A importância do professor de educação física escolar em busca do desenvolvimento de uma cultura esportiva

26 de outubro de 2016 ● POR Karina Dias

É interessante o uso quase restrito da periodização para os esportes de competição e alta performance. Contudo é necessário compreender que a aplicação da periodização pode e deve ser utilizada em ambientes que extrapolem a competição e que estejam além de objetivarem como produto final o resultado na competição. De forma muito singela e simples, o objetivo da periodização é o desenvolvimento das capacidades e habilidades físicas e sua organização no tempo como o objetivo da excelência visando o resultado esportivo. Mas é apenas isso? Não seria importante sua aplicação de forma sistematizada em ambientes como a academia, na atividade física regular, e mesmo, na escola?

 

Vou me concentrar no caso da escola, que é o mais espinhoso a ser trabalhado. Podemos pegar qualquer um dos estudiosos que trataram do desenvolvimento na infância e adolescência e das fases de maturação, das valências físicas e da aprendizagem motora para encontrarmos uma série de congruência entre elas; preliminarmente, do outro lado do campo, temos as ciências do treinamento apontando que há uma organização e ordem para o melhor desenvolvimento físico-motor desses mesmos aspectos, buscando prioritariamente um outro fim. Contudo, por que não aproveitar os pontos de sinergia? Poder-se-ia simplesmente associar o planejamento das aulas de EF como sendo a própria periodização…, mas, efetivamente, o planejamento da aula de EF visa a excelência das habilidades motoras e físicas? Ficando apenas nesse primeiro plano.

Quando planejamos as aulas elas estão estruturadas dentro de um microssistema, considerando a aula por analogia uma sessão de treinamento, voltada claramente para um processo pedagógico de determinada habilidade, visando a transferência dessa habilidade para as atividades subsequentes, a associação com exercícios mais complexos na mesma aula (sessão), com as atividades da próxima aula, no próximo mês, no próximo ano? De forma factual, há diferença entre a busca da excelência no esporte de rendimento e na escola? A resultante pode até ser distinta, entretanto, a periodização em essência visa a qualidade das atividades, visando um resultado futuro. E qual é o resultado futuro das aulas de educação física? Quais são os parâmetros de desenvolvimento para cada ano escolar? Quais são os índices das valências físicas para essas fases? Quais são os indicadores a serem monitorados ao longo dos anos escolares? É no mínimo temerário não haver um controle sistemático do desenvolvimento de todas as etapas e dos indicadores de desempenho motor e das valências física. Isto sem adentrar especificamente nas questões psicossociais.

Ou adotamos que o que é mais importante são os aspectos subjetivos do desenvolvimento em detrimento aos objetivos. De fato, são as duas formas, ambas devem estar delineadas e sistematicamente monitoradas. Como saberemos o que podemos esperar da condição desses fatores nas outras fases do ciclo vital? De forma resumida o que quero dizer é que a escola também tem de ter de forma pormenorizada as atividades e os objetivos aplicados a cada aula, sua conexão com as demais aulas, com as fases de desenvolvimento da criança e adolescente, bem como, o que queremos que esses jovens carreguem para todo o ciclo vital. E não basta o desenvolvimento de um cronograma de aula e o objetivo principal, quais são as atividades de forma pormenorizada, quais seus efeitos imediatos, de curto, médio e de longo prazo? E nisto os princípios da periodização poderiam auxiliar nesse planejamento. Há evidências vastas na literatura das fases de latência das capacidades físicas, assim, elas são respeitadas? Num período de latência do desenvolvimento da velocidade, estaremos concentrando nosso planejamento para potencializar essa valência, obviamente não em detrimentos das outras, mas com ênfase nela.

Deve-se constar que não há a possibilidade de desenvolvimento de uma cultura esportiva e de uma política sem que ela seja semeada no ambiente escolar. Pode-se olhar para o que está escrito até aqui e apontar para uma leitura tecnicista, contudo, o que objetivo é apontar que mesmo num ambiente escolar que o resultado final necessariamente não é a competição voltada ao resultado esportivo, mesmo essa devendo ser parte do ambiente escolar. Esta sistematização pode e deve incluir o lúdico, os jogos cooperativos e demais estratégias. O que ressalto é que não deve ser uma opção por sistemas, é a integração de sistemas; não é sistema A X sistema B, e sim, como fazer para que sistema A e B trabalham juntos em um objetivo comum que é o desenvolvimento dos jovens.

Fonte: Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br