Blogs pró-anorexia podem ajudar a entender o transtorno alimentar

26 de agosto de 2012 ● POR

Ana e Mia são amigas de muitas garotas (e garotos) pela internet. Esses são os apelidos carinhosos dos transtornos alimentares anorexia e bulimia. 

O distúrbio é propagado em muitos blogs – principalmente feitos por adolescentes – como necessários para atingir a magreza extrema desejada. Em um dos sites pró-ana, essa frase é a inspiração da blogueira: “Talvez você perca alguns quilos, tire um pouco de gordura deste seu estômago gordo! Mas não irá demorar muito até eu te dizer que não está bom o suficiente”.

Estima-se que cerca de 100 mil adolescentes sofram com a bulimia e anorexia no Brasil, sendo 90% do sexo feminino. Esses blogs apoiam e incitam milhares de jovens a desenvolver e continuar com seus transtornos alimentares, embora eles possam levar a morte. A anorexia, por exemplo, é um distúrbio com elevadíssima taxa de mortalidade, em torno dos 20%, o que a torna o transtorno psiquiátrico mais mortal de todos.

Ou seja, a Ana e a Mia estão longe de serem amigas de verdade. Os blogs certamente precisam acabar, mas pesquisadores encontraram um lado positivo dos polêmicos e controversos sites: um novo estudo da Universidade de Indiana, nos EUA, mostrou que nas comunidades online pró-anorexia e bulimia, as pessoas se expressam de maneira mais sincera, sem medo de julgamentos. Isso pode ser fundamental para entender a cabeça de quem sofre com o transtorno, a fim de descobrir uma maneira de reverter situações dramáticas. Apesar de ser um problema antigo que cresce a cada ano, os tratamentos atuais contra a bulimia e anorexia nem sempre são eficazes.

Blogueiros pró-anorexia

Pesquisadores da Universidade de Indiana entraram em contato com 300 blogueiros de comunidades pró-ana e receberam resposta de 30 deles. Homens e mulheres foram abordados, mas apenas garotas participaram da pesquisa. Elas tinham entre 15 e 33 anos, a maioria frequentava escola ou faculdade, e todas viviam em países em que a anorexia é comum. Cerca de dois terços viviam nos Estados Unidos, onde se estima que 11 milhões de pessoas tenham transtornos alimentares.

Muitas dessas blogueiras se expressam através de letras de música e fotos que elas consideram “inspirações”, como imagens de Gisele Bundchen – embora algumas pessoas que sofram o transtorno desejem ser ainda mais magras do que a modelo.

Nos blogs, as pessoas procuram um lugar em que não serão julgadas. Tratam os transtornos alimentares com carinho, e inclusive dizem que não se trata de doença, mas sim de um estilo de vida. Anoréxicos buscam esses grupos para receber apoio e compreensão. Fotos de corpos magérrimos se transformam em inspiração, e não são vistos com maus olhos.

Pesquisadores afirmam que os indivíduos são atraídos para esses sites não apenas pela necessidade de compartilhar uma visão e filosofia, mas para se sentirem pertencentes a uma comunidade segura de pessoas que passam por experiências de vida semelhantes. A maioria dos blogueiros inicia as publicações porque não quer se sentir sozinha e deseja encontrar outras pessoas como ela. Enquanto descrevem a vida conturbada com família e amigos, recebem apoio, compreensão e encorajamento.

As garotas entrevistadas no estudo disseram que depois do blog o humor delas melhorou, e que escrever e compartilhar experiências se tornou algo fundamental em suas vidas.

Ajuda também na recuperação

Quando um usuário do blog ganha peso, recebe comentários de apoio para emagrecer. Entretanto, pesquisadores observaram que quando uma pessoa deseja mudar de comportamento e recuperar sua saúde, a comunidade a apoia também. Entre as 30 garotas entrevistadas, cinco afirmaram que estavam tentando superar a doença. Uma delas afirmou que o blog a ajudou no processo de recuperação do transtorno alimentar.

A maioria dos estudos anteriores indicava que sites pró-ana serviam para promover e manter a anorexia, compartilhando dicas para perder peso. Mas apenas cinco blogueiras afirmaram que essa foi uma das razões para começar os blogs. Muitas garotas inclusive afirmaram que ignoram pedidos de dicas de jovens que querem se tornar anoréxicas.

Já é claro que sites que incentivam a anorexia dão suporte para milhares de jovens. Resta descobrir como trazer para o mundo online saídas e apoio para quem quer se tratar e superar esses transtornos – além da importante ajuda off-line, como o apoio da família.