Pesquisadores explicam: de que forma a desidratação pode influenciar seu desempenho?

29 de novembro de 2016 ● POR

A desidratação é comum em atividades físicas prolongadas e se torna mais evidente quando ocorre em situações de ambientes de alta temperatura e grande umidade do ar. Ela acontece decorrente da perda de líquidos corpóreos equivalente a 1% ou mais da massa corporal1.
Durante o exercício físico intenso, os músculos produzem 20 até vezes mais calor do que quando o sujeito está em repouso e temos que dissipar isso. Quando a temperatura central aumenta, para patamares perigosos, as glândulas sudoríparas são exigidas de maneira mais forte para que o calor seja eliminado, isso acontece por meio do suor. Sendo assim, a velocidade de evaporação do suor passa a ser determinante para um resfriamento adequado do organismo, o que explica a interdependência de fatores ambientais na capacidade de manutenção da temperatura e hidratação adequada durante a prática de exercícios físicos de longa duração.
Para Clark2, esse mecanismo, de desidratação, foi o que tornou capaz a continuação da produção de calor durante atividade física, sem prejudicar gravemente a saúde dos praticantes. Entretanto, existem valores limites para a tolerância de produção de calor, e por consequência, a necessidade de reposição da água que é perdida durante as atividades de longa duração. Casos de problemas decorrentes de falhas nos esquemas de reidratação (hídrica e eletrolítica), alimentação, e de substrato energético, podem prejudicar o desempenho e, colocar em risco a saúde dos praticantes de atividade física prolongada, podendo até mesmo causar a morte3. Caso não ocorra a ingestão correta de líquidos antes, durante e após a atividade física pode comprometer o desempenho, reduzindo a força muscular, aumentando o risco de câimbras e hipertermia4.

Segundo Perrella et al.5 atletas que perdem de 1% a 2% de sua massa corporal por meio de suor podem sofrer aumento de temperatura corporal, com 3% já pode ocorrer diminuição de desempenho, de 4% a 6% pode ocorrer fadiga térmica, e com níveis acima de 6% há riscos de choque térmico, coma, podendo ocorrer até a morte. A desidratação além de causar na redução do desempenho causa risco potencial do atleta desidratado estar sujeito a problemas de saúde 6.
De acordo com McCardle et al.7 a corrida e caminhada, são as atividades físicas mais comuns que podemos praticar devido a custo e facilidade de realização. Nos últimos anos houve um grande aumento na procura por essa atividade e a corrida se tornou uma das modalidades que mais ganha adeptos no Brasil8,9. Segundo divulgação do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF)10 em 2012, mais de seis milhões de brasileiros praticam a corrida como forma favorita de atividade física, ou seja, aproximadamente 3% da população total do país. A maioria dos praticantes realiza corridas que possuem percursos de 5km até 42,192km, já as que ultrapassam essa quilometragem são atletas de ultramaratonas. Essa modalidade é caracterizada por ser uma atividade com predominância metabólica oxidativa, comumente chamados de “aeróbios”, que são atividades que utilizam grandes grupos musculares, e que possa ser mantida continuamente e ritmicamente por períodos longos de tempo11.
A corrida, sendo uma atividade amplamente praticada necessita de treinamento, alimentação e recuperações adequadas quando o desejo é ter um bom desempenho atlético. Ao pensarmos em um atleta, de diferentes modalidades, nos deparamos com características estruturais específicas, as quais são determinadas geneticamente. Portanto, a estrutura corporal de um atleta de sucesso passa pelo produto de uma seleção natural formada por sucessivas gerações que acarretam adaptações estruturais específicas, adaptação e otimização dos parâmetros bioquímicos e fisiológicos que podem ser potencializados com treinamentos específicos12.
O desempenho desportivo exige a combinação integrada de vários fatores intrínsecos e extrínsecos. Alguns deles são condicionáveis (fisiológicos, psicológicos e biomecânicos) e alguns são instruídos (técnicos e táticos), à medidas que outros estão fora do controle de atletas e treinadores, como idade cronológica e fatores genéticos. Os fatores genéticos são determinantes no potencial esportivo, sendo representados pelas características cardiovasculares e musculares da adaptação ao treinamento físico e principalmente pelas características antropométricas13.
Os atletas profissionais, de todas as modalidades esportivas, apresentam características antropométricas muito específicas. Corredores de longa distância são normalmente identificados por possuírem baixos níveis de gordura corporal, tronco estreito e pernas longilíneas. Diferente de corredores de velocidade, os corredores de fundo, não possuem uma musculatura volumosa e sim, uma massa muscular menos volumosa e mais resistente. Para Weyand e Davis14 corredores especialistas em velocidade são relativamente maiores em proporções musculares devido a diferença de forças que os velocistas necessitam realizar para alcançarem velocidades altas. Ambos tipos de corredores sofrem estímulos específicos e adaptações diferentes, resultando estilos morfológicos distintos. Entretanto mesmo com o treinamento e adaptações sabemos que as pessoas não são iguais. Segundo Vélez et al.15, a composição corporal influencia no rendimento esportivo e é variável mesmo em atletas de uma mesma prova.
O desempenho físico de atletas depende de vários fatores, sendo a hidratação e reidratação aspectos muito importantes. A variabilidade individual entre cada atleta se torna crucial no momento do consumo de água. Dessa forma aquele atleta com sudorese mais elevada deve ingerir mais líquidos para compensar as perdas e manter o balanço hídrico16. Porem, para Ferreira et al.17 a perda de líquido corpóreo ocorre em várias modalidades esportivas, embora haja indicações consolidadas sobre as formas de reposição há estudos que ressaltam a importância de individualização, pois sustentam que a grande variação na taxa de sudorese, ou seja, a perda hídrica diverge.

Artigo desenvolvido por: Ingrith Nascimento Barbosa e André Lopes.
Faculdade Sogipa de Educação Física Bacharelado – Porto Alegre – Rio Grande do Sul.

Referências:
1. Nabholz, T. Nutrição esportiva: Aspectos relacionados à suplementação nutricional. São Paulo: Savier, 2007.
2. Clark, N. Guia de nutrição esportiva: Alimentação para uma vida ativa. Porto Alegre: Artimed: 2009.
3. Carvalho T, Mara LS. Hidratação e nutrição no esporte. Revista Brasileira de Medicina do Esporte 2010; 16 (1):144-148.
4. Cruz MA, Cabral CA, Martins JC. Nível de conhecimento e hábitos de hidratação dos atletas de mountain bike. Fitness & Performance Jornal 2009; 8(2):79-89.
5. Perrella MM, Noriyuki PS, Rossi L. Avaliação da perda hídrica durante treino intenso de rugby. Revista Brasileira de Medicina do Esporte 2005; 11(4):229-232.
6. Bacurau R. Nutrição e suplementação esportiva. São Paulo: Phorte, 2009.
7. Mcardle DW, Katch IF, Katch LV. Fisiologia do Exercicio – Energia, Nutrição e Desempenho Humano, 1991.
8. Rolim fundo de atletas jovens emR. Contributo para o estudo do treino de meio-fundo Portugal. [Dissertação de Doutorado- Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física]. Porto (POR): Universidade do Porto: 1998.
9. Sarkis M. A Construção de Corredor: Dos Primeiros Passos à Alta Performance. Gente: 2009.
10. Conselho Federal de Educação Física. O fenômeno da corrida de rua. Revista EF 2012; 46:16-17.
11. American College Of Sports Snd Medicine. Position stand on the recommended quantity and quality of exercise for developing and maintaining cardiorespiratory and muscular fitness, and flexibility in healthy adults. Medicine and Science of Sports and Exercise 1998; 30(6):975-99.
12. STEWART AD. Assessing body composition in athletes. Nutrition e Physical Activity. Scotland 2001; 7(7/8):664-665.
13. Vancini RL, Pesquero JB, Fachina RJ, Andrade MS, Borin JP, Montagner PC, et al. Genetic aspects of athletic performance: the African runners phenomenon. Open Access Journal of Sports Medicine 2014;5: 123–127.
14. Weyand PG, Davis JA. Running performance has a structural basis. The Journal of Experimental Biology 2005; 208: 2625-2631.
15. VÉLEZ RW, Bucheli RA, Puccini MB, Echávez JF, Albán CA. Características antropométricas y funcionales de corredores colombianos de élite de larga distancia. IATREIA 2015; 28(3):240-247.
16. Noujeimi FA. Avaliação da água corporal total e seus compartimentos em atletas de elite por espectrometria de impedância. [ Tese de Mestrado de Atividade Física e Saúde]. Porto (POR): Faculdade de Desporto da Universidade de Porto; 2012.
17. Ferreira FG, Alves K, Costa NM, Santana AM, Marins JC. Efeito do nível de condicionamento físico e da hidratação oral sobre a homeostase hídrica em exercício aeróbico. Rev Bras Med Esporte 2010:16(3):166-170.