A psicologia do esporte no cenário esportivo brasileiro

27 de janeiro de 2017 ● POR

Há ainda uma grande resistência por parte de setores do ambiente esportivo nos mais diversos níveis com relação ao trabalho da psicologia do esporte nas equipes profissionais, nas escolas e em outros ambientes esportivos.
Antes de entrarmos nesse debate, é importante entendermos como os fatores psicológicos estão presentes no cenário esportivo.
Um estudo de meta-análise realizado por Voss e colaboradores (2010) sobre cognição e expertise esportiva identificou que os atletas de alto rendimento/experts têm melhores resultados nos testes de memória declarativa, atenção, alocação atencional, melhora da percepção e informação, antecipação e habilidades de tomada de decisão.
Em um outro estudo, Bozkus, Turkmen e Kul (2013) estudaram atletas de futebol feminino e demonstraram que há correlações negativas da ansiedade com experiência esportiva, habilidade esportiva, condição física, força e competências física gerais.
É fundamental compreender que os atletas de alto nível usualmente contam com comissões técnicas interdisciplinares, principalmente nos países da elite esportiva mundial, e que contam nessas comissões com psicólogos do esporte e, portanto, tendem a serem melhores preparados psicologicamente do que os que não contam com esse respaldo.
Esse apontamento vai de encontro com Harmison (2011) que destaca que para o atleta atingir seu desenvolvimento e desempenho ideal, a preparação psicológica tem papel vital.
Se a melhora das habilidades psicológicas aumenta o desempenho, então por que quando caracterizamos os participantes não perguntamos se eles têm acompanhamento de um especialista em psicologia do esporte ou se treinam as suas habilidades psicológicas, ainda mais, se essa preparação é sistematizada?
Somam-se, aqui, os apontamentos de Balague (2000) sobre a importância da periodização psicológica e a necessidade de considerarmos uma série de implicações no modelo de treinamento e que corroboram com o exposto até o momento:
a) Diferentes níveis de habilidade esportiva e experiência podem ter um maior impacto sobre a sequência das habilidades a serem ensinadas;
b) Diferentes esportes têm diferentes exigências. Esportes coletivos, particularmente, requerem outros elementos a mais do que os esportes individuais, tanto no calendário e programação quanto por causa das maiores diferenças ambientais;
c) Esse modelo implica que o treinamento das habilidades psicológicas deve ser realizado em conjunto com o treinamento físico, na academia, pista, campo, em vez do consultório do psicólogo. A cooperação entre psicólogo e treinador é essencial e muitas das intervenções serão realizadas pelo treinador, com o psicólogo atuando como um consultor;
d) O psicólogo trabalhando dentro deste quadro necessita de sólido conhecimento do esporte e das ciências esportivas.
Esses pontos são reforçados pelo estudo de Lidor, Blumenstein e Tenenbaum (2007) realizado com atletas de basquete europeus e por Holliday e colaboradores (2008) na periodização do treinamento mental.
Desta forma, há uma vantagem dos atletas que contam com esse respaldo e, consequentemente, é muito provável que eles atinjam melhores níveis nos testes psicológicos do que aqueles que não contam com o trabalho psicológico sistemático e vivenciam a prática esportiva de outra forma.
Diante dessas evidências, quais são os motivos para a resistência que existe no Brasil para o trabalho da psicologia do esporte? No próximo artigo tratarei dos aspectos específicos dessa problemática.
Trechos desse texto foram adaptados do artigo: Rebustini, F., Balbinotti, M. A. A., de Lucena Ferretti-Rebustini, R. E., & Machado, A. A. (2016). Psicometria esportiva, caracterização dos participantes e invariância. Journal of Physical Education, 27(1), 2760. http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/RevEducFis/article/view/30635/18004
Referências
Voss MW, Kramer AF, Basak C, Prakash RS, Roberts B. Are expert athletes ‘Expert’ in the cognitive laboratory? A meta-analysis review of cognition and sport expertise. Applied Cog Psyc 2010; 24:812-826.
Bozkus T, Turkmen M, Kul M. The effects of age, sports experience and physical self-perception on competition anxiety levels of female football players. Int J Acad Res 2013;5(4):509-513.
Harmison RJ. Peak performance in sport: identifying ideal performance states and developing athletes’ psychological skills. Sport Exerc Perf Psyc 2011;1:3-18.
Balague G. Periodization of psychological skills training. J Sci Med Sport 2000;3(3):230-237.
Lidor R, Blumenstein B. Tenenbaum G. Psychological aspects of training in European basketball: conceptualization, periodization, and planning. The Sport Psyc 2007;21:353-367.
Holliday B, Burton D, Sun G, Hammersmeister J, Nayllor S, Freigang D. Building the better mental training mousetrap: is periodization a more systematic approach to promoting performance excellence? J Appl Sport Psyc 2008;20(2):199-219.