O quanto a ideia do corpo perfeito prejudica o trabalho do profissional de educação física?

17 de março de 2017 ● POR

Por Camila Brogliato
Ser fitness e saudável virou moda, e é bem legal motivar, inspirar e incentivar as pessoas a ter esse estilo de vida, porém tem gente que exagera.
Regimes malucos, excesso de exercício, cirurgias, remédios e hormônios para ter o tal do corpo perfeito somados a baixa autoestima e excesso de cobrança com você mesmo podem te levar para bem longe do tal estilo de vida saudável. E você pode até ficar doente.
No Brasil, cerca de 300 mil pessoas morrem por ano de doenças associadas diretamente ao sedentarismo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Uma pesquisa do Ministério do Esporte recente apontou que 45,9% dos brasileiros são sedentários.
O dado é o último levantado pelo Diagnóstico Nacional do Esporte, A inatividade física é responsável por uma em cada dez mortes por doenças como problemas cardíacos, diabetes e câncer de mama e do cólon, diz estudo publicado na Lancet, publicação médica. http://www.esporte.gov.br/diesporte/
Mas, quando falamos daqueles que estão em busca pelo corpo perfeito a qualquer preço, homens e mulheres cometem excessos e sofrem com essa “cobrança”. Sophie Deram, nutricionista autora do livro O Peso das Dietas, fala muito sobre a questão de seguir os padrões de beleza e do peso das dietas, de como lidamos com a comida.
Veja mais sobre ela aqui: https://www.sophiederam.com/br/blog/projeto-verao/
Mais de 95% das pessoas que fizeram acabaram voltando ao peso inicial (ou até acima dele), depois de dois anos. “Mas não é o estômago ou metabolismo que controla o peso e, sim, o seu cérebro que controla tudo: emoções, fome, saciedade e peso também”, diz Sophie.
O cérebro reage ao estresse da dieta e liga um mecanismo de adaptação que faz justamente o contrário do que a dieta pretende. O estresse aumenta o apetite e diminui o metabolismo.
Ou seja, quanto melhor você alimentar seu corpo, menos estressado o seu cérebro ficará. Você precisa comer e não tem como fugir disso.
Mulheres: autoestima em baixa
Se do lado dos homens já existe essa cobrança, do lado das mulheres parece ser ainda maior. E não é só a cobrança da sociedade como um todo, mas da percepção de cada uma ao se olhar no espelho. Em uma pesquisa sobre a influência das supermodelos na autoestima de adolescentes, o psiquiatra Raj Persaud (Maudsley Hospital, Londres), descobriu que a confiança das garotas caía 80% após 60 minutos olhando revistas de moda.
Há alguns anos, uma pesquisa encomendada pela Dove (marca de produtos de beleza) mostrou que apenas 4% das mulheres se consideravam bonitas. Neste relatório (Dove Global Beauty and Confidence Report), 10.500 mulheres e meninas foram entrevistadas em 13 países para descobrir o que sentiam com relação a si mesmas, ao próprio corpo.
Autoestima e confiança em baixa
O que assustou na pesquisa da Dove foi que, independentemente de idade ou região, mulheres e meninas não estão felizes com a própria imagem. Apesar disso, elas gostariam que não existisse esse “padrão” irreal de corpo perfeito que é espalhado pelo mundo.
O estudo também provou que a baixa autoestima pode afetar a capacidade de se desenvolver no trabalho e se relacionar na sociedade. No Brasil, 92% das mulheres e 60% das meninas já deixaram de fazer algo que gostariam por estarem insatisfeitas com o corpo e a aparência.
Um outro estudo realizado pela ISMA-BR , apresentado em 2012 no Congresso Europeu de Terapia Cognitivo-Comportamental mostrou tudo que a autoestima em baixa pode trazer para a vida das mulheres, e as consequências fazem pensar em quanto podemos ser influenciados por essa questão do corpo perfeito. 1.086 mulheres passaram pela entrevista e 44% delas afirmaram ter problemas de autoestima.
Delas, 89% têm dores musculares ou dor de cabeça, 13% têm taquicardia ou arritmia cardíaca, 26% têm problemas gastrointestinais, 77% sofrem de angústia, 83% sofrem de ansiedade, 46% sofrem de depressão, 59% passam por conflitos interpessoais (como problemas em relações amorosas).
Boas notícias
Mas não são só notícias ruins. Na pesquisa, 86% das mulheres e 85% das meninas (85%) brasileiras desejam ter a melhor aparência possível, porém, não querem seguir o padrão de beleza espalhado por aí. Querem ser o melhor possível, não a qualquer custo.
De um lado, muita gente insiste na ideia de que existe um corpo perfeito e que você deve segui-lo; de outro, vários movimentos e pessoas resolvem ir contra a corrente e investir na ideia de que a autoestima e o cuidado com o corpo devem ser feitos de forma equilibrada.
Um movimento na Inglaterra, thisgirlcanuk (http://www.thisgirlcan.co.uk/#home) visa justamente isso: empoderar mulheres de todos os tipos em todos os esportes. No site eles contam histórias e celebram mulheres que são ativas e vencedoras por fazerem o que desejam fazer. E querem espalhar essa ideia.
Na batalha para se aceitar, não ajuda muito viver cercada de modelos de beleza praticamente impossíveis de copiar. Por isso, tenha sempre em mente: Não existe um corpo perfeito. Precisamos ter uma visão realista sobre nós mesmos e aceitar metas de beleza e corpo que sejam possíveis ao biotipo e estilo de vida.
E sempre pensar na saúde em primeiro lugar. Não se cobre demais. Mude o que precisa ser mudado, mas não coloque no corpo uma dimensão exagerada de importância (porém nem de descuido também).
Nosso corpo é apenas uma parte do que somos. Cuide bem dele. Se você acha que pode melhorar, tudo bem. Pratique exercícios, mude a dieta, transforme-se. Seja o melhor que puder.
Mas não coloque a saúde do próprio corpo em risco para conseguir isso. Hermógenes, mestre do Yoga, dizia que é necessário cuidar do nosso corpo porque “moramos” aqui. Ou seja, não vale pagar o preço por um corpo perfeito por fora e deixá-lo doente por dentro.