Crianças, adultos e adultos com Down se movimentam da mesma forma? Pesquisa explica

19 de dezembro de 2017 ● POR Pedro Cunácia

O desenvolvimento motor acontece de maneira contínua, seqüencial e progressiva. Presume-se que cada etapa desse processo reflita um estado de organização particular do comportamento motor (MANOEL, 1989). Embora a natureza de tal organização seja matéria de grande controvérsia, há na literatura vários modelos que descrevem a seqüência de desenvolvimento motor, identificando fases e estágios ao longo do ciclo vital. Esses modelos enfocam aspectos específicos de acordo com o fim a que se destinam, por exemplo, alguns são preocupados com questões teóricas sobre como ocorre o desenvolvimento (p.e. MANOEL, 1994), outros são orientados à aplicação no desenvolvimento curricular (GALLAHUE & OZMUN, 1998; SEAMAN & DEPAUW, 1982; TANI, MANOEL, KOKUBUN & PROENÇA, 1988). Uma das etapas que recebeu grande atenção dos pesquisadores foi a dos padrões fundamentais de movimento, também conhecidos por habilidades básicas (cf. WICKSTROM, 1983).

A facilidade ou dificuldade na aquisição de habilidades específicas tem sido atribuída ao nível de desenvolvimento atingido na etapa de aquisição dos padrões fundamentais de movimento. Entretanto, MANOEL (1994) e TANI et al. (1988) procuraram mostrar que um fator importante na transição para as habilidades específicas refere-se à combinação de habilidades básicas. Essa etapa do desenvolvimento recebeu pouca atenção da comunidade científica (MANOEL, 1994; SEEFELDT, 1980, 1996; THOMAS, 1989). De fato, sabe-se muito pouco ou nada sobre como ocorre a combinação de movimentos fundamentais sem falar no seu desenvolvimento.

Entretanto, há uma carência de concepções sobre o que vem a ser uma combinação entre dois ou mais padrões fundamentais de movimento. Considerando a natureza seriada das habilidades poder-se-ia concluir que elas sempre envolvem a combinação de componentes mais simples. Habilidades seriadas correspondem a “um conjunto de habilidades discretas seqüenciadas para se transformar em uma ação habilidosa nova e mais complexa” (SCHMIDT, 1993, p.7).

Em geral, nesse tipo de habilidade, a ordem de execução dos componentes e o grau de integração entre eles são importantes para a sua realização. As características de uma habilidade seriada são evidenciadas, por exemplo, durante a combinação das habilidades correr e arremessar realizada por um atleta de arremesso de dardo. Para que o atleta consiga executar essa tarefa ele estabelece uma forma de sobreposição entre os padrões de movimento correr e arremessar (HAY, 1978). Essa sobreposição pode ser identificada por modificações na passada, no tronco e na maneira de atrasar o braço. A forma como acontece essa sobreposição representa um fator importante na transferência da velocidade desenvolvida durante a corrida para a propulsão do implemento, no caso o dardo (BROER, 1973; MERO, KOMI, KORJUS, NAVARRO & GREGOR, 1994; MILLER & MUNRO, 1983; UEYA, 1992). Os movimentos que ocorrem na corrida durante a combinação dificultariam a manutenção da velocidade. Inevitavelmente, deve haver uma redução da velocidade no final do trajeto para que a combinação possa ser efetuada (MERO et al., 1994). Esses autores destacam que os atletas que apresentam um desempenho melhor nesse tipo de tarefa são justamente os que conseguem efetuar as modificações sem reduzir demasiadamente a velocidade. Isso significa que há uma correlação alta entre a fluência com que os componentes são acionados durante a corrida e a capacidade de manutenção da velocidade.

Se considerarmos uma criança de cinco anos de idade efetuando tarefa similar teremos um quadro bem diferente. Muito provavelmente a criança iria interromper bruscamente a corrida e, em seguida, arremessar. Trata-se de um tipo de execução onde não existe uma sobreposição efetiva entre os componentes corrida e arremesso. Falta à habilidade, o que BARTLETT (1958) denominou de estruturação temporal adequada entre os seus componentes. É possível também que, a velocidade da corrida em momentos próximos ao arremesso não seja reduzida, em virtude de não acontecerem alterações nos padrões e por isso, a criança se veja na situação de ter que parar bruscamente a corrida para efetivar movimentos que compõem o arremesso.

Com esses dois exemplos anteriores pode-se ilustrar alguns aspectos que definem uma combinação. O atleta realiza modificações na corrida e no arremesso com o intuito de integrá-los. Contudo, a criança encerra bruscamente um componente e, em seguida, executa o outro. Não há sobreposição entre os componentes e consequentemente a combinação não existe. Nesse sentido, não basta executar duas ou mais habilidades em seqüência. É necessário que haja uma fluência entre elas, um “timing” ao conjunto das habilidades e não a uma delas em particular. Isto implica na necessidade de modificar a estrutura dos componentes para garantir a sobreposição entre eles. MANOEL (1994) e TANI et al. (1988) argumentam que crianças entre seis e 11 ou 12 anos encontram-se na fase de combinação de movimentos fundamentais. Esse fato faz com que particularmente seja importante investigar como acontece a combinação de habilidades motoras junto a indivíduos nessa faixa etária. Reconhecidamente, indivíduos portadores da SD apresentam características como a lentidão, seleção de estratégias não usuais e atraso na aquisição dos padrões fundamentais de movimento (BLOCK, 1991; HENDERSON, 1985; MAUERBERG-DE CASTRO & ANGULO-KINZLER, 2000; NABEIRO, DUARTE & MANOEL, 1995; PEDRINELLI, 1989; SEAMAN & DEPAUW, 1982; SHERRILL, 1988).

Além do desconhecimento sobre a fase de combinação de movimentos fundamentais, há na literatura comentários que sugerem um atraso no alcance da fase de movimentos culturalmente determinados por parte de indivíduos portadores de deficiência mental (AUXETER, PYFER & HUETIG, 1993; BLOCK, 1991; PEDRINELLI, 1989; SEAMAN & DEPAUW, 1982; SHERRILL, 1988; ULRICH & ULRICH, 1993; WINNICK, 2000). Esse atraso poderia estar associado a um pobre desenvolvimento da combinação de habilidades básicas. Dentre os indivíduos portadores de deficiência mental, os com Síndrome de Down (SD) apresentam como característica básica dificuldades para formar e selecionar programas motores (ANWAR, 1986; INUI, YAMANISHI & TADA, 1995; KERR & BLAIS, 1985; MOSS & HOGG, 1987; SUGDEN & KEOGH, 1990). Em se confirmando essa hipótese, esses indivíduos teriam problemas não só para executarem padrões fundamentais, como, principalmente para combiná-los. Essa ideia pode ser concebida quando analisados os estudos em que tarefas experimentais exigiram a sobreposição entre vários componentes ordenados sequencialmente (INUI, YAMANISHI & TADA, 1995; MOSS & HOGG 1987).

Outro aspecto que merece atenção é a sugestão de que indivíduos portadores da SD recorrem a estratégias motoras diferentes ou não usuais para a solução de um determinado problema motor, quando comparados a indivíduos normais (LATASH, 1993; LATASH & ANSON, 1996; MANOEL, 1996; SUGDEN & KEOGH, 1990). Nesse caso, as restrições do organismo constituiriam um fator relevante na escolha dos movimentos a serem utilizados no alcance de suas metas motoras. Essas ideias advêm do trabalho de NEWELL (1986), no qual o autor propõe a interrelação entre as restrições do organismo, tarefa e ambiente para o controle do movimento. De qualquer forma, pouco se sabe sobre esse aspecto ou outros mais gerais quando se pergunta como os portadores da SD combinam habilidades básicas ou movimentos fundamentais.

Alguns estudos já foram conduzidos com o intuito de avaliar o nível de desenvolvimento dos movimentos fundamentais, como arremessar e correr (p.e. DOBBINS & RARICK, 1976; DIROCCO & ROBERTON, 1981; JUNGHANNEL, PELLEGRINI & NABEIRO, 1986). Os resultados indicam que essas habilidades se desenvolvem normalmente, ainda que numa taxa mais lenta se comparada com as crianças normais. Isso tem sido evidenciado inclusive para a emergência de habilidades básicas (ULRICH, ULRICH & COLLIER, 1992). Além do atraso, outro problema tem sido levantado. Os padrões coordenativos esperados para os movimentos fundamentais, ao serem atingidos apresentam problemas no controle de parâmetros do movimento. Por exemplo, DIROCCO, CLARK e PHILLIPS (1993) não encontraram diferenças na forma do padrão de saltar horizontal entre crianças normais e portadoras de deficiência mental moderada, entretanto, a distância atingida pelo salto foi diferente entre esses grupos. Esses resultados corroboraram os encontrados por DAVIS e KELSO (1982) que ao estudarem indivíduos portadores de deficiência mental em tarefas de laboratório, evidenciaram um descompasso entre a aquisição da coordenação (topologia do movimento) e do controle (atribuição de parâmetros ao movimento).

Finalmente, encontramos resultados que sugerem uma maior dificuldade de indivíduos portadores da SD para se ajustar a variações nas restrições da tarefa. NABEIRO, DUARTE e MANOEL (1995) solicitaram que crianças portadoras da SD efetuassem o movimento fundamental de arremessar em três condições: à distância, a um alvo fixo e a um alvo móvel. NABEIRO, DUARTE e MANOEL (1995) constataram um alto grau de estabilidade no padrão entre as condições, isto é, apesar das alterações nas demandas da tarefa, essas crianças pouco modificaram o padrão. Essa dificuldade em variar os movimentos para ir ao encontro das diversas demandas do ambiente e da tarefa é uma das características principais da deficiência (TOUWEN, 1978). Em resumo, os estudos sobre movimentos fundamentais indicam que os portadores da SD podem atingir os estágios mais avançados desses padrões, embora apresentem um atraso nesse processo, dificuldades no controle para sua implementação e nos ajustes para acomodar as variações nas demandas da tarefa e do ambiente. E

m que medida as dificuldades apresentadas para formar programas motores vão se manifestar na combinação ainda é uma incógnita. Pelos resultados encontrados pode-se supor que a combinação será efetuada, apesar das dificuldades para ajustar um padrão ao outro. A combinação de dois ou mais padrões fundamentais de movimento implica necessariamente numa forma de sobreposição entre eles. Mais especificamente, no que diz respeito à combinação dos padrões fundamentais de movimento como correr e arremessar, essa sobreposição pode ser identificada por uma modificação gradual do padrão de correr e por uma redução da velocidade no final da corrida (MERO et al., 1994). Além disso, a partir da execução de uma tarefa como essa, na qual um implemento, como a bola, é lançado à distância, é possível obter uma medida de produto, a distância alcançada pela bola. Assumindo que a eficiência num movimento depende da combinação de forças aplicadas na melhor direção e com o mínimo de dispêndio de energia (BROER, 1973; FRONSKE, BLACKMORE & ABENDROTH-SMITH, 1997), é possível considerar a distância alcançada pelo implemento com o arremesso como um indicativo de eficiência da combinação. Particularmente, essa eficiência na combinação se torna mais evidente ao se estabelecer uma comparação entre a distância alcançada pela bola na combinação, com aquela em que o arremesso não é precedido pela corrida. A sobreposição adequada dos padrões deve criar uma condição vantajosa para o arremesso, fazendo com que o objeto seja propulsionado mais longe (MERO et al., 1994).

Tomando como referência a combinação dos padrões fundamentais de movimento correr e arremessar, algumas questões podem ser formuladas:

1)É possível identificar um padrão de sequenciamento na tarefa de combinação em crianças, adultos e adultos portadores da Síndrome de Down? Se possível, qual é esse padrão?

2)Existe uma correlação entre o padrão de sequenciamento e a eficiência no arremesso?

3)Há uma redução da velocidade na fase final da corrida nas execuções dos sujeitos? Se houver essa redução, há uma correlação entre ela e a eficiência no arremesso?

4) Há diferenças importantes no processo e produto da combinação entre indivíduos que apresentam diferentes estados de desenvolvimento (adultos e crianças) e portadores da Síndrome de Down?

Resumo

O presente trabalho teve por objetivo investigar como indivíduos com e sem Síndrome de Down combinam padrões fundamentais de movimento. O critério adotado para identificar a combinação foi a existência de uma sobreposição entre as habilidades envolvidas de modo que a transição entre elas ocorresse sem interrupção. Três grupos (GC = sete crianças normais; GA = sete adultos normais e GSD = sete adultos portadores da Síndrome de Down) tomaram parte no estudo cuja tarefa era correr e em seguida arremessar uma bola de tênis o mais longe possível. Os indivíduos realizaram três tentativas e, os registros efetuados foram o padrão de movimento utilizado e a distância alcançada pela bola no arremesso. Por meio da análise das imagens em vídeo foi possível estimar a velocidade desenvolvida ao longo do trajeto de corrida. A maioria dos indivíduos combinou os padrões. Contudo, houve diferenças qualitativas nos padrões de combinação apresentados. Os indivíduos adultos normais comportaram-se mais consistentemente. O padrão das crianças não foi qualitativamente diferente dos indivíduos portadores da Síndrome de Down.

Para ler o estudo na íntegra, clique aqui: https://www.revistas.usp.br/rbefe/article/view/16553/18266

Autores: Roberto GIMENEZ; Edison de Jesus MANOEL; Dalton Lustosa de OLIVEIRA; Luciano BASSO.

Publicação: Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.18, n.1, p.101-16, jan./mar. 2004