Badminton rompe fronteiras e cai no gosto de alunos de escola pública de Itanhaém

23 de outubro de 2017 ● POR Redação

Por Alessandro Lucchetti

Dentre os esportes olímpicos, talvez o badminton seja a modalidade mais “alienígena” segundo a perspectiva brasileira. O professor de Educação Física Diego Pinto Jabois, que introduziu com sucesso a sua prática numa escola pública do município litorâneo paulista de Itanhaém, a  E. M. Harry Forssell, concluiu que essa prática esportiva era uma completa estranha para seus alunos. “Em breve mapeamento realizado no local (comunidade e escola) foi constatado que muitos alunos desconheciam por completo a modalidade, com dificuldade inclusive em pronunciar a palavra ‘badminton'”, relata o educador no texto “A escola que ‘chuta’ também ‘rebate’: o jogo de badminton nas aulas de educação física escolar”, apresentado no V Seminário de Metodologia do Ensino de Educação Física, na Escola de Educação Física da USP.

Jabois começou a praticar o esporte para reduzir seu peso corporal. Ao mesmo tempo, buscou uma especialidade esportiva para ampliar o currículo na escola. A primeira experiência prática dele com o badminton ocorreu no SESC de Santos, por meio de uma oficina proposta pela federação paulista (FEBASP). A partir daquele momento, em 2011, ele começou  a treinar regularmente, inclusive em contato com Luis Manoel Barreto, um dos pioneiros da modalidade no Brasil. “Desde então venho me especializando. Até o momento, tenho dois cursos pela FEBASP (árbitro e professor) e dois pela Confederação Brasileira, a CBBd, de nível técnico. “Treino quase diariamente e venho através desse envolvimento aproximando meus alunos”, afirma Jabois, em entrevista ao Portal da Educação Física.

22810444_1917984408218741_139234518_oFonte: Diego Jabois

O envolvimento com a modalidade tornou possível o recebimento de material (raquetes e petecas) por meio de doações de colegas e amigos. “Às vezes a FEBASP faz doações de kits escolares para iniciação, dependendo da disponibilidade de patrocínio. No primeiro momento tive uma pequena ajuda da federação com alguns kits, mas logo em seguida amigos e ex-atletas foram singulares na expansão do material na escola. Acredito que as federações estaduais podem e devem ajudar, afinal o badminton é uma modalidade olímpica democrática, em franca e notória ascensão no Brasil”, relata o entusiasta do esporte.

O professor viu no badminton a possibilidade de diversificar as atividades dos alunos, antes atraídos quase que exclusivamente pelo “interesse daltônico” pelo futebol, nas palavras dele. “O futebol é o único meio de atividade esportiva considerada e perpetuada. Esses interesses muito se distanciavam de uma educação física múltipla, democrática e rica em suas diversas formas de expressões”, relata Jabois.

22789974_1917984191552096_154022762_oFonte: Diego Jabois

Segundo o professor, a prática do badminton, que consiste em golpear uma peteca com uma raquete leve, fazendo-a a passar por cima de uma rede, tentando atingir a quadra adversária, não requer “grandes habilidades prévias específicas”. “O badminton pode incluir alunos com deficiências auditivas, motoras e cognitivas leves, bem como meninas e meninos juntos”, escreve ele.

“Fiz uma pequena demonstração logo após um seminário envolvendo o estudo de esportes com raquete com alunos das séries finais do ensino fundamental (8º e 9º) anos, em 2013. Desde então adotamos o badminton como uma proposta permanente (currículo) a ser vivenciada por todos os educandos nas aulas de educação física. Uma das questões ligadas ao sucesso da abordagem e do desenvolvimento da modalidade está na facilidade de acertar a peteca e de juntar meninos e meninas sem a menor habilidade esportiva no mesmo local. Dessa maneira, todos estão começando do zero e a chance de sucesso é enorme e prazerosa. Até neutralizamos o valor dos mais habilidosos, pois no badminton muitas habilidades são reveladas. A principal está diretamente ligada à tomada de decisão, agilidade e raciocínio rápido, como um jogo de xadrez. Com o passar do tempo, foram feitos trabalhos, vídeos e pesquisas sobre o tema. Hoje é uma realidade escolar incorporada na comunidade sem grandes necessidades de apresentação, pois passa dos mais velhos para os mais novos no mesmo espaço escolar, de forma natural”.   

22812629_1917983341552181_1927639309_oFonte: Diego Jabois

Jabois, que começou a praticar o esporte para se livrar de alguns quilos extras, acha que acabou esbarrando na melhor recomendação possível de prática esportiva para estudantes. “Na minha opinião é o esporte escolar ideal: não é sexista, é de fácil acesso e prazeroso. É um dos poucos disputados em duplas mistas na Olimpíada. Pode ser praticado de forma lúdica. Talvez o único problema esteja ligado à necessidade se ser praticado em locais cobertos, uma necessidade para se minimizar a ação do vento na peteca. Outra grande vantagem é ser democrático também quando o assunto é idade. Em quadra é possível esse encontro porque a rede divisória tem 1,55 de altura e a quadra tem pouco alcance: 13,40m por 6,10m (retângulo) e raquetes leves, em média 85g, ou ainda menores quando a prática é lúdica”.

22752602_1917983561552159_507187378_nFonte: Diego Jabois

Depois de tomar algum espaço do futebol na preferência da garotada, o badminton se revelou capaz também de medir forças com outro adversário: o celular. “Estamos em expansão e agora temos uma alternativa, diferente do futebol e dos demais esportes de quadra conhecidos historicamente no currículo. É um esporte que está colaborando para a adesão, em tempos de celular, às aulas de educação física. Outra questão que vale a pena mencionar é o retorno das meninas às aulas e o rompimento da resistência dos alunos a experimentar novas modalidades. Esse é o sucesso que o badminton proporcionou: ampliação cultural da linguagem esportiva presente nas modalidades alternativas”, conclui o professor.

22752611_1917983594885489_1044903878_nFonte: Diego Jabois

O projeto está em plena expansão. A prefeitura de Itanhaém cogita construir um ginásio voltado para o desenvolvimento do badminton no terreno da escola. “Aos finais de semana, os alunos levam os materiais emprestados, assim como se faz na biblioteca, para treinar e brincar em casa ou na comunidade. Já participaram de eventos e festivais de iniciação como incentivo e reconhecimento. No momento estamos tentando adotar treinos fora do período regular para reunir os educandos fora do horário e dentro da escola, como projeto de iniciação esportiva. Os alunos estão mais participativos e abertos a novas experiências. Graças ao badminton, raquetes e petecas não são mais estranhas ou privilégio exclusivo de ‘gente rica’. Essa sempre foi a opinião dos alunos, antes do projeto. Vejo que, além de tudo, fronteiras sociais também foram questionadas”.