A mudança no ambiente esportivo: a luta do século e a corrida da semana

13 de setembro de 2017 ● POR Redação

Há duas semanas, dois grandes eventos esportivos atraíram a atenção de milhões de pessoas por todo o mundo. Embora sejam eventos de modalidades esportivas bastante diferentes, ambos deixaram claro o impacto das mídias e das tecnologias nos esportes. No sábado (26/08) a luta entre o boxeador Floyd Mayweather e o lutador de MMA Conor Mc Gregor, embora se tratasse de uma luta de exibição, movimentou cifras na casa dos bilhões de reais, tendo seus direitos vendidos para TVs de mais de 200 países, através do Pay-per-view. Já no domingo, o GP da Bélgica de Fórmula 1 que foi transmitido no Brasil ao vivo pela TV aberta, mostrou todo seu costumeiro arsenal de recursos tecnológicos, tanto nos carros, com um grande número de inovações, como nas tecnologias empregadas durante as transmissões, onde os espectadores têm acesso, por exemplo, ao áudio do sistema de rádio utilizado pelos pilotos para se comunicarem com suas equipes durante as corridas quase que em tempo real e as chamadas câmeras “on-board” nos carros.  

O público atingido na noite de lutas de boxe chegou a impressionar até mesmo os especialistas e organizadores, tendo sido estimado o número de espectadores, somente nos EUA, na casa dos 50 milhões de pessoas, tendo batido todos os recordes deste esporte. Embora seja conhecida a atração do público pelas grandes estrelas das lutas (REAMS & SHAPIRO, 2017), uma repercussão global como essa aumenta ainda mais a importância das mídias e da tecnologia nos esportes. Através de todo um plano de marketing em torno deste evento de alcance global, consumido por milhões de pessoas e patrocinado por grandes marcas e empresas, foi possível pagar luvas aos lutadores em valores que chegam a quase meio bilhão de dólares americanos, por menos de 30 minutos de luta efetiva.

Mas como ficam as emoções, a motivação, a confiança, os medos e as ansiedades dos atletas diante de um cenário como este? Certamente que todo este contexto é um potencial estressor para os atletas, e precisa ser considerado no momento de preparação ao longo dos anos e especialmente nos períodos específicos que antecederam esta luta, possibilitando uma melhor adaptação e melhor desempenho esportivo. Indo além dos atletas, como ficam as emoções para todos os outros participantes do ambiente esportivo de alta competição? Poderíamos considerar que os treinadores e demais participantes profissionais também estão ou, esperasse, que estejam preparados para lidar com essas emoções. Mas e os fãs? Como lidam com a intensidade da ansiedade, excitação, agressividade, provocações e tantas outras variáveis? Como lidar com todo o jogo midiático que busca gerar uma ligação emocional entre eles e o evento, por vezes, fazendo com que os fãs extrapolem as reações.

Neste sentido, em uma visão sistêmica do desenvolvimento humano, como por exemplo da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano proposta por Bronfenbrenner (1994), um sistema tem o potencial de afetar todos os demais. Assim, não podemos, muitas por vezes ver nenhum aspecto como inicialmente positivo ou negativo, e o resultado, por exemplo, de receber tanto dinheiro, vai depender da forma como o atleta lida com tal situação, de maneira que até mesmo essas enormes quantias recebidas possa ser ruins para os lutadores, dependendo de uma série de fatores, como a cultura pessoal e esportiva, o seu passado, seus valores, e inclusive seus treinamentos.   

Logo cedo no domingo (27/08), assistindo o GP da Bélgica de F1, vemos mais uma vez o impacto das tecnologias no esporte. Através da transmissão televisiva, todo o público pode ouvir os desentendimentos entre Fernando Alonso, um dos pilotos da equipe Mc Laren, e sua equipe. Este fato até desviou a atenção do principal, a luta pela vitória. O piloto espanhol, bastante irritado com os ajustes do carro, solicita que a equipe não fale mais com ele pelo rádio até o final da corrida, ainda que mais adiante ele mesmo os chamou no rádio para lamentar o desempenho.

É a intimidade das equipes e dos pilotos exposta para quem quiser tomar conhecimento. Essa exposição dos pilotos e dos engenheiros pode ser vista como um fator associado à vulnerabilidade, perpassando diversas categorias e classes do modelo de vulnerabilidade proposto por Rebustini e Machado (2016), onde diversos participantes do contexto esportivo estão envolvidos, como pilotos, engenheiros, mídias e fãs.

Enfim, mesmo os esportes que pouco mudaram suas regras nos últimos anos sofreram alterações drásticas em suas dinâmicas em virtude dos avanços tecnológicos e o trabalho de todos que estão em torno dos atletas precisa levar em consideração tais alterações para que as intervenções sejam as mais precisas e efetivas possível.

Aproveito para felicitar a todos os que dedicam seus dias para cuidar da saúde da população e elevar o esporte ao seu patamar mais alto pelo Dia do Profissional de Educação Física que se comemorou no dia primeiro de setembro.

Referências

Bronfenbrenner, U. Ecological models of human development. International Encyclopedia of Education, Vol. 3, 2nd. Ed. Oxford: Elsevier, 1994

REAMS, L.; SHAPIRO, S. Who’s the main attraction? Star power as a determinant of Ultimate Fighting Championship pay-per-view demand European Sport Management Quarterly, v. 17, n. 2, p. 132-151, 2017.

REBUSTINI, F. MACHADO, A. A. Modelo hierárquico de vulnerabilidade no esporte. Pensar a Prática, v. 19, n. 4, p. 939-952, 2016.

Carlos Drigo – Educador Físico e Psicólogo. Especialista em Psicologia do Esporte. Mestrando em Desenvolvimento Humano e Tecnologias – UNESP – Rio Claro.

Flávio RebustiniProf. Dr. Flávio Rebustini – Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (UNESP – RC). Coordenador da Pós em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio.