A aderência à prática do esporte: um olhar da psicologia esportiva

07 de dezembro de 2016 ● POR Redação

A aproximação do verão traz um aumento de praticantes das mais diversas formas de atividade física e esporte. Mas por que essa sazonalidade?

Se há uma ampla orientação para a prática regular de atividades físicas? Por que as pessoas não se mantêm regularmente em programas de atividade, atividade física? Para compreender melhor esse cenário é preciso estudar a ADERÊNCIA, que deve ser analisada e estudada por aqueles que trabalham com política de atividade física pública e/ou que tratem de ambientes não sistematicamente controlado – neste caso, não foco o esporte de competição, em que o objetivo é desempenho para o resultado. As luzes nesse caso devem estar voltadas para o ambiente público, escolar, associações esportivas ou outras formas em que se possa manifestar a atividade física, o esporte e o exercício, cobrindo todas as faixas etárias.

Vamos olhar para as duas pontas da pirâmide etária. Jefferis e colaboradores (2014) em um estudo para verificar a aderência a atividade física em idosos na Grã-Bretanha encontraram que apenas 7% dos homens e 3% das mulheres acima de 70 anos, se exercitavam por pelo menos 150 minutos/semana em atividades moderadas e/ou 70 minutos em atividades vigorosas. Devemos lembrar que a prática sistemática de atividade física está associada a uma redução das doenças crônicas (LEE et al, 2012). Na outra ponta da pirâmide um estudo de Colley, Janssen e Tremblay (2012) indicou como recomendação que jovens 6 e 19 anos deem 12.000 passos por dia, o que representa cerca de 1 hora de atividade física de moderada para vigorosa por dia (MVPA – sigla em inglês). Mas o que fazer para com que as pessoas façam e se mantenham na atividade física? No caso dos idosos é normal considerar uma baixa adesão ou frequência porque há maiores incidências de limitações física e de doenças que impedem níveis melhores de atividade. Na outra ponta, é fundamental criar uma rotina de prática de atividade física desde a infância e adolescência.
Há diversas abordagens e/ou teorias que buscam equacionar essa questão. Uma das teorias mais utilizada nos últimos anos é denominada “Teoria do determinismo ambiental ou arquitetônico” que propõe que o ambiente físico é um formador importante do comportamento (EWING, 2005). Esta perspectiva está em contraste com os modelos psicológicos historicamente aplicados ao comportamento de exercício que se concentram nos efeitos das variáveis intra e interpessoais sobre motivar os indivíduos a procurarem um ambiente que lhes permita ser ativos (BUCKWORTH; DISHMAN, 2007).

Essa teoria nos leva ao olhar de uma série de variáveis que se tornam importante na manutenção da prática regular de atividade física e, posteriormente, a aplicação de teorias que darão suporte à aderência. Dentre os fatores que devem ser considerados estão: a construção de uma ambiente para a prática; os denominados eventos maiores da vida e que têm uma associação negativa com a aderência a atividade física regular, aqui encontramos os fatores que podem causar uma disruptura das rotinas, tais como: estresse elevado e o risco de doenças; o suporte social – o apoio de familiares, amigos e profissionais da atividade física na manutenção da prática -, o isolamento social tem uma associação negativa com a aderência. O tempo – a ausência do tempo é um dos maiores argumentos contra a aderência. As características da atividade física: forma, duração e intensidade.
A aderência está fortemente associada a uma mudança de comportamento, que pode ser manejado e tem amparo em uma série de teorias como a Teoria do Comportamento Planejado, a Teoria da Auto-eficácia, a Teoria da Autodeterminação, o Modelo Trans-Teórico de Mudança do Comportamento, o Modelo de Prevenção de Recaída (que é uma estratégia para impedir a quebra das rotinas de atividade física por eventos imprevistos do dia-a-dia, que vão se somando e fazem com que o indivíduo protele a retomada da prática regular) e, o Modelo Sócio-Ecológico. Essa são algumas das teorias que têm sido utilizadas para buscar a manutenção da prática regular da atividade física. Cabe, obviamente, uma pergunta: as pessoas que gerenciam as políticas em âmbito público e, mesmo, privado conseguem se apropriar dessas teorias e manejá-las no intuito de criar programas público/privados eficiente de prática regular de atividade física e esporte? Quase todas as teorias estão centradas em aspectos psicossociais. Portanto, esse conhecimento deve ser apropriado quando elaboramos políticas, estratégias e outras formas de conduzir a população para a atividade física.

Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br

Referências
LEE IM, SHIROMA EJ, LOBELO F, PUSKA P, BLAIR SN, KATZMARZK PT: Effect of physical inactivity on major non-communicable diseases worldwide: an analysis of burden of disease and life expectancy. Lancet, 380:219–229, 2012.
JEFFERIS, B. J., SARTINI, C., LEE, I. M., CHOI, M., AMUZU, A., GUTIERREZ, C., … & WHINCUP, P. H. Adherence to physical activity guidelines in older adults, using objectively measured physical activity in a population-based study. BMC Public Health, 14(1), 1, 2014.
COLLEY, RACHEL C.; JANSSEN, I. A. N.; TREMBLAY, MARK S. Daily step target to measure adherence to physical activity guidelines in children. Med Sci Sports Exerc, v. 44, n. 5, p. 977-982, 2012.
BUCKWORTH, J. DISHMAN, R. Exercise adherence. IN: TENNENBAUM, G. EKLUND, R. C. Handbook of Sport Psychology, John Wiley & Sons, 2007. p. 509-539.
EWING, R. Can the physical environment determine physical activity levels? Exercise and Sport Sciences Reviews, 33, 69–75, 2005..