Por que as pessoas abandonam a prática esportiva?

21 de dezembro de 2016 ● POR Redação

Já escrevi recentemente sobre os motivos pelos quais as pessoas praticam atividade física. Mas há a outra ponta, o por que as pessoas abandonam a prática esportiva? Da mesma forma que a aderência é um conceito multidimensional e, portanto, constituída de diversos fatores que podem contribuir, o abandono esportivo caminha sobre as mesmas perspectivas multidimensionais.
Num estudo de Vitali e colaboradores (2015) sobre abandono esportivo, os autores apontam três grandes conjuntos de fatores: a) a exaustão emocional e física pelos treinamento e competições intensas; b) redução do senso de engajamento, com os atletas sentido incapazes de atingir seus objetivos pessoais e desempenhos abaixo das expectativas; c) e a desvalorização do esporte, referindo-se a perda do interesse, da atitude ou ressentimento em relação ao ambiente esportivo. Podemos claramente identificar que há uma forte ligação entre aspectos psicossociais no abandono esportivo. Este fato exige que os professores, treinadores e instrutores tenham foco nesses aspectos e busquem formação e conhecimento acerca deles.
Em outro estudo (DIAS et. al., 2014) que buscava exatamente o sentido contrário, entender o que promovia o engajamento dos jovens na prática esportiva, detectou-se que a motivação intrínseca, a autodeterminação, a competência percebida e a crença de que a competência esportiva não é específica são fundamentais para a prática esportiva em jovens.

 

Mesmo quando mudamos o contexto para o ambiente escolar, as academias e a atividade física com idosos, os motivos básicos de aderência e abandono não irão diferenciar muito. Normalmente mudará a intensidade, a forma e as variáveis de contexto, mas essencialmente estaremos tratando de aspectos psicossociais. O questionamento nesse caso centra-se se nós somos preparados para lidar com um sistema interdisciplinar? A especialização estrita não parece ser uma boa ferramenta em sistemas em que há um número significativos de variáveis psicossociais, sendo que muitas delas subjetivas e que devem ser estudadas e compreendidas nos diversos contextos que atuamos.
Tenho em todos meus artigos convidados os leitores e essencialmente os professores de Educação Física a irem além do senso comum e irem além do básico. Nós não avançaremos de forma significativa se basearmos nossas aulas, nossos treinos, nossas práticas apenas na nossa experiência, se não avançarmos na comprovação de novos métodos e estratégias. Se não encaminharmos nossa prática para um olhar mais arguto, no mínimo manteremos índices elevados de abandono na prática. Deve-se atentar que nós não temos número claros de quanto é esse abandono, mas não é baixo; que pode ser decorrente do indivíduo conforme uma das variáveis encontrada nos dois estudos citados no início do texto, da não adaptação ao ambiente/contexto e, também, o papel fulcral do professor de Educação Física no manejo dessas variáveis nos mais diversos contexto da nossa atuação.
Que todos tenhamos um grande 2017.

Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br

Referências
Vitali, F., Bortoli, L., Bertinato, L., Robazza, C., & Schena, F. (2015). Motivational climate, resilience, and burnout in youth sport. Sport Sciences for Health, 11(1), 103-108.
Dias, C., Corte-Real, N., Barreiros, A., Brustad, R., & Fonseca, A. M. (2015). Como distinguir jovens atletas que tencionam continuar a praticar desporto dos que não tencionam continuar a fazê-lo? Cuadernos de Psicología del Deporte, 15(3), 27-40.