Autismo: esporte é fundamental para a aprendizagem

06 de maio de 2016 ● POR

Atividades físicas e práticas esportivas oferecem um amplo repertório de experiências sensório-motoras que colaboram com o desenvolvimento de diversas funções cognitivos, tais como: memória e atenção – desde a infância até a idade adulta – e beneficiam tanto crianças com desenvolvimento típico quanto – e especialmente – aquelas com transtornos do espectro do autismo.

A incessante busca por informações e métodos que contribuam para o bom desenvolvimento das crianças e jovens diagnosticados com TEA – Transtorno do Espectro do Autismo, assim como os crescentes estudos e pesquisas para encontrar caminhos que levem a um maior entendimento de suas causas para, dessa forma, chegar a um lugar – hoje ainda distante –, chamado cura, fazem parte do dia a dia dessas milhões de pessoas no mundo todo.

Enquanto a cura não chega, juntamente com as terapias de estimulação cerebral, que permanecem sendo uma das principais ferramentas para controlar os sintomas e assegurar o desenvolvimento das pessoas portadoras do TEA, ganham força as chamadas experiências sensório-motoras, nas quais se incluem a música e a atividade física e prática esportiva.

No livro “Smart Moves: Why Learning Is Not All In Your Head” (Movimentos Inteligentes: Por que a aprendizagem não está toda em sua cabeça), escrito em 1995, pela neurofisiologista e educadora Carla Hannaford, uma visão muito instigante do papel do corpo no pensamento e aprendizagem mereceu a minha atenção. Citando pesquisas sobre o desenvolvimento da criança, fisiologia e neurociência, a autora trouxe à luz as maneiras pelas quais as experiências sensório-motoras afetam diversos aspectos da nossa cognição, desde a infância até a idade adulta, e concluiu que o movimento é crucial para a aprendizagem.

Como profissional e pesquisador da área da Educação Física, encontrei neste argumento a inspiração para a proposta, que já intuía, juntamente com minha esposa, Lucila Schliemann, em sua prática clínica em fonoaudiologia, de oferecer atividades físicas e esportivas para crianças visando contribuir com o seu desenvolvimento global.

Porém, quando nos deparamos com o nosso primeiro aluno com TEA no desenvolvimento de nossas atividades curriculares em nosso espaço, voltado para atividade física com crianças e adolescentes, a percepção de que embora trabalhássemos com diversas atividades visando o desenvolvimento motor, social, cognitivo e sensorial de nossos alunos, estávamos diante de um novo e estimulador desafio e havia a necessidade de buscar mais informações sobre como desenvolver essas habilidades em crianças com transtornos de neurodesenvolvimento e, em especial com aquelas acometidas pelo TEA. Essa foi a motivação para estudar com profundidade este tema e proporcionar uma experiência exitosa para essas crianças de tal forma a incluí-las efetivamente nas atividades oferecidas.

Dessa forma, acabei realizando meu trabalho de conclusão de curso de educação física, pela Unicamp – Universidade Estadual de Campinas, através de uma monografia sobre as estratégias de inclusão esportiva de crianças autistas, em que procurei abordar os benefícios da atividade física para o desenvolvimento global das crianças autistas e indicar caminhos para sua inclusão gradativa no universo das práticas corporais e esportivas.

A esse primeiro trabalho seguiram-se outros estudos mais específicos sobre atividade física e autismo, trabalhos apresentados em congressos científicos, e hoje desenvolvo um projeto de pesquisa na Escola de Educação Física da USP voltado para avaliação dos efeitos do foco de atenção na aprendizagem motora de crianças com TEA.

A paixão pelo esporte sempre esteve presente na minha vida desde a infância, por meio dos campeonatos de futebol aos domingos no antigo clube Interlagos em São Paulo, com a participação nos programas de atividades físicas e recreativas, oferecidos pelo SESC (Dr. Vila Nova/SP) e como atleta de voleibol das categorias de base (pré-mirim ao juvenil) do Club Athletico Paulistano.

Apesar de todo esse envolvimento com o esporte, o início de minha vida universitária e profissional se deu pelo curso de Engenharia, profissão que exerci por 20 anos. Ainda assim, durante todo o período da faculdade estive ativamente envolvido no esporte universitário como atleta e como dirigente da Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE). Em 2007, no entanto, decidi dar vazão a essa vocação e iniciei o curso de Educação Física.

E esse caminho – da educação física ao desenvolvimento infantil– tem me levado a experiências e descobertas incríveis sobre o poder do movimento na aprendizagem das crianças e jovens e o quanto isso pode contribuir no desenvolvimento daquelas diagnosticadas com TEA.

Matéria publicada no site Segs.