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Anos atrás, quando abríamos os pouquíssimos livros que existiam sobre treinamento de força para mulheres, todos americanos, passávamos pela introdução, que dizia que treinar era muito bom para elas, seguíamos para os tipos de treino – com máquinas, pesos livres ou calistênicos – e pronto. A impressão que ficava no final era de que havíamos lido um manual de musculação simplificado com bonequinhos com peitos e cabelos compridos.
Se a difusão de um consenso quanto à importância do treinamento resistido para “gente” já foi uma batalha dura, não completamente vencida, na área da saúde, a idéia de que diferentes categorias de “gente” têm necessidades e especificidades para este treinamento, então, ainda não passa de assunto de um pequeno círculo de estudiosos.
A verdade é que, para a maioria dos profissionais – sejam educadores físicos, médicos, fisioterapeutas -, mulher, como aluna ou paciente, é um “homem mais fraco”. Temos o “organismo default” – homem, adulto, branco, de 70kg – e temos as condições patológicas. Sabemos que hiper-tensos requerem treinamento especificamente programado para suas características fisiológicas, idosos também e agora até diabéticos já ganharam espaço na literatura de treinamento para os “grupos especiais”. Entre o default e as condições patológicas, um vazio. Vazio este ocupado, em parte, por 50% da população saudável ou não saudável do planeta: as mulheres.
Problema: mulheres NÃO são caras mais fracos. Mulheres são diferentes, e portanto, especiais. A resposta feminina ao treinamento de força é diferente da resposta masculina. A treinabilidade das mulheres é diferente. O treino e o destreino das mulheres obedece ritmos próprios, diferente dos homens. A própria expressão da força, em mulheres é diferente do homem e só conseguimos nos aproximar de uma comparabilidade razoável entre os gêneros quando nos aproximamos de níveis relativos mais e mais específicos (força por peso corporal, por peso magro, e, finalmente, no nível citológico; Fleck & Kraemer 2006, Neder et al 1999). No entanto, entre todas as especificidades femininas, a mais importante é que a relevância relativa do treinamento de força para a saúde das mulheres é muito maior do que a dos homens. Homens que não fazem treinamento resistido se prejudicam. Mulheres que não fazem treinamento resistido estão em rápida rota de colisão com uma catástrofe biológica.
O exemplo que mais rapidamente vem à mente quando pensamos na relevância preferencial do treinamento de força para mulheres é a prevenção e tratamento da osteopenia e osteoporose que freqüentemente acompanham a menopausa e afetam a qualidade de vida das idosas. Hoje sabemos que esse risco é muito mais precoce. Vários trabalhos têm demonstrado que mulheres pré-climatéricas estão cada vez mais sendo atingidas por ele, mas não são encaminhadas ao treinamento resistido.
Vamos descer mais um pouco: 85% da densidade mineral óssea é determinada na infância e meninas às quais é oferecido o estímulo do exercício de força têm um superávit sustentado de mineralização em relação às que não são. Treinar crianças já é um sacrilégio para boa parte do médicos, não atualizados em relação à literatura em treinamento de força. Treinar meninas, então, é uma proposta que se choca contra a desatualização dos médicos, o preconceito machista das famílias, a insuficiência de formação entre os profissionais da área e, finalmente, a inexistência de instituições adequadas.
A estas meninas não treinadas resta um mundo bi-dimensional de atividades mais manuais e de baixa diversidade de desafios motores. O resultado são meninas não apenas condenadas a um déficit de mineralização, mas a uma alienação corporal resultante de um complexo déficit de aprendizado e conseqüente acervo motor. Em poucos anos, ainda antes da puberdade, seu consumo calórico e nível de atividade física será desproporcionalmente menor que o dos meninos, criando a bola de neve da alienação corporal, desvantagens metabólicas e desordens alimentares (Goran et al 1998).
Até aqui já vimos que idosas não treinadas são mais prejudicadas do que idosos; meninas não treinadas são mais prejudicadas do que meninos. Adolescentes e adultas não ficam atrás: com um risco muito mais acentuado de incidência de obesidade, herdado da infância de menor mobilidade, e uma atividade endócrina menos anabólica, a adolescente se prejudica mais do que o adolescente na ausência do estímulo do treinamento resistido. O resultado, para ela, pode ser uma luta pelo resto da vida contra o sobrepeso e suas graves conseqüências para a saúde (Siervogel et al 2003).
O evento fisiologicamente mais dramático na vida de uma mulher adulta é a gravidez e o parto. Encontramos nessa situação a síntese de todos os problemas que apresentamos até aqui: a ignorância dos médicos e pesquisadores, o preconceito da sociedade, a insuficiência de formação dos profissionais de Educação Física e, finalmente, o despreparo institucional. Comecemos pelo mais grave, que é a origem dos consensos técnicos numa sociedade: os pesquisadores e profissionais da área da saúde. Afinal, que formação podem ter os profissionais de Educação Física se o conhecimento científico numa determinada temática não é gerado? Nenhuma, e qualquer ação que decidam tomar fica sustentada no perigoso tripé da experiência prática, bom-senso e ousadia. O fato é que praticamente inexistem trabalhos de pesquisa bem estruturados sobre treinamento de força para gestantes e poucos sobre dores e lesões derivadas das alterações posturais e fisiológicas de sua condição. Os trabalhos que existem sofrem de problemas metodológicos, insuficiência de dados, dados inadequados para a lacuna de conhecimento, hipóteses mal-formuladas e outros. Muitos deles, ainda que com boa vontade, são conduzidos por profissionais sem a devida imersão na prática do treinamento resistido.
Assim, ficamos, como em outras situações passadas da história do treinamento resistido, entre o medo da maioria dos profissionais e o avanço do conhecimento, aos trancos e barrancos, nas salas de musculação, pelas mãos do profissional de linha de frente. Mais uma vez, a ciência vem a reboque. Vem a reboque, no entanto, de uma pequena vanguarda visionária. A grande maioria dos profissionais ainda acredita que lugar de grávida é na hidroginástica.
Para os que apostam no progresso, no entanto, a boa notícia é que já existe um pequeno, porém significativo número de trabalhos científicos confrontando a visão dominante em relação atividades aeróbias terrestres para este grupo de mulheres (Clapp 2006). Estes poucos estudos já mostram os efeitos fisiológicos do exercício resistido para a grávida e para o complexo feto-placentário. O exercício resistido é não apenas benéfico, mas indicado para controlar desde condições metabólicas como o risco de diabetes gestacional, como para prevenir dores e lesões articulares durante a gravidez e no pós-parto.
Como a lacuna entre a produção científica e o desenvolvimento de metodologias de treinamento ainda é quase um abismo, não existem bases para a prescrição de exercícios resistidos quer para idosas, adolescentes, meninas e muito menos grávidas. Mais e mais, as grávidas que exibem certa treinabilidade pré-concepção querem continuar na sala de musculação.
Estas gestantes são confrontadas por seus obstetras, cujos livros-texto indicam a musculação como risco médio para a grávida por promover alta da temperatura corporal e por apresentar potencial risco de lesões osteomusculares e de diminuição de fluxo sanguineo para a placenta.
Em busca de apoio, olham para os Educadores Fisicos, que olham para seus livros e não enxergam nada. As bases empíricas, tanto experimentais como estudos de caso e epidemiológico, estão escondidas na complicada teia de fontes primárias da literatura científica, uma caixa-preta para a imensa maioria dos profissionais.
Entre médicos ainda sem atualização suficiente que os sacuda de seus modelos sem fundamento empírico e Educadores Físicos intimidados pelo poder da medicina as gestantes, mandadas para a piscina, continuam sofrendo de dores articulares, sobrepeso, dores lombares e cervicais. As idosas, mandadas para a calçada, continuam administrando sua frágil saúde óssea e depressão pós-climatério. As adolescentes, mandadas para a aula de aeróbica, continuam comendo compulsivamente na frustração do descontrole sobre seus próprios corpos. E as meninas, mandadas para a mesa, desenhando ou brincando de casinha, caminham inocentes para todo esse sofrimento da dura corporalidade feminina.
Essa situação precisa mudar, e precisa mudar imediatamente, seja pelo que representa em sofrimento humano e social, seja por ser inaceitável esse grau de resistência à uma demanda no avanço dos conhecimentos e idéias sobre a realidade.
Nesta coluna, vamos abordar, todo mês, um tema relacionado ao treinamento de força para mulheres, sempre buscando evidenciar as lacunas e estimular a discussão para nossa área. Faremos isso na ordem em que os temas se apresentam na história de vida feminina: primeiro, discutiremos as bases conceituais para a constituição da mulher como “grupo especial” no treinamento de força. Depois, caminharemos da infância ao envelhecimento, abordando sempre os aspectos fisiológicos e socio-culturais de maneira integrada. Finalmente, discutiremos a mulher atleta e as desorens alimentares.
Esperamos que nossas reflexões e informações ajudem a aprofundar essa discussão há muito necessária entre os profissionais da Educação Física.
Referências Bibliográficas
Clapp JF. 2006. Effects of Diet and Exercise on Insulin Resistance during Pregnancy. Metab Syndr Relat Disord. Summer;4(2):84-90.
Fleck, S.T.; Kraemer, W.J. 2006. Fundamentos do treinamento de força muscular. 3° ed. Porto Alegre: Artes Médicas.
Goran et al. Developmental Changes in Energy Expenditure and Physical Activity in Children: Evidence for a Decline in Physical Activity in Girls Before Puberty. Pediatrics. Vol. 101 No. 5 May 1998
Neder JA. 1999. Reference values for concentric knee isokinetic strength and power in nonathletic men and women from 20 to 80 years old.J Orthop Sports Phys Ther. Feb;29(2):116-26.
Siervogel et al. Puberty and Body Composition Horm Res 2003;60(suppl 1):36–45

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