Por que fazer e como escolher uma pós-graduação em educação física?

11 de janeiro de 2017 ● POR

Por que me especializar? Se quiser fazer a pergunta de outra forma, por que fazer uma pós-graduação?
Antes de responder à pergunta, precisamos retornar um pouco para a graduação. Prioritariamente não cabe a graduação um aprofundamento nas temáticas, o objetivo é propiciar uma vivência por meio de uma boa fundamentação e boas experimentações no campo prático que permita ao graduando atuar no mercado de trabalho com um embasamento no mínimo adequado.
Aqui surge um dos grandes problemas para os que forjam os currículos dos cursos de graduação, quando temos que desenvolver o projeto pedagógico do curso e nos deparamos normalmente com o dilema de quais as disciplinas e qual o direcionamento que serão dados por essas disciplinas?
Apesar de haver nas diretrizes curriculares uma carga horária mínima para as disciplinas de núcleo comum, como a própria denominação diz é mínima, não há impedimento que na construção do currículo de um curso eu possa colocar mais horas nas disciplinas de base.
Acontece que, por vezes, iremos no deparar com um dilema, se acrescermos mais horas com disciplinas de núcleo comum, nós teremos que reduzir a carga horário e/ou o número de disciplinas a serem oferecidas pelo curso. Isso se tornou mais problemático nas últimas duas décadas com a ramificação muito grande das temáticas e sub-áreas que têm sido desenvolvidas.
De vez em quando encontramos currículos sendo moldados, não pela necessidade de mercado, e sim pela especialidade do corpo docente. Não vou me aprofundar nesse problema, vou deixar para outra oportunidade, retomo ao cerne do artigo.
Se fiz o mínimo no núcleo comum, nas disciplinas básicas para potencializar a vivência de um maior número de ramificações, seja na Educação Física, Administração, isso é aplicável a todos os cursos, nós esqueceremos que as ramificações são originárias dos grandes campos de estudo.
Como é possível eu pensar na Educação Física e não me atentar para o fato que os conhecimentos do campo da sociologia estão ali presentes, que a antropologia, a psicologia, a filosofia e muitas das grandes áreas, e que fazem parte do núcleo comum estão presentes no dia-a-dia do professor de Educação Física qualquer que seja seu campo de atuação.
É usual os alunos se motivarem para as aulas das modalidades e para as disciplinas específicas da área esportiva e deixarem fora do seu campo de visão a base, acontece que sem essa base o aprofundamento é frágil e, muito provavelmente, irá trazer problemas de solidez teórica e prática.

Leia mais:
Os Megaeventos esportivos não trouxeram nenhum incentivo à prática esportiva no país:
http://www.educacaofisica.com.br/blogs/blog-esportes/os-megaeventos-esportivos-nao-trouxeram-nenhum-incentivo-a-pratica-esportiva-no-pais/
Corrida em esteira e exercícios de força: efeitos agudos da ordem de realização sobre a hipotensão pós-exercício:
http://www.educacaofisica.com.br/fitness2/corrida-em-esteira-e-exercicios-de-forca-efeitos-agudos-da-ordem-de-realizacao-sobre-a-hipotensao-pos-exercicio/

Agora podem perguntar se o artigo é sobre pós por que iniciei pela graduação, por que esses mesmos problemas surgirão na pós-graduação. Eu vou para me especializar em um campo de estudo e atuação.
Acontece que para eu me especializar é necessário que eu tenha um bom domínio não apenas dos conteúdos da minha área, mas também uma boa base de erudição. Pois, o aprofundamento requer que pré-requisitos sejam dominados, sob pena de eu não conseguir aprofundar o tema e, portanto, me especializar adequadamente, posso ter um diploma de especialista e não ter aproveitado o aprofundamento.
Por vezes, por falta de orientação na graduação ou por interesse próprio, os alunos não se atentam que essa lacuna na formação poderá no futuro limitar as oportunidades de carreira.
Pensemos de novo na Educação Física, que em essência é interdisciplinar. Digamos que eu resolva me especializar em áreas ligadas a atividade física em academia. E pense que, vou aprender as técnicas de ensino, vou ter uma boa comunicação e apresentação, vou saber as técnicas mais contemporâneas para trabalhar, as novas tendências, etc, etc.
Ai me deparo com um aluno com problemas de imagem corporal, o que faço? Ignoro? Os problemas de dismorfia de imagem são essencialmente psicossociais, como lidar com ele, se eu não ignorei ou não estudei adequadamente os aspectos psicossociais?
Especializei-me em fisiologia, as alterações psicológicas advindas do exercício, portanto eu tenho a conexão psico-fisiológico, aqui não se fala apenas no sentido fisiológico, por que é um caminho de mão dupla, a fisiologia afeta aspectos fisiológicos e a fisiológica pode causar alterações psicológicas e, aí vem a pergunta que não quer calar: eu consigo lidar com essas interrelações?
Esse mecanismo de necessidade de conhecimento e interdependência pode ser analogicamente analisado pela imagem das ondas gravitacionais.

Ondas
Por mais que eu me aprofunde em uma temática, eu continuo interconectado aos mais diversos campos de conhecimento, não há uma ruptura do saber; a ruptura, na verdade é não saber, que impedirá que eu consiga atuar em excelência.
É fundamental para o desenvolvimento da Educação Física como campo de estudo e atuação profissional que os estudantes e profissionais caminhem para a especialização, mas sem perderem de vista e sem exercerem regularmente a reflexão de que precisam do aprofundamento do conhecimento, mas com amplitude.
Por vezes as pessoas perguntam para mim, que sou oriundo da teoria do treinamento e trabalhei por muito tempo com treinamento desportivo, por que fui estudar a psicologia do esporte. E a resposta é simples, a psicologia do esporte faz parte da teoria do treinamento, mas ela não é, comumente, aprofundada quando estudamos a teoria do treinamento, é muito interessante que você encontra nos livros de fundamentação da teoria do treinamento um rol de disciplinas que são essências para a formação em teoria do treinamento e está lá a psicologia do esporte, mas não há um aprofundamento dela, mesmo eu sabendo que essencial para a minha formação em teoria do treinamento.
Quanto mais instrumentos a mão e mais eu souber utilizá-los mais eficiente eu tendo a ser.
Devo lembrar que a pós-graduação é um dos primeiros e importantes passos para o aprofundamento e a excelência.
Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br