Muito mais que preto no branco: xadrez é movimento nas aulas de EF

05 de dezembro de 2017 ● POR Redação

Por Alessandro Lucchetti

Um passatempo ideal para um dia chuvoso, uma maneira de estimular o raciocínio lógico, a concentração, a inteligência e o aproveitamento escolar em matemática? Aliás, será que merece mesmo ser considerado um esporte, como é classificado? Esses temas são bastante comuns quando se aborda o jogo de xadrez a partir de uma perspectiva leiga.

Alessandra Aparecida Dias Aguiar, especialista em Educação Física Escolar pela FMU e coordenadora de Educação Física da Secretaria da Educação de Jandira, município da Grande São Paulo, passou ao largo dessas questões num trabalho que desenvolveu em 2009, na escola Sagrada Família, numa época em que ministrava aulas para o ensino médio.
“Sou suspeita para falar sobre o acréscimo que o xadrez é capaz de proporcionar ao currículo cultural. Os alunos puderam entender o mundo de uma forma diferente. Eu já trabalhava com os alunos vários temas, eles já tinham uma visão crítica. Com o auxílio do xadrez, discutimos o racismo e preconceito social, por exemplo”, disse Alessandra, que é membro efetivo do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em entrevista ao Portal da Educação Física.

Desde os tempos da graduação, Alessandra já era avessa à forma costumeira como se enxerga a função da Educação Física, que ela chama de “perspectiva tecnicista voltada ao desenvolvimento de aptidões físicas”.

Logo no início do trabalho, a educadora percebeu que o xadrez ia dar jogo, por assim dizer. “Comecei esclarecendo as funções das peças, seus deslocamentos e capturas. Expliquei primeiro o peão, e coloquei que ele não era considerado uma peça, mas simplesmente era um peão, e a sala de aula quase ‘veio ao chão’, com tantas indignações: ‘Caramba! O peão é peão mesmo até no jogo.’ Após esse momento decidimos colocar o xadrez em xeque e descobrir o que estava por trás desse jogo”, relata a professora em “Xadrez em Xeque: O que está por trás deste jogo?”, texto publicado no site do Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar da USP, e que vale muito uma visita dos leitores do Portal.

A curiosidade dos alunos, que se embrenharam em questionamentos, aflorou, proporcionando frutos à atividade. “Por que se inicia o jogo com o peão ou o cavalo? Por que as peças brancas iniciam o jogo e não as pretas?”, questionaram os adolescentes.

A prática deu ensejo ao estudo da hierarquia e do clero, à análise crítica da distribuição das peças no tabuleiro, como se fosse uma guerra. “Sendo o rei uma representação da figura masculina como a principal peça, veio logo a comparação com a dama (presença feminina) no jogo. Além de ela ter a maior variedade de movimentos permitidos, assume uma posição inferior comparada ao do rei. ‘Por que a dama não é chamada de rainha?’ indagou uma aluna”, narra Alessandra.

Essa foi a senha para uma análise da questão da mulher no jogo e sua função social. Discutiu-se a respeito de família, sexualidade, trabalho doméstico, cuidado com as crianças. Contestou-se o patriarcalismo e outras formas de dominação.

A experiência ganhou corpo e foi realizada uma prática de xadrez humano, com a confecção de peças que adornaram a cabeça dos alunos. O processo de confecção das peças é uma oportunidade de cruzamento disciplinar com as aulas de Educação Artística, atividade desenvolvida em outras escolas. O torneio de xadrez chegou a envolver, segundo Alessandra, todos os alunos da escola.

Divididos em grupos, os alunos realizaram pesquisas sobre a origem e a história do jogo, e entrevistaram um enxadrista do Clube do Xadrez, a meca do jogo em Jandira. Foram elaborados vídeos, exibidos durante as aulas.

No decorrer das atividades, houve a exibição de um curta assinado por Marcos Schiavon, “O Xadrez das Cores”. ‘É um filme brasileiro que traz a temática da discriminação racial através do jogo de xadrez. Cida é uma empregada doméstica que precisa trabalhar por condições financeiras e se sujeita a situações degradantes, protagonizadas por sua patroa branca e racista. O ‘Xadrez das Cores’ é um filme que nos incomoda, e nos convida a pensar, refletir, entender as raízes do preconceito e a forma como a história é construída través de uma bela simbologia sobre o jogo de xadrez”.

A exibição do curta serviu como mote para análise de processos culturais que se vinculam às relações sociais de classe, raça e gênero.

Ao cabo de todas essas atividades, nenhum aluno continuou a enxergar o xadrez como preto no branco, pois passaram a flagrar várias nuances. “Imaginar a escola como um jogo de xadrez, através do tabuleiro que se torna um palco, é colocar as peças no confronto de ideias em que elas vão entretecendo suas relações de poder, garantindo assim um espaço do conhecimento crítico da diversidade e do respeito, possibilitando um espaço mais democrático. Sendo assim, acredito que o projeto projeto possibilitou aos (às) alunos (as) uma ampliação e uma visão mais crítica sobre o tema estudado”, relata Alessandra.