Quais os melhores caminhos para a formação em psicologia do esporte?

24 de fevereiro de 2017 ● POR Redação

No artigo publicado em 27 de janeiro indiquei uma série de estudos que associavam o desempenho esportivo com o trabalho com as variáveis psicológicas.
Nesse artigo avanço sobre as questões da formação em psicologia do esporte.
Um dos primeiros pontos e que há anos tem sido discutido com poucos resultados práticos é que a disciplina de Psicologia do Esporte é ensinada predominantemente nos cursos de Educação Física, não sendo uma disciplina comum nos cursos de graduação em Psicologia.
Isso, até os dias atuais, ainda gera um descompasso entre o ensino nos poucos cursos de psicologia que adotam a disciplina em suas matrizes curriculares e a prática da atividade física, esporte e exercício.
Normalmente, a inserção no campo esportivo se dá nos cursos de pós-graduação em Psicologia do Esporte com oferta reduzida no Brasil. As limitações existentes na oferta na graduação e na pós-graduação obviamente traz consequência para a propagação, consolidação, desenvolvimento de estudos, pesquisa e técnicas de intervenção na área.
Isto tem levado por vezes que profissionais sem domínio do campo da Educação Física passem a atuarem com psicologia do esporte. Eles entendem que a atuação dos conhecimentos da psicologia no esporte é apenas uma extensão dos conhecimentos da psicologia. Ainda que basta pequenas adaptações para que possam atuar.
Este olhar não é apenas restritivo como ingênuo. Já vi cursos de psicologia do esporte que não tratavam de conhecimentos básicos da atividade física e do esporte, como a aprendizagem motora, fisiologia, teoria do treinamento, dentre outras. Como se fosse possível trabalhar com processo ideo-motores, mais conhecidos como mentalização ou treinamento mental como forma de auxiliar a correção de um gesto técnico – obviamente, é uma definição aqui limitada, pois não é o foco do artigo.
Eu preciso dos conhecimentos de ambos os campos para conseguir lidar com essa técnica.
Apenas como referência de quanto temos de caminhar, em alguns países como o Canadá, há cursos de graduação específicos em Psicologia do Esporte, portanto, ao terminar a graduação você será bacharel em Psicologia do Esporte.
Essa é a realidade nos países com sistemas esportivos maduros. Essa atuação perpassa da infância ao idoso, das atividades recreativas ao altíssimo rendimento, da escola aos clubes. Esse cenário não parece estar próximo da nossa realidade.
Essa ausência de sinergia provoca uma lacuna perigosa na formação dos envolvidos nas áreas esportivas. Enquanto nos países com uma cultura esportiva madura, o trabalho da psicologia do esporte é aplicado desde do ingresso nas pessoas na prática; no Brasil, o acesso a este trabalho é restritíssimo. Diante da resistência principalmente de dirigente e técnicos.
Não é incomum encontrar técnicos que em entrevistas, nos últimos anos, disseram que eles trabalhavam a psicologia com seus atletas, como forma de rebater questionamento de jornalistas quanto a necessidade de um trabalho com as emoções dos atletas. Isso não seria um problema central, mas obviamente que esses treinadores não se habilitaram para utilizar dos recursos disponíveis na psicologia do esporte.
Claramente em um cenário profissional o conhecimento empírico não é suficiente para lidar com qualquer questão de alto nível.
Não perca de vista que a psicologia do esporte é produto da intersecção de várias áreas de estudo e, por excelência, é uma área interdisciplinar tanto que sua especialização é aberta aos profissionais das áreas da saúde e humanas.
Seus conhecimentos podem ser utilizados por antropólogos, psicólogos, educadores físicos, nutricionistas, fisioterapeutas e outras. Sobre essa interdisciplinaridade que os estudos devem avançar, a formação deve focar e a atuação deve se pautar.
*Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br