A culpa nos casos de doping: treinador ou atleta?

29 de novembro de 2017 ● POR Redação

Os três recentes casos de doping flagrados pela USADA (Agência antidopagem dos Estados Unidos) entre lutadores brasileiros de MMA com contrato com o UFC (Ultimate Fighting Championship) nos últimos meses chamou a atenção, pois dois deles são ex-campeões do torneio (Junior “Cigano” e Anderson Silva) e o terceiro é outro grande nome da modalidade (Rogério “Minotouro”), possuidor de um cartel invejável no início da sua carreira, ainda que tenha sofrido algumas derrotas mais recentes. Os casos de doping não ficam restritos a estes atletas e muito menos a esta modalidade, sendo um dos temas de maior interesse e complexidade no esporte atual.

Mas quais fatores estão ligados ao doping? Quais motivos fazem os atletas buscarem estes recursos ilícitos? Será que existem características que podem predizer, ou não, o uso de substâncias proibidas? Como a psicologia do esporte pode colaborar com o entendimento deste fenômeno? Enfim, de quem é a culpa?

Os casos dos lutadores de MMA trazidos acima têm algo em comum: o flagrante do uso de substâncias dopantes ocorreu em uma fase da carreira dos atletas onde as derrotas, pouco presentes anteriormente, passaram a fazer parte da vida destes atletas, nos permitindo pensar que nestes casos o doping possa ter ocorrido pela diminuição da confiança ou pelo medo em ter novas derrotas nas próximas lutas, mas será que é única e simplesmente isso?

Embora os atletas geralmente sejam os únicos culpados pelo senso comum e por boa parte das pessoas e da mídia, devemos entender o comportamento de se dopar como algo complexo e com fatores de diversos níveis (individual, cultural, educacional, político, institucional, entre outros), como bem concluiu Blank e seus colaboradores (2016). Culpar exclusivamente o atleta pode não ser muito justo, como veremos a seguir, embora estes devam sempre ser responsabilizados por seus atos. Principalmente no alto nível em que há uma rede extensa de profissionais que fazem parte da equipe de preparação e que não podem alegar desconhecimento das regras. Mesmo havendo responsabilidade deles é sobre o atleta que recai o dano à imagem.

Estudos têm sido realizados no intuito de predizer o uso e a intenção em usar doping com diversos fatores do contexto esportivo, como o estilo interpessoal dos treinadores (NTOUMANIS et al., 2017), o vício nos atletas (FOUCART; VERBANCK; LEBRUN, 2015), a motivação dos atletas (CHAN et al., 2015), o narcisismo de atletas e treinadores (MATOSIC et al., 2016), os aspectos psicossociais e pessoais (NTOUMANIS et al., 2014) e a identidade moral dos atletas (KAVUSSANU; RING, 2017), entre outros.

Porém o que será que pensam os atletas? Vejamos: No dia 21/11/2017 o portal UOL (www.uol.com.br) divulgou uma matéria sobre os casos citados no início deste texto, onde um dos nossos maiores nomes do MMA na atualidade (José Aldo) e ex-campeão do UFC, ao comentar os casos, diz que o doping acaba por manchar toda a carreira dos atletas flagrados, ressaltando que toda substância por ele utilizada é informada para a USADA, com pedido de liberação para o uso, confirmando assim a sua lisura nas competições. Vemos que seus valores morais e de respeito ao esporte e aos demais competidores, preliminarmente, não o permitem fazer uso de substâncias ilícitas ou ilegais.

Em outro caso bastante emblemático de flagrante de uso de doping no esporte de alto nível, o da tenista russa Maria Sharapova, outro interessante aspecto está presente: a intenção, ou não, de melhorar o desempenho e a possibilidade de utilização acidental de substâncias consideradas dopantes, ou seja, o doping não intencional. Embora seja responsabilidade do atleta conhecer e seguir as regras do esporte, incluindo a lista de substâncias permitidas e proibidas, muitas vezes ocorrem casos de atletas que fazem o uso sem a intenção de melhorar o rendimento, como parece ser o caso citado acima.

Em matéria veiculada pela Folha de São Paulo em seu portal online, na data de 08/06/2016, a atleta admite o uso da substância Meldonium. Esta substância havia sido incorporada à lista da WADA (Agência mundial de controle de dopagem) no início daquele ano, e a atleta alegou não ter conhecimento desta alteração, relatando já fazer uso desta substância por 1 década. O tribunal que julgou seu caso entendeu que a atleta não violou intencionalmente as regras, porém a atleta recebeu uma suspensão inicial de 2 ano no direito de jogar tênis.

Chan e seus colaboradores (2015) publicaram no ano passado um interessante artigo sobre a psicologia do doping não intencional, realçando que realmente em muitos casos os atletas fazem uso de substâncias sem a intenção de ferir as regras e obter qualquer vantagem competitiva, mas que é importante que mesmo estes casos sejam evitados, mantendo a lisura da competição para que todos compitam em igualdade de condições. Os autores citam ainda que a WADA, além de controlar o uso das substâncias, tem usado a estratégia de aumentar o conhecimento dos atletas sobre tais casos, procurando alertá-los sobre as suas formas de evitar o doping mesmo que não intencional.
Como vimos, os casos de doping são realmente muito complexos e envolvem diversos fatores, sendo muito difícil fazer um justo julgamento de cada caso em específico sem um grande conhecimento, como é o caso da mídia esportiva e das pessoas em geral, que acabam condenando os atletas sem as informações suficientes.

Vale lembrar a punição dos atletas russos que foram proibidos de participar dos Jogos Olímpicos de verão no Rio de Janeiro do ano passado, onde o entendimento foi o de haver um envolvimento político nacional, de forma que muitos atletas, embora tivessem feito uso de substâncias proibidas, poderiam ser vistos como vítimas do sistema político daquele país e não meros trapaceadores. Mais uma vez lembro da responsabilidade de cada atleta, mesmo estes que possam ter sofrido pressões governamentais ou de pessoas influentes e poderosas.

Não há defesa de nenhum dos lados, nem dos atletas e nem das agências de controle de dopagem, apenas refletindo sobre os diversos aspectos envolvidos em cada um dos casos, para que deixemos de adotar a postura de julgamentos simples e rápidos e de culpar apenas os atletas sem verificar o contexto presente em cada caso. Mas também não se pode ignorar a plausibilidade da negação. Assim, não existem santos e nem demônios no esporte, o que existe são pessoas que praticam esporte imersos em diferentes contextos, com sentimentos, pensamentos, valores e comportamentos diferentes, de maneira que um bom entendimento destes antes de fechar um julgamento torna-se fundamental e mais honesto e justo.

Visto tudo isso sobre o doping, nós preferimos acreditar na palavra de um atleta honesto e seguidor de todas as regras, pelo menos, até que se prove o contrário, quando diz que os casos de doping acabam por manchar toda uma carreira, e a única forma de não estar envolvido em nenhum caso é procurando se informar, sobre todos estes pontos tratados neste texto e diversos outros não abordados, não estando envolvido em nenhum caso voluntário e minimizar as chances de um caso involuntário, mantendo sua carreira limpa, sem manchas, mesmo que esta não seja a de um campeão olímpico ou mundial.

REFERÊNCIAS

Blank, C.; Kopp, M.; Niedermeier, M.; Schnitzer, M.; Schobersberger, W. Predictors of Doping Intentions, Susceptibility, and Behavior of Elite Athletes: a meta-analytic review. Springerplus, v.5, n.1, 2016.
Chan, D. K. C.; Dimmock, J. A.; Donovan, R. J.; Hardcastle, S.; Lentillon-Kaestner, V.; Hagger, M.S. Self-determined motivation in sport predicts anti-doping motivation and intention: A perspective from the trans-contextual model. Journal of Science and Medicine in Sport, v. 18, n. 3, p. 315-322, 2015.
Chan, D. K. C.; Ntoumanis, N.; Gucciardi, D. F.; Donovan, R. J.; Dimmock, J. A. Hardcastle, S. J.; Hagger, M. S. What if it really was an accident? The psychology of unintentional doping. British Journal of Sports Medicine, v. 50, n. 15, p. 898-899, 2016.
Foucart, J.; Verbanck, P.; Lebrun, P. Doping, Sport and Addiction: Any Links? Revenue Medicale de Bruxelles, v. 36, n.6, p.485-493, 2015.
Kavussanu, M.; Ring, Christopher. Moral Identity Predicts Doping Likelihood via Moral Disengagement and Anticipated Guilt. Journal of Sport & Exercise Psychology, v. 39, n. 4, p. 293-301, 2017.
Matosic, D.; Ntoumanis, N.; Boardley, I. D.; Stenling, A.; Sedikides, C. Linking Narcissism, Motivation, and Doping Attitudes in Sport: A Multilevel Investigation Involving Coaches and Athletes. Journal of Sport & Exercise Psychology, v. 38, n. 6, p. 556-566, 2016.
Ntoumanis, N.; Barkoukis, V.; Gucciardi, D. F.; Chang, D. K. C. Linking Coach Interpersonal Style With Athlete Doping Intentions and Doping Use: A Prospective Study. Journal of Sport & Exercise Psychology, v. 39, n. 3, p. 188-198, 2017.
Ntoumanis, N.; Ng. J. Y. Y.; Barkoukis, V.; Backhouse, S. Personal and Psychosocial of Doping Use in Physical Activity Settings: A Meta-Analysis. Sports Medicine, v. 44, n. 11, p. 1603-1624, 2014.
https://esporte.uol.com.br/ultimas-noticias/ag-fight/2017/11/21/aldo-admite-que-novo-caso-de-doping-mancha-carreira-de-anderson-silva.htm
http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/06/1779482-sharapova-e-condenada-por-doping-e-esta-fora-da-rio-2016-tenista-vai-recorrer.shtml


Carlos Drigo é Profissional de Educação Física e Psicólogo. Especialista em Psicologia do Esporte, Futebol e Treinamento Esportivo. Mestrando em Desenvolvimento Humano e Tecnologias e membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte (LEPESPE) na UNESP / Rio Claro.
Flávio Rebustini é Pos-Doutor pela UNESP/Rio Claro e Pós-Doutor pela UQTR (Canada). Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br