Pela primeira vez na história, próxima geração poderá ter expectativa de vida inferior à de seus pais

13 de julho de 2017 ● POR Redação

O Brasil não tem uma política esportiva porque ainda não decidiu a forma de inserir o esporte numa política de Estado. Desde a redemocratização, nenhum governo se importou em definir qual seria o papel do esporte em nossa sociedade. Essa é a análise feita por Ary Rocco, doutor em comunicação com pesquisa em gestão do esporte e professor da USP, pós doutor em Comunicação e líder do Gepecom – Grupo de Pesquisa em Comunicação e Marketing no Esporte da Escola de Educação Física da USP.

O professor Rocco lembra que, nos anos 40, as políticas do esporte estavam ligadas ao Ministério da Saúde. Durante a ditadura iniciada em 64, havia também um papel escolhido pelo regime para o esporte, na opinião do pesquisador. “Friso que não estou defendendo o regime militar. Mas naquela época havia uma definição clara do papel do esporte na nossa sociedade. A educação física recebeu um investimento muito grande porque era considerada como uma forma de disciplinar as pessoas”.

O Estado, segundo Ary, deve propor um rumo. “Ninguém define claramente o papel do esporte na nossa sociedade. O governo o enxerga como oportunidade de inclusão social, como oportunidade de socialização das pessoas? Ou enxerga como um produto de divulgação do país? Vamos então investir no alto rendimento? Isso não está claro”.

“Essa definição clara nos esclareceria qual deveria ser o papel dos órgãos governamentais, das empresas privadas, da sociedade civil no esporte. Isso não fica claro porque não há uma política de esporte. Criou-se o Ministério do esporte, e isso foi um avanço – mas ele, assim como as secretarias estaduais e as municipais de esporte tornaram-se se moeda de troca para formação de composições políticas – o último elemento valorizado é o esporte”.

A intervenção dos militares se fez presente na preparação para a Copa de 70. Carlos Alberto Parreira e Claudio Coutinho eram então preparadores físicos. Coutinho, então capitão do Exército, foi enviado ao laboratório de estresse humano da Nasa. Ele também se debruçou sobre o método Cooper. Se até hoje a habilidade e categoria de Pelé, Gerson, Rivellino, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres são cantadas em prosa e verso, não é menos verdade que a seleção canarinho era a que mais corria sob o sol escaldante do México.

Rocco lembra que, por meio de dinheiro estatal, os militares investiram até na Fórmula 1, a fim de aproveitar o talento de Emerson Fittipaldi.

Se o governo nada faz – hoje está empenhado em se manter no poder e escapar das garras da Justiça – Rocco olha com otimismo (e participa) da Abragesp, a Associação Brasileira de Gestão do Esporte.
Criada recentemente, é uma entidade considerada apta a propor modelos e fomentar o debate em alguns anos, na visão do professor. E como fica o papel do professor de educação física?
“O professor de educação física deve se fazer representar. Não sei, de fato não sei se essa organização deve se estruturar em torno do Confef/Crefs ou se deve ser criada outra entidade, mas esses educadores devem se mais ativos no debate”, diz o professor. “É uma classe muito envolvida na própria luta pela sobrevivência, e cobrar dela engajamento é exigir demais. Mas sempre há os que podem dar mais, dar mais de seu tempo”.

A criação de uma política esportiva e a inserção nela desse elemento importantíssimo, o professor de educação física, podem ampliar e dar mais robustez ao próprio mercado de trabalho desses profissionais.

Rocco lembra que há estudos projetando que o sedentarismo pode estar formando uma geração com expectativa de vida inferior à de seus país pela primeira vez na história. “Nunca se consumiu tanto esporte. E nunca se praticou tão pouco”. O alerta está ligado, mas mobilizou poucos.