAA (National Collegiate Athletic Association) que promove o esporte universitário, apontou que apenas 1,2% dos atletas universitários do basquete masculino tornaram-se profissionais e 0,9% dos atletas femininos, encontramos para o Futebol Americano (1,7%), basebol (11,6%), Hóquei masculino (1,3%) e Futebol masculino (1,0%). É evidente a reduzida chance de ascender ao esporte de alta competição. Além disso, é um claro indicativo da necessidade de proporcionar outras alternativas, além do esporte de competição, sob pena de se colocarem em condições de vulnerabilidade (REBUSTINI, 2012).
A busca da integração do esporte, mesmo no alto nível, e a escola tem sido denominado de Dupla Carreira. Para Ryba e colaboradores (2016) nos países economicamente desenvolvidos, há um aumento da expectativa que jovens atletas possam combinar suas atividades acadêmicas com as esportivas para que sejam evitadas restrições nas oportunidades futuras de estudo e opções de vida. Visa estimular uma formação não apartada entre os sistemas educacionais e esportivo.
Para que tenhamos uma ideia da perda para o atleta e para a sociedade de não termos um sistema integrado podemos utilizar a tese de doutorado de Aquilina (2009) com atletas franceses, finlandeses e ingleses em que foi possível detectar que a experiência educacional facilitou o desenvolvimento esportivo e as habilidades desenvolvidas no contexto esportivo foram vistas como transferíveis para o mundo da educação e do trabalho.
O estudo listou uma série de benefícios dessa associação, tais como:
a) planejamento e organização das competências, trabalho em equipe;
b) habilidades interpessoais;
c) capacidade de definir metas, priorizar e monitorar realizações;
d)
manutenção do compromisso;
e) desenvolvimento da proficiência e habilidades analíticas que podem facilitar a comunicação no contexto com o técnico;
f) liderança;
g) consciência de networking e negócios.
Esse cenário introduzido por Aquilina nos induz a um sistema bidirecional em que, tanto o esporte influencia o desenvolvimento de habilidades acadêmicas, como o aperfeiçoamento educacional auxilia em diversas variáveis necessárias ao desempenho do atleta de alto nível. Em um estudo qualitativo longitudinal Terragrosa e colaboradores (2015) detectaram que os atletas que tiveram a possibilidade de promover uma dupla carreira tiveram facilitadas suas transições da carreira esportiva de elite para uma carreira profissional alternativa.
Parece-nos claro o efeito mútuo da prática esportiva, seja regular e do alto rendimento, e do estudo sobre o desenvolvimento do indivíduo.
E quanto essa visão compartimentalizada e apartada de integração traz prejuízos não só ao indivíduo, mas também a sociedade ao privar o atleta de condições de caminhar com uma dupla carreira.
Esse cenário novamente expõe a ausência de uma política esportivo-educacional em todos os níveis.

*Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br
REFERÊNCIAS
AQUILINA, D. Degrees of success: negotiating dual career paths in elite sport and university education in Finland, France and the UK. Thesis. Loughborough University, Loughborough, 2009.
MELO, R. B. S.; ROCHA, H. P. A.; SILVA, A. L. C.; SOARES, A. J. G. Jornada escolar versus tempo de treinamento: a profissionalização no futebol e a formação na escola básica. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 2016. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2015.11.003.
NATIONAL COLLEGIATE ATHLETICA ASSOCIATION. Estimated probability of competing in athletics beyond the high school interscholatisc level. 2011. Disponível: http://www.granvillerec.org/wp-content/uploads/2011/05/Probability of_Competing _ Past_High_School.pdf
REBUSTINI, F. A vulnerabilidade no esporte e a exposição às novas mídias: um estudo sobre o twitter. 2012. 109 f. Tese – (doutorado) – Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro, 2012. Disponível em: <http://hdl.handle.net/11449/99076>.
RYBA, T. V.; AUNOLA, K.; KALAJA, S.; SELANNE, H.; RONKAINEN, N.; NURMI, J. E. A new perspective on adolescent athletes’ transition into upper secondary school: A longitudinal mixed methods study protocol. Cogent Psychology, n. 3, p. 1142412, 2016.
TERRAGROSA, M.; RAMIS, Y.; PALLARÉS, S.; AZÓCAR, F.; SELVA, C. Olympic athletes back to retirement: a qualitative longitudinal study. Psychology of Sport and Exercise, v. 21, p. 50-56, 2015.