Treinamento intermitente para modalidades coletivas: handebol e basquetebol

22 de fevereiro de 2018 ● POR Redação

O handebol e basquetebol são modalidades coletivas consideradas acíclicas e intermitentes, pois seus esforços são alternados entre alta, média e baixa intensidades; por períodos curtos de recuperação passiva ou ativa. Segundo Dal Monte (1993) o sistema de fornecimento de energia para ambos esportes é o mesmo, sendo 80% para o sistema fosfagênio, 10% sistema glicolítico e 10% oxidativo. Equivalente também são as capacidades biomotoras determinantes como a força e velocidade.

A via anaeróbia é fundamental nesses desportos, o sistema fosfagênio (ATP-CP) fornece a energia primária para que ocorram as ações de alta intensidade e curta duração como nos arremessos, fintas, saltos, situações de defesa, contra-ataques, recuperação da posse de bola e mudanças de direção, sendo execuções decisivas em uma partida.

Dando continuidade aos esforços de alta intensidade a via anaeróbia lática se instaura através do sistema glicolítico, seu fornecimento de energia provém da quebra da glicólise no sangue e do glicogênio armazenado. Nessa via, as reações acarretam a formação do lactato como metabólico, pois o ritmo de sua produção é maior que da sua remoção, principiando o processo de fadiga quando acumulado na musculatura ou na corrente sanguínea (Powers; Howley, 2000). Vale ressaltar que o sistema de jogo adotado pela equipe e a estratégia adversária são situações que podem acelerar ou retardar o aparecimento da fadiga.

Apesar da importância do sistema anaeróbio, o sistema aeróbio empregue nos esforços de baixa intensidade tem papel primordial. É o principal sistema de produção de ATP, também é responsável pela ressíntese dos estoques de CP, contribui no processo de adaptação metabólica do sistema glicolítico, como na remoção do lactato sanguíneo, dos íons de hidrogênio e ainda auxilia na recuperação da frequência cardíaca pós esforço.

Desse modo jogadores de handebol e basquetebol necessitam apresentar condicionamento aeróbio desenvolvido, garantindo a recuperação das fontes anaeróbias a fim de manter as características da intensidade de esforço durante a partida.

Os jogos handebol e basquetebol apresentam esforços que se assemelham aos do método de treinamento intermitente (TI). Na qual a intensidade e as pausas são variadas em função das necessidades que demandam o desporto. Alguns autores propõem a utilização desse método de treinamento como parte fundamental da periodização.

O treinamento intermitente (TI) se configura por repetidos estímulos de curta duração e alta intensidade intercalado por períodos de recuperação ativa ou passiva entre eles (Billat, 2001). Pode-se classificar os TI em três diferentes tipos, sendo eles: de velocidade, que é constituído por estímulos máximos de curta duração (2-10s) seguidos períodos longos de recuperação, entre 50 e 100 s (Reilly; Bangsbo, 1998); de produção, nos quais os estímulos duram em torno de 40s com intensidade máxima ou próxima da máxima, intercalados por períodos de recuperação consideravelmente longos, ou seja, maiores que a duração do exercício (Reilly; Bangsbo, 1998), e o de manutenção, que se constitui por estímulos de 5–90s com curtos períodos de recuperação igual ou menor ao tempo de exercício, resultando em acúmulo progressivo de fadiga à medida que os estímulos são repetidos (Iaia; Bangsbo, 2010).

A gama de possibilidades do TI propicia uma combinação mais precisa em relação as situações encontradas no jogo. Viabilizando aos treinadores aplicarem as três valências metabólicas de energia na metodologia de treinamento. O que determinará como cada via será atingida corresponderá à manipulação entre as variáveis esforço e pausa.

Alguns aspectos podem ser considerados de parâmetro para classificar a natureza intermitente dessas modalidades.

Um estudo realizado por Barbero, Vera, González e Cozo (2014) buscou examinar as demandas físicas de jogadores masculinos de handebol da Espanha durante uma partida simulada, usando dispositivos GPS (Sistema de Posicionamento Global) para avaliar a velocidade e frequencímetro a para analisar as respostas da freqüência cardíaca.

Os dados apontam que em média, os jogadores realizaram uma ação com intensidade de corrida superior a 14 km/h a cada 44 ± 17 segundos e um sprint com velocidade acima de 18 km/h a cada 189 ± 95 segundos. Neste mesmo estudo, os jogadores realizaram 5,4 ± 2,2 acelerações /desacelerações por minuto durante a partida. A relação da frequência cardíaca média relatada foi de 160 ± 10 bpm. Valores equivalentes a 85% da freqüência cardíaca máxima corresponderam a aproximadamente 55% do tempo aferido em jogo (30 minutos).

As ações intensas também são determinantes para o basquetebol, como mostra um estudo realizado por Puente, Abian-Vicen, Areces e López, Coso (2016) com 25 jogadores de basquetebol masculinos de nível nacional em diferentes equipes. Para mensuração das características físicas e fisiológicas foram usados também os dispositivos GPS e monitor de freqüência. A análise foi elaborada durante um torneio oficial de basquete que incluiu 2 tempos de 10 minutos com intervalo de 2 minutos.

Neste mesmo estudo, dados mostraram que os participantes percorreram uma distância média de 82,6 ± 7,8 m.min -¹ durante a partida. Os jogadores cobriram 0.2± 0.7 m.min -¹ com velocidades acima de 24 km/h -¹ e 3 ± 3% do total da distância com velocidades superiores a 18 km/h-¹. Os períodos de aceleração ocorreram a cada 14 ± 4 segundos, enquanto a desaceleração a cada 29 ± 9 segundos durante o jogo competitivo. Já a frequência cardíaca média encontrada foi de 169 ± 8 bpm (155-189 bpm).

Em paralelo, uma pesquisa realizada com adultos em uma partida oficial de basquetebol por Daniel et al. (2013) encontraram valores de 90 -94,9%Fcmáx em momentos onde a bola se manteve em jogo sem interrupção (bola viva).

Os jogos coletivos tem se tornado cada vez mais dinâmicos, seja pela adaptação de novas regras do jogo, pelas estratégias adotadas pelas equipes ou pela evolução física, técnico-tática e emocional dos atletas. O importante é a compreensão a respeito das principais vias metabólicas exigidas por essas modalidades, como elas atuam em diferentes momentos da partida e a partir desse pressuposto elaborar um programa de treinamento que atenda as especificidades dos desportos.

Referências:

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Priscila Galbiati Abasto – Professora de Educação Física especialista em Fisiologia do Exercício: email: priscila.personal@live.com.br