Saiba porque todo atleta de modalidades de combate, lutas e artes marciais deveria meditar

22 de setembro de 2017 ● POR Redação

No meu trabalho de preparação psicológica em esportes de lutas e artes marciais, pude observar e ouvir dos atletas como e quanto suas emoções e aspectos cognitivos interferem em seus treinos e competição. Considerando isso, é importante pensar possibilidades de intervenção psicológica que atuem de modo a não permitir que essas interferências sejam negativa, ao contrário, que contribua para bons resultados do atleta na modalidade, seja no esporte amador ou de alto rendimento.

Uma dessas possibilidades de intervenção é a meditação. A prática meditativa tem sido apontada como uma maneira de treinamento mental pelo qual se busca educar a mente (SLAGTER et al., 2007), influenciando positivamente alguns estilos de pensamento e sistemas cognitivos.  Foi Kabat-Zinn, um médico norte americano que fomentou a meditação no ocidente, inicialmente como tratamento para dor crônica. Contudo, a prática mostrou-se eficiente para diversos outros problemas, como, por exemplo, os transtornos de ansiedade (KABAT-ZINN et al., 1992).

Há evidências de que Meditar atua diretamente sobre a plasticidade cerebral. Uma pesquisa que comparou a espessura do córtex de meditadores experientes com um grupo controle encontrou uma diferença significativa nas regiões relacionadas à sustentação da atenção, onde a espessura era maior nos praticantes experientes (LAZAR et al., 2005). Neste mesmo sentido, Malinowski e Shalamanova (2017) indicam que a prática meditativa está ligada a várias habilidades cognitivas incluindo a habilidade de focar e sustentar a atenção o que por si próprio requer a interação de sub-funções atencionais. Os mesmo autores em seu estudo indicam que apesar das limitações para avaliação a meditação pode elevar a reserva cognitiva.

Atualmente, nas competições de alto nível, as habilidades esportivas de diferentes lutadores praticamente se igualam. O atleta sem preparação psicológica poderá limitar sua capacidade de desenvolvimento e de alcançar bons desempenhos, se não conseguir direcionar e controlar a manifestação das suas variáveis e habilidades psicológicas. É preciso trabalhar aspectos que permitam ao atleta comportar-se bem sob pressão, competir com dor, ter persistência, sentimentos positivos, concentração, autoconfiança, entre outros fatores importantes (PAIVA, 2009). Com a preparação psicológica, através das técnicas de meditação, o atleta ser mais estável emocionalmente mesmo em condições adversas. Nesse cenário, a meditação pode atuar como instrumento para a auto regulação das emoções.

É possível mesmo que hipoteticamente fazer uma ligação entre a meditação e o estados de fluxo (Flow). Nakamura e Csíkszentmihályi (2001) definiram nove fatores que devem estar presentes quando da ocorrência do estado de fluxo (em que a pessoa fica totalmente imersa na sua prática e com foco único no seu melhor desempenho), os quais fazemos um link com os benefícios da meditação (em itálico):

  1.              Clareza nos objetivos: o lutador terá real noção do que deve fazer e de que forma agir, tanto no treino quanto na competição, porque tem bem ajustado o resultado que quer atingir.
  2.              Alto grau de concentração em um limitado campo de atenção: nos poucos minutos de luta, o atleta deverá conseguir concentrar-se na atividade específica, sem distrair-se com preocupações, problemas, público, sons, luzes, sensações, dores, etc.
  3.              Perda do sentimento de autoconsciência, sem preocupações com o autojulgamento ou o julgamento alheio: o lutador coloca em prática a habilidade de manter-se resiliente na competição, sem se preocupar com a crítica de espectadores e expectadores, sem se preocupar com a atitude do adversário; ele realiza seu trabalho como planejado e compreende que no momento em questão, isso é o que importa.
  4.              Sensação de tempo distorcida: o foco e a concentração são tão inclinados à ação, que o atleta não se preocupa com tempo cronológico.
  5.              Feedback direto e imediato quanto aos acertos e falhas no andamento da atividade: a agilidade de pensamento promove ao lutador perceber um erro e adaptar-se ou corrigir-se conforme a necessidade, bem reajuste nas estratégias ou percepção das estratégias do rival.
  6.              Equilíbrio entre os níveis de habilidade pessoal e de desafio a ser enfrentado: o lutador não idealiza além de suas possibilidades, não trabalha com altas expectativas ou a ilusão de super capacidade. Ele tem autoconhecimento e sabe quais são seus limites. Isso diminui as chances de frustrações, de sentimento de culpa, de incompetência e auxilia o atleta a atingir seu potencial individual máximo.
  7.              A sensação de controle pessoal sobre a situação ou a atividade, sem esforço consciente: naturalmente o lutador lida com a situação enfrentada e tem conhecimento de como agir.
  8.              A atividade em si é recompensadora, sem expectativa de recompensa imediata ou futura: estar na luta gera prazer, realização e o ato tem sentido e significado.
  9.              Sentimento de fusão entre o praticante e a atividade praticada – a consciência é focada totalmente na atividade em si: tudo que existe é o aqui e agora, o momento da luta. A experiência é plena, autêntica e satisfatória.

Por todos estes possíveis benefícios, faz sentido incluir as práticas meditativas na rotina de treinamento esportivo de atletas de modalidades de combate, lutas e artes marciais, como um tipo de intervenção psicológica, que poderá proporcionar melhores possibilidades de rendimento, performance e resultado. Contudo, ainda há um imenso campo de estudos sobre a meditação e o esporte de competição. Como apontam Colzato e Kibele (2017) mais pesquisas são necessárias para compreender os efeitos diretos da meditação no aumento da performance esportiva e, complementam, apontando ser necessário levar em conta a demandas técnicas de diferentes tipos de esportes, e aqui, pode-se depreender para cada tipo de luta, o que permitirá um planejamento individualizado das intervenções meditativas.

Talita Guedes Bittioli – Psicóloga pela Universidade Metodista de São Paulo, Especialista em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.

Flávio Rebustini– Doutor em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (UNESP – RC). Coordenador da Pós em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio.

Referências:

COLZATO, L. S.; KIBELE, A. How different types of meditation can enhance athletic performance depending on the specific sport skills. Journal of Cognitive Enhancement, p. 1-5, 2017.

KABAT-ZINN, J.; MASSION, A.O.; KRISTELLER, J.; PETERSON, L.G.; FLETCHER, K.E.; PBERT, L.; LENDERKING, W.R.; SANTORELLI, S.F.. Effectiveness of a meditation-based stress reduction program in the treatment of anxiety disorders. American Journal of Psychiatry, v. 149, p. 936-943, 1992.

LAZAR, S. W.; KERR, C. E.; WASSERMAN, R. H.; GRAY, J. R.; GREVE, D. N.; TREADWAY, M. T. et al. Meditation experience is associated with increased cortical thickness. NeuroReport, v. 16, n.17, p.1893-1897, 2005.

MALINOWSKI, P.; SHALAMANOVA, L. Meditation and cognitive ageing: the role of mindfulness meditation in building cognitive reserve. Journal of Cognitive Enhancement, p. 1-11, 2017.

NAKAMURA, J.; CSIKSZENTMIHALYI, M.. Flow Theory and Research. In: Snyder, C.R.; Wright, E., Lopez, S.J.. Handbook of Positive Psychology. Oxford University Press, 2001. p. 195-206.

PAIVA, L.. Olhar Clínico nas Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. Manaus: OMP, 2015.

SLAGTER, H. A.; LUTZ, A.; GREISCHAR, L. L.; FRANCIS, A. D.; NIEUWENHUIS, S.; DAVIS, J. M.; DAVIDSON, R. J.. Mental Training Affects Distribution of Limited Brain Resources. PLOS Biology, São Francisco, 2007. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1371/journal.pbio.0050138>. Acesso em: 11 out. 2016.