Vigorexia: os perigos que rondam a obsessão pelo corpo perfeito

08 de fevereiro de 2018 ● POR Igor Hueb de Castro

Como todos sabemos o fisiculturismo é o uso de exercícios de resistência progressiva com o objetivo de desenvolver os músculos do corpo. Para muitos praticantes o fisiculturismo é muito mais do que um processo complexo de exercícios. É um estilo de vida.

Também sabemos que a construção de um novo corpo se faz a partir de novos hábitos e mudanças diárias. Assim sendo muitos indivíduos dedicam-se a treinos estruturados dentro de uma metodologia científica e dietas balanceadas e a maioria dessas pessoas se sente muito bem e felizes fazendo isso.

Inspirados em fisiculturistas famosos como Lee Haney (oito vezes Mr. Olimpia), Ronnie Coleman (oito vezes), Arnold Schwarzenegger (sete vezes), Dorian Yates (seis vezes) entre outros, desde a década de 70 toda uma geração jovem masculina foi fortemente estimulada pela mídia a associar a obtenção de um corpo perfeito com saúde, sucesso e felicidade.
Para quem não lembra, o rápido crescimento das academias de musculação no Brasil nos anos 90, levou inúmeros marombeiros a lotar as salas de ginástica em busca do sonho de ter o poder e o respeito encarnados numa silhueta vigorosa.
Até aí tudo bem, correto? SQN…

O que poucos sabem é que estimulada por esse boom do fisiculturismo surgiu também uma das mais novas patologias emocionais. Ela apareceu a partir desse culto desenfreado à imagem corporal perfeita e cada vez mais estimulado a partir de influências socioculturais e da mídia.

Do que estamos falando mesmo? De vigorexia.

O termo Vigorexia foi usado pela primeira vez pelo psiquiatra americano Harrison G. Pope, da Faculdade de Medicina de Harvard, Massachusetts em 2002.

Foi romanticamente chamada de Síndrome de Adônis, em referência ao Deus grego da beleza. A figura de Adônis está vinculada aos mitos agrícolas gregos, e aparece também relacionada, desde a antiguidade clássica, ao modelo de beleza masculina, daí a denominação para a síndrome.

A vigorexia é um subtipo do transtorno dismórfico muscular. Dismorfia designa a discrepância ou diferença entre aquilo que
a pessoa acredita ser (em termos de imagem corporal) e aquilo que realmente é, ou seja, ele descreve uma condição de descontrole em relação à percepção da autoimagem.

O termo dismorfia corporal foi proposto em 1886 pelo italiano Morselli. Embora exista um grande número de pessoas muito preocupadas com sua aparência, para ser diagnosticado de dismorfia, deve haver sofrimento significativo e uma reiterada obsessão com alguma parte do corpo que impeça uma vida normal.
Para Rob Wilson, presidente da Fundação dos Transtornos Dismórficos do Corpo a “Dismorfia muscular é uma preocupação com a ideia de que não se é grande o suficiente, não se é musculoso o suficiente”.

De acordo com Caputo (2005) pessoas com esse transtorno sofrem de idéias contínuas sobre o modo como percebem a própria aparência corporal. Esses pensamentos persistentes, intrusivos, difíceis de resistir, invadindo a consciência e em geral acompanhados por compulsões rituais de olhar-se no espelho constantemente, seriam muito semelhantes aos pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo. Tal síndrome é, no entender dos especialistas atualmente, uma das manifestações de um transtorno obsessivo compulsivo.

Hoje definimos vigorexia como uma doença psicológica caracterizada por uma insatisfação constante com o corpo, que afeta ambos os sexos, mas em especial homens, levando seus portadores à prática vigorosa e desenfreada de exercícios físicos, alto consumo de proteínas, abuso de suplementos alimentares e de esteróides anabólicos, com vistas ao aumento da massa muscular.

Para Caputo (2005) é crescente a obsessão compulsiva pela musculatura, o uso e abuso de ingestão de drogas e de esteróides anabolizantes, de tatuagens no corpo como parte do ritual de iniciação de jovens que praticam musculação e fisiculturismo.

Segundo Pope et al. (2000, p. 22), os adolescentes e homens jovens desenvolveram a crença de que é assim que um homem ideal deveria ver-se.

Comumente a vigorexia é descrita como o contrário da anorexia. Enquanto na anorexia a pessoa se vê muito mais gorda do que realmente é, na vigorexia, o sujeito se vê muito mais fraco do que realmente está e tende a buscar estratégias diversas para aumentar cada vez mais a sua massa muscular.

Os estudos do Dr. Pope foram publicados na revista Psychosomatic Medicine e nos alertaram com a importante observação de que cerca de um milhão de norte-americanos entre os nove milhões adeptos à musculação poderiam estar acometidos pela patologia emocional.

O principal sintoma da vigorexia é o fato de o indivíduo estar em ótima forma física e continuar achando que está muito fraco, ou seja, o principal sintoma que caracteriza a vigorexia é a distorção na percepção do corpo. Todos os outros sintomas da patologia são decorrentes deste.
Outros comportamentos que caracterizam o distúrbio são:

Preocupação exagerada com o próprio corpo
Personalidade introvertida
Insatisfação com sua estrutura muscular
Tendência à automedicação
Uso de quantidades excessivas de suplementos alimentares
Métodos extremos de treinamento
Exercitar-se mesmo estando lesionado
Dietas rigorosas
Abandono da vida pessoal para exercitar-se
Abuso de esteroides,
Cirurgias plásticas desnecessárias,
Tentativas de suicídio,
Vergonha de seu corpo.

Na maior parte dos casos os indivíduos conhecem bem os riscos e os prejuízos que estão causando à saúde com uso de esteroides anabólicos ilegais, mas do uso aparentemente tal fato não se mostra suficiente para detê-los no impulso de “melhorar” a imagem fazendo uso indiscriminado dos mesmos. As causas da vigorexia são psicológicas, mas há uma linha de pesquisadores que acredita que a vigorexia é um distúrbio genético. Outros sustentam a hipótese de que é causada por um desequilíbrio químico no cérebro.

Pesquisas mostram que os vigoréxicos são introvertidos, tímidos e com sentimento de inferioridade social. Possuem baixa autoestima, grande dificuldade de se integrar socialmente e apresentam rejeição à imagem corporal. Outros estudos mostram que o distúrbio pode ser mais comum em pessoas que foram perseguidas, maltratadas ou abusadas quando jovens.

O tratamento para a vigorexia envolve atendimento psicológico e eventualmente medicação psiquiátrica ??para gerenciar o estresse e a depressão. O apoio de nutricionistas faz-se fundamental uma vez que trata – se também de um distúrbio alimentar.
Concordamos com Camargo (2008) quando afirma que tal constatação é motivo de preocupação por parte de profissionais da área da saúde e em especial da Educação Física.

Para Caputo (2005) devemos estar preparados para trabalhar em conjunto com outros profissionais para tentar minimizar os danos para essa população jovem.

No nosso modesto entender faz-se necessário reconhecer a gravidade da situação.

Referências
Camargo, T. Pires de et al. Vigorexia: revisão dos aspectos atuais deste distúrbio de imagem corporal. Rev. bras. psicol. Esporte. 2008, vol.2, n.1, pp. 01-15 .
Campbell, J. As máscaras de Deus – Mitologia Oriental, trad. C. Fischer, São Paulo,PalasAthena,1994
Caputo, F. et al A Obsessão Masculina pelo corpo malhado, forte e sarado Rev. Bras. de Ciências do Esporte, vol. 27, núm. 1, Curitiba, 2005.
Pope, H. G. et al. O complexo de Adônis: a obsessão masculina pelo corpo. Trad. de Sérgio Teixeira. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

Prof. Esp. Roberto Trindade – Formado em Turismo, Psicologia e Educação Física. Pós-Graduado em Psicologia do Esporte e Esportes de Aventura. Email: trindade_scuba@hotmail.com