Educação Física é um dos pilares ideológicos do regime norte-coreano

30 de maio de 2018 ● POR Redação

Por Alessandro Lucchetti

Presença constante no noticiário internacional devido às ameaças representadas por seu programa nuclear, a Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo, tem um destino traçado na esfera dos esportes: tornar-se uma potência no maior número possível de modalidades. Ao menos essa é uma das ambições do megalomaníaco ditador Kim Jong-un.

Assim como a maior parte dos países de regime comunista, a Coreia do Norte enxerga o esporte como eficiente instrumento de propaganda. Na última edição dos Jogos Olímpicos de verão, a Rio 2016, o país ficou na satisfatória 34ª posição, o que contrasta com o lugar que ocupa na lista de países por IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), a 177ª. Em Londres-2012, os norte-coreanos obtiveram quatro medalhas de ouro, uma a mais do que o Brasil.

Sabe-se que Kim Jong-un é fã de basquete – ele assistia a partidas da NBA pela TV durante os anos em que estudou na Suíça, e desenvolveu uma amizade surpreendente com Dennis Rodman, campeão da liga americana pelo Detroit Pistons e pelo Chicago Bulls.

Uma das metas de Kim Jong-un é fazer de seu país um expoente nos esportes que demonstrem virilidade, como o levantamento de peso. No Mundial de 2015, em Houston, nos EUA, a nação asiática foi a terceira maior medalhista, atrás apenas de China e Rússia.

Nas escolas, o objetivo da Educação Física é tornar os cidadãos fisicamente aptos para o trabalho e para o serviço militar.
Kim Il-sung, avô de Kim Jong-un e primeiro líder da Coreia do Norte, desde a divisão da Coreia, em 1948, acreditava que a Educação Física formava um dos três pilares da pedagogia socialista, para tornar seus cidadãos revolucionários, da classe trabalhadora e comunistas. A dinastia Kim sempre colocou a ideologia acima de tudo, mas também enxerga nos esportes e na cultura física instrumentos de poder. Kim Il-sung declarou que “as atividades físicas cultivam a coragem, audácia, força e perseverança”.

Kim Jong-un já declarou que apenas os atletas poderiam fazer a bandeira norte-coreana tremular no céu de outros países em tempos de paz. “É o dever sagrado deles exaltar e prestigiar a honra do nosso país conquistando medalhas de ouro”.
Até hoje, a façanha esportiva mais comentada da Coreia do Norte foi a vitória sobre a Itália na primeira fase da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, por 1 a 0. O resultado eliminou do Mundial a Azzurra, que foi recebida no aeroporto de Fiumicino, em Roma, com uma chuva de tomates podres.

Os torcedores de Middlesbrough, sede do grupo 4 da Copa de 1966, foram conquistados pelo esforço dos pequenos e velozes jogadores coreanos. “Naquele dia, eu aprendi muito sobre o poder do futebol”, disse Pak Do-ik, o autor do gol da vitória, em 2002, ao jornal The Guardian. Naquele ano, o diretor Daniel Gordon levou os jogadores norte-coreanos sobreviventes de volta a Middlesbrough, durante a gravação de um documentário da BBC em que é contada a história da façanha norte-coreana. No jogo seguinte, pelas quartas de final, a Coreia do Norte chegou a abrir 3 a 0 sobre o Portugal de Eusébio, que virou para 5 a 3. “Quando marquei aquele gol, o povo de Middlesbrough nos recebeu em seus corações. O futebol pode melhorar relações diplomáticas e promover a paz”, afirmou Pak.

Na transmissão da BBC, o narrador Frank Bough destacou o entusiasmo da torcida no duelo com a Itália. “Eles nunca torceram pelo Middlesbrough desse jeito”.

Na fase seguinte, 3 mil torcedores de Middlesbrough viajaram até Liverpool para torcer pelos norte-coreanos na partida contra Portugal.

Outra façanha esportiva notável do país foi a conquista da medalha de ouro na maratona feminina no Mundial de Atletismo de 99, em Sevilha, por Jong Song-ok. “Imaginei na minha mente nosso líder Kim Jong-il, e isso me inspirou”, disse a fundista, na época. “Essa foi a fonte da minha força”.

Nos treinos, Jong costumava correr de 35 a 40 quilômetros diariamente pelas montanhas de seu país. Com esse esforço, conseguiu superar e então campeã olímpica, a etíope Fatuma Roba.