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Quem é mais forte: o homem ou a mulher? O homem, é claro! “Think again” (pense outra vez)... E vamos aos dados. A diferença de força entre homens e mulheres é bastante evidente quando se observa valores absolutos. Comparando os recordes de força máxima, por exemplo, entre homens e mulheres em levantamento de peso básico (powerlifting), teremos 185kg para o supino na categoria até 60kg para homens e 150kg para o mesmo levantamento na categoria até 60kg para mulheres (Global Powerlifting Committee 2008).
Esta diferença, no entanto, mostra-se cada vez menor a cada nível de análise. Ao analisar os percentuais de diferença entre homens e mulheres no torque isocinético concêntrico de extensão de joelho (60 graus por segundo), temos um valor de 54% de deficit para mulheres quando considerado o movimento em termos absolutos, 30% de deficit quando considerado o peso corporal, 13% de deficit quando considerada a massa corporal magra, e apenas 7 % de deficit quando considerada a massa corporal da perna isenta de massa óssea (Neder et al., 1999).
Outros trabalhos corroboram esta idéia e demonstram diferença, mesmo que menor que a absoluta, em relação à área de secção transversal muscular (Kanehisa 1994). Este mesmo grupo de estudiosos explica que quando uma diferença na forca por área de secção transversal é notada entre os gêneros, ela pode estar relacionada a mulheres que tem menor atividade eletromiográfica integrada durante ações musculares voluntárias máximas, maior tempo de atraso elétrico-mecanico ou ambos. Fora estas analises a diferença da forca muscular ainda pode ser descrita em relação ao menor ângulo de penação em mulheres, maior quantidade de fibras tipo I, e consequentemente menor produção de potencia muscular (Fleck & Kraemer 2006).
Por outro lado, existem algumas evidências apontando uma vantagem relativa das mulheres quanto a tarefas associadas à resistência a fadiga (Clark et al 2005). A discussão sobre o poder da relevância entre parâmetros absolutos e relativos da força muscular vem a certo tempo ganhando notoriedade. É plausível concordar muitas vezes com os autores que comparam as diferenças apenas em âmbito absoluto, visto que as atividades do cotidiano, o trabalho braçal, e os desportos são, em suas medidas, absolutos.
Se num nível micro estrutural os gêneros são tão parecidos, por que então as mulheres tendem, como acentuamos na coluna passada, a sofrer tão mais que os homens as conseqüências da falta do treinamento? A resposta para essa desvantagem é um tripé constituído por fatores fisiológicos, mentais (emocionais e cognitivos) e sociais. Os três pés, no entanto, funcionam em sinergismo, seja no estabelecimento do conhecido círculo vicioso que vitimiza a grande maioria das mulheres, seja na sua libertação, através de um circulo virtuoso de influências positivas.
O pé fisiológico desta condição está presente desde os momentos mais precoces da diferenciação de gênero. Ainda num período pré-pubere, observa-se uma redução no gasto energético das meninas em relação aos meninos da mesma faixa etária. Embora, como veremos, as chances de que os fatores predominantes sobre este padrão sejam de natureza sociocultural, os pesquisadores não descartam mudanças fisiológicas precoces (Garnett et al 2004). Durante a puberdade, o principal fator na desvantagem feminina é a resposta endócrina sexual. Os hormônios sexuais predominantes ou exclusivos das mulheres são muito menos anabólicos do que os predominantes nos homens. A testosterona, principal hormônio sexual masculino e também principal estimulante metabólico para o anabolismo muscular ocorre naturalmente em concentrações 20 vezes menores em mulheres desde o início da puberdade.
Além disso, as variações hormonais típicas do ciclo menstrual feminino produzem alterações ainda pouco estudadas, porém conhecidas, na resposta feminina ao treinamento. A pequena produção de testosterona associada a um quadro de sedentarismo, em mulheres, contribui de forma mais determinante para uma composição corporal com alto percentual de gordura, um sobrepeso acentuado (cuja epidemiologia é muito conhecida) e todos os desdobramentos negativos que esta condição acarreta. Vimos parte disso na coluna anterior.
O pé sócio cultural começa cedo e se estende pela vida toda da mulher: condenada a uma infância com estímulos limitados, a menina desenvolve um acervo motor bem inferior ao dos meninos das mesmas idades. A limitação dos estímulos motores da qual as meninas são vítimas não é culpa desta ou daquela família: é resultado de um conjunto de pressupostos socialmente partilhados sobre o que é “ser menina”, do ponto de vista da sociedade. Estes pressupostos, valores e procedimentos que condicionam a maneira como meninas serão corporalmente educadas são disseminados pelas instituições (família, escola, igreja, etc.) e pela mídia.
Ser mulher é ter muito menos controle e poder sobre seu corpo: sem um acervo motor suficientemente diversificado para codificar uma mobilidade funcional, a mulher cresce como a contra-parte “frágil” e “paradona” do homem. O elemento mais estranho da corporalidade da mulher para ela mesma é a força: falta-lhe coordenação neuro-muscular, agilidade, equilíbrio e experiência em si do exercício da função força. O impacto da mídia e as exigências sociais quanto aos padrões estéticos criam uma situação esquizofrênica: a mulher se vê diante da impossível tarefa de conformar um corpo que desconhece e sobre o qual não tem controle a um formato e postura determinados externamente.
O pé cognitivo-emocional é o resultado deste quadro: uma situação de alienação corporal. A mulher, separada de seu próprio corpo por uma história de limitação sobre sua mobilidade (culturalmente determinada), pressionada a se conformar a padrões estéticos determinados por coisas e instituições distantes dela, segundo interesses que nada tem a ver com os dela ou com sua saúde, lida com seu corpo como um ente à parte. A angústia e insegurança geradas por essa situação produzem todo tipo de distorção de auto-imagem e comportamentos auto-destrutivos. Além disso, tornam a mulher vítima de todas as intervenções que o mercado inventa para ajustar seu alienado corpo aos padrões estéticos dominantes. Não é à-toa que mais de 90% dos portadores de anorexia é constituída por mulheres.
Quando dizemos, portanto, que a mulher é um grupo especial, nos referimos a este tripé: em primeiro lugar, a mulher é fisiologicamente diferente quanto às suas demandas no treinamento de força. Vamos começar pelo óbvio: homem não engravida e não tem pós-parto. Portanto não sofre o encurtamento de peitoral, hiper-extensão dos rombóides, agravamento de curvaturas fisiológicas da espinha que a grávida sofre, e que requerem prescrição de treinamento voltado para esse novo corpo em transformação. Depois, homens não têm menopausa e suas drásticas conseqüências, que requerem um treinamento de força sistemático e regular. Os fatores fisiológicos menos óbvios não deixam de ser relevantes e precisam ser considerados ao se planejar o treino das mulheres, como a sua “periodização” hormonal.
Em seguida temos os fatores socioculturais e mentais: sem tê-los em mente, é difícil planejar um treinamento de força que retenha a mulher. A taxa de abandono é alta justamente por essa combinação de dificuldades que faz das mulheres um grupo altamente especial.
No entanto, ao “ganhar” esta mulher perdida para si mesma em sua corporalidade alienada para o treinamento de força, é possível estabelecer um “ciclo virtuoso”: a mulher com níveis cada vez mais altos de coordenação neuro-muscular, equilíbrio e consciência corporal, treina melhor. Treinando melhor, tem resultados. Tendo resultados, modifica sua composição corporal, funções fisiológicas relacionadas a stress, se torna mais vigorosa e sua libido aumenta. Modificando sua composição corporal, modifica sua postura e sua imagem, e, quase sempre, sua auto-imagem.
Essa auto-imagem corresponde a uma representação de si mesma como um ser “forte” não apenas fisicamente, mas social e psiquicamente. Esta nova mulher, investida de uma nova “força”, é capaz de resistir bem melhor aos fatores corrosivos de sua saúde física, psíquica e social.

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