Entenda por que a técnica FNP “hold-relax” melhora torque e amplitude articular

06 de fevereiro de 2018 ● POR Redação

Níveis adequados de flexibilidade permanecem sendo um importante atributo físico para o desempenho de modalidades esportivas, atividades relacionados à vida diária e para a manutenção de um estilo de vida independente (MAZZEO, VAVANAGH, EVANS, FIATATORE, HAGBERG, MCAULEY & STARTZELL, 1998). A flexibilidade refere-se a extensibilidade dos tecidos periarticulares para permitir movimento normal ou fisiológico de uma articulação ou membro (FLECK & KRAEMER, 2006) e os exercícios visando o aprimoramento desse aspecto apresentam como característica a máxima amplitude fisiológica passiva ou ativa em um dado movimento articular (ALTER, 1999).

Exercícios visando aumento da flexibilidade são comumente realizados em sessões de aquecimento que compreendem todas as medidas que visam a preparação para o esporte, visando a obtenção do estado ideal psíquico e físico, para a realização da atividade (ALTER, 1999). Essa prática é comum tanto em academias como em competições de alto nível. Existem diversas técnicas descritas na literatura, sendo que grande parte dos estudos abordam exercícios estáticos (CRAMER, HOUSH, JOHNSON, MILLER, COBURN & BECK, 2004; CRAMER, HOUSH, WEIR, MILLER, COBURN & BECK, 2005;EVETOVICH, NAUMAN, CONLEY & TODD, 2003; FOWLES, SALE & MACDOUGALL, 2000; FUNK, SWANK, MIKLA, FAGAN & FARR, 2003; KNUDSON & NOFFAL, 2005; KUBO, KANEHISA, FUKUNAGA & KAWAKAMI, 2001; OGURA, MIYAHARA, NAITO, KATAMOTO & AOKI, 2007; VETTER, 2007; YOUNG & ELLIOT, 2001) e/ou exercícios com técnicas de facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) (FERBER, OSTERNIG & GRAVELLE, 2002; FUNK et al., 2003; SPERLOGA, UHL, ARNOLD & GANSNEDER, 2001; SULLIVAN, DEJULIA & WORREL, 1992; YOUNG & ELLIOT, 2001).

A maioria dos estudos tem mostrado que, embora ambas as técnicas apresentem resultados favoráveis, as técnicas de FNP proporcionam maiores aumentos da amplitude de movimento do que os exercícios estáticos (SPERLOGA et al., 2001; SULLIVAN, DEJULIA & WORREL, 1992). Isso porque tais técnicas poderiam induzir a uma diminuição da atividade muscular, sugerida por menores amplitudes do sinal eletromiográfico após a execução de exercícios que utilizam essa técnica (FERBER, OSTERNIG & GRAVELLE, 2002; FOWLES, SALE & MACDOUGALL, 2000).

Alguns pesquisadores têm sugerido que a prática de exercícios visando o aumento da flexibilidade pode prejudicar, de forma aguda, a produção de força máxima (CRAMER et al., 2004, 2005; EVETOVICH et al., 2003; FOWLES, SALE & MACDOUGALL, 2000; FUNK et al., 2003; KNUDSON & NOFFAL, 2005; KUBO et al., 2001; YOUNG & ELLIOT, 2001) enquanto outros autores descartam essa possibilidade (OGURA et al., 2007; SIMÃO, GIACOMINI, DORNELLES, MARRAMOM & VIVEIROS, 2003). A força muscular se refere à força máxima que um músculo ou um grupo muscular pode gerar em um padrão específico de movimento e é comumente expressa como uma repetição máxima ou 1 RM, a carga máxima que pode ser movida por meio de uma amplitude de movimento (FLECK & KRAEMER, 2006).

Níveis adequados de força são importantes tanto no dia-a-dia, para assegurar a autonomia na realização das atividades da vida diária, como no treinamento de atletas, representando um dos fatores determinantes do desempenho em quase todas as modalidades esportivas (ALTER, 1999). Além disso, para assegurar tanto uma melhor performance quanto um condicionamento voltado para a saúde, é essencial que haja um equilíbrio entre os níveis de força e flexibilidade das articulações (ALTER, 1999; FLECK & KRAEMER, 2006; WEINECK, 2003). A quantidade de pesquisas que analisam os efeitos de exercícios de flexibilidade nos níveis de força é ampla (BEHM, BUTTON & BUTT, 2001; CRAMER et al., 2004, 2005; EVETOVICH et al., 2003;FOWLES, SALE & MACDOUGALL, 2000; KNUDSON & NOFFAL, 2005; OGURA et al., 2007; SIMÃO et al., 2003; VETTER, 2007; YOUNG & ELLIOT, 2001), entretanto a maioria dos trabalhos utilizam-se de períodos longos (vários minutos por série) com exercícios de flexibilidade, além de analisarem predominantemente o efeito desses exercícios na força máxima isométrica.

Embora esses trabalhos ofereçam informações consistentes à respeito do efeito de exercícios de flexibilidade na produção de força, tais informações podem não refletir os efeitos dos períodos normalmente utilizados em sessões de aquecimento, inferiores a 30 segundos. Isso porque, partindo-se do pressuposto de que esses efeitos estejam relacionados com proprioceptores (FOWLES, SALE & MACDOUGALL, 2000) (mais especificamente OTGs) e a resposta desses dependa do tempo de estímulo, provavelmente exercícios de flexibilidade com curta duração promovam uma resposta diferenciada em relação à longa duração.

Um dos poucos trabalhos envolvendo a comparação de exercícios de flexibilidade estáticos com técnicas de FNP, analisou apenas idosos, durante um longo período (80 segundos) e não investigou os efeitos desses exercícios nos níveis de força máxima (FERBER, OSTERNIG & GRAVELLE, 2002). Percebe-se que informações acerca do efeito desses exercícios realizados durante um tempo curto (30 segundos) na força máxima em diferentes velocidades de movimento permanecem escassas na literatura. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi: 1) verificar a influência do exercício de flexibilidade está- tico e da técnica FNP “hold-relax”, incluídos em sessões de aquecimento, no pico de torque e trabalho total dos flexores do joelho, além de; 2) verificar a variação do arco articular do quadril, após a execução dessas duas técnicas. Esse estudo tem como hipótese que a sessão de aquecimento contendo a técnica “hold-relax”, por ser mais intenso, proporcionará uma maior variação aguda na amplitude da articulação do quadril. No entanto, afetará negativamente a produção de torque e trabalho total, enquanto o exercício estático não influenciará esses valores.

Resumo do estudo

Exercícios de flexibilidade são freqüentemente incluídos em sessões de aquecimento antes de exercícios resistidos. No entanto, alguns autores sugerem que a prática de exercícios de alongamento podem afetar negativamente performance de atividades que exijam força máxima. Sendo assim, o objetivo geral desse estudo foi verificar o impacto de três diferentes sessões de aquecimento na amplitude de movimento do quadril, pico de torque e trabalho total dos flexores do joelho direito. Dez homens treinados, sem histórico de lesão neuromuscular, foram testados isocineticamente em três velocidades (60°/s, 90°/s e 120°/s) após três diferentes sessões de aquecimento: 1) aquecimento geral (AG) no cicloergômetro; 2) aquecimento geral no cicloergômetro e alongamento estático (AE); 3) aquecimento geral no cicloergômetro e a técnica de facilitação neuromuscular proprioceptiva “hold-relax” (FNP). A amplitude articular do quadril direito foi medido através de um goniômetro. As comparações foram feitas através de análise de variância com medidas repetidas e teste “Post-Hoc” de Bonferroni. (p < 0,05). Os resultados mostraram uma redução no pico de torque na sessão FNP comparados aos da sessão AE na velocidade de 60°/s na fase concêntrica (AE: 150,8 + 21 Nm vs. FNP: 140 + 22 Nm) e excêntrica (AE: 182,4 + 24,5 Nm vs. FNP: 168,5 + 27,8 Nm) e também menores quando comparados ao dia de AG na velocidade de 120°/s (AG: 141,4 + 15,9 Nm vs. FNP: 129,2 + 18,4 Nm). A variação do arco articular do quadril foi maior com o FNP (AE: 18,3 + 10,9 graus vs. FNP: 27,9 + 6,8 graus comparado ao AE. Nós concluímos que a técnica FNP “hold-relax” pode influenciar de forma negativa os valores de força voluntária máxima dos flexores de joelho, enquanto exercícios estáticos parecem não promover efeito negativo. No entanto, para o aumento dos níveis de amplitude da articulação do quadril, a técnica FNP “hold-relax” parece ser a melhor opção.

Para acessar o estudo, na íntegra, clique aqui: http://www.revistas.usp.br/rbefe/article/view/16682/18395

Autores: Michel Arias BRENTANO; Luciana Pestana RODRIGUES; Luiz Fernando Martins KRUEL.

Publicação: Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.22, n.1, p.53-62, jan./mar. 2008