Como a ciência pode ajudar a ensinar basquete nas escolas

03 de julho de 2018 ● POR Redação

A iniciação desportiva de crianças e jovens tem sido um importante campo de investigações nas Ciências do Desporto. A preocupação com a produção de conhecimentos, especialmente aqueles que possam fornecer subsídios teóricos para uma melhor intervenção profissional nesta área, tem justificado a realização de estudos no qual os problemas abordados estão relacionados à forma como deve ocorrer a iniciação aos desportos, e sua origem está na prática cotidiana do processo de ensino-aprendizagem implementado na realidade escolar (GRECO, 2002).

GRAÇA e MESQUITA (2002) realizaram uma revisão bibliográfica da evolução histórica das investigações sobre o ensino dos jogos desportivos. Os autores constataram que a forma tradicional de abordagem do ensino dos jogos, centrada na aprendizagem das habilidades básicas do jogo, foi o tema central de uma série de estudos realizados, em sua maioria, em contextos das aulas de Educação Física. De modo geral, GRAÇA e MESQUITA (2002) referem-se à evolução das investigações sobre esta temática indicando que numa primeira fase a preocupação dos investigadores prendeu-se à escolha do melhor método, ao mesmo tempo em que se confundia com a investigação na área da aprendizagem motora.

A observação e contagem do tempo de empenhamento motor marcaram a fase seguinte, preocupada essencialmente com as competências genéricas de ensino. Mais recentemente, a investigação passou a dar mais atenção ao conteúdo da tarefa, à sua estruturação pelo professor e às condições de prática.

Alguns estudos procuraram alargar o teste de hipóteses das condições laboratoriais da aprendizagem motora a condições mais ecológicas, isto é mais próximas das situações reais de ensino. Destacam-se neste âmbito os estudos do efeito do nível de interferência contextual, ou seja, a prática de habilidades em condições variáveis. Os estudos atuais tendem a dar maior relevância aos aspectos cognitivos, à tomada de decisão, à dimensão tática, aspectos anteriormente negligenciados quer no ensino, quer na investigação.

Entende-se agora que a estrutura do jogo deve servir de base para a estruturação das tarefas de ensino. As abordagens atuais a respeito do ensino nos jogos apresentam relação direta não só com a evolução nos estudos específicos nesta área, mas assenta também nas alterações de concepções e pensamentos em todos os campos do conhecimento. De fato, durante um longo período, a abordagem que preponderava estava baseada no pensamento mecanicista, onde os procedimentos analíticos eram os mais apropriados para a compreensão dos fenômenos humanos e sociais.

A fragmentação de um fenômeno em partes para depois reconstruí-lo a partir da reunião destas partes mostrou-se insuficiente às explicações teóricas e práticas exigidas no mundo moderno. Esta insuficiência gerou uma tendência em se tratar o comportamento humano como uma totalidade ou sistema, operando uma transformação nas estratégias básicas de pensamento (BERTALANFFY, 1977). Esta evolução de pensamento também pode ser visualizada nas alterações ocorridas nas abordagens de ensino dos jogos esportivos coletivos. Num primeiro momento a ênfase era a utilização de métodos analíticos de ensino inspirados “[…]no dualismo cartesiano e nos conceitos associacionistas, muito divulgados na Educação Física nos anos sessenta”. A esta abordagem, designada de método parcial, veio opor-se uma outra, o método global, cuja concepção de totalidade era representada pela inspiração na teoria Gestalt (GRECO, 2001, p.52). Estes métodos foram difundidos e utilizados nas aulas de Educação Física, principalmente durante os anos de 1970 e 1980.

No campo da investigação, as pesquisas sobre o tema buscavam a definição entre o melhor método, conforme classificação adotada por GRAÇA e MESQUITA (2002). As abordagens mais atuais têm definido o ensino como uma tarefa complexa, que requer do professor o domínio de um conjunto de conhecimentos ou competências, que utilizados de forma integrada conduzem ao êxito no ensino. Na formação inicial, a aquisição de algumas destas competências, especificamente o conhecimento do conteúdo, o conhecimento de estratégias e conhecimentos dos alunos, são elementos que contribuem para a estruturação da competência pessoal para o ensino. Contudo, o reconhecimento das inúmeras transformações ocorridas na Educação Física, proveniente do avanço científico nas últimas décadas, tem sido insuficiente para uma alteração significativa na atuação do professor em aula.

Apesar das variadas preocupações de cunho pedagógico e social na realização do ensino dos esportes em contexto escolar, o esquema de aula do Método desportivo trazido ao Brasil por Auguste Listello (MARTINEZ, 2002), passou a ser utilizado de forma generalizada, tanto nas aulas de Educação Física Escolar quanto nas sessões de treinamento desportivo, homogeneizando os procedimentos de intervenção do profissional de Educação Física.

A estrutura mais usual de aula apresenta uma preparação inicial, uma segunda parte destinada à aprendizagem e aperfeiçoamento da técnica de jogo, e na terceira etapa realiza-se o jogo propriamente dito, o qual serve de contexto para o aluno aplicar os comportamentos aprendidos. Por sua vez, a literatura mais atual proveniente desse desenvolvimento científico acentuado, tem colocado à disposição um conjunto de obras sobre o ensino dos desportos coletivos.

As obras O Ensino dos Jogos Desportivos Coletivos de BAYER (1994) e O Ensino dos Jogos Desportivos de GRAÇA e MESQUITA (1995) constituem referência básica deste novo período (DAOLIO, 2002). Além disso, outras correntes metodológicas têm surgido, a exemplo do Teaching Games for Understanding (TGFU) ou ensino para a compreensão do jogo, proveniente dos estudos de BUNKER e THORPE (1982) e ainda os modelos de GRIFFIN, MITCHEL e OSLIN (1997). No Brasil, particularmente as publicações de GRECO (2001, 2002) tem sido referência obrigatória para fundamentar trabalhos de investigação e formulação de programas para o ensino dos esportes coletivos. Na proposta de BUNKER e THORPE (1982), por exemplo, as preocupações dos idealizadores têm se voltado principalmente para o processo de aprendizagem dos jovens, relativamente à motivação para a prática; a incapacidade demonstrada pelas crianças em compreender o jogo; e a dificuldade de utilização da técnica em situações circunstanciais do contexto do jogo (BUNKER & THORPE, 1982; HOPPER, 2002).

A resposta do TGFU a estes problemas, portanto, foi trazer para o primeiro plano dos debates a importância e o lugar da técnica e da tática na aprendizagem dos jogos desportivos. De fato, houve a inversão do ensino tradicional dos jogos centrado na técnica para o ensino com ênfase na compreensão e conhecimento da tática de jogo (GRÉHAIGNE, GODBOUT & BOUTHIER, 1999; HOPPER, 2002; KIRK & MACPHAIL, 2002). De certo modo, todo este processo de mudança de concepções metodológicas não constitui exclusividade da área do ensino dos jogos. Igualmente, acompanha a tendência de transformação nas estratégias básicas de pensamento, já apontada por BERTALANFFY (1977), de se adotar o pensamento sistêmico ou sistemas complexos na compreensão dos fenômenos sociais e humanos.

O recurso à abordagem sistêmica nos jogos desportivos justifica-se, conforme GARGANTA e OLIVEIRA (1996, p.70), “porque contribui para a emergência de novas representações da realidade e oferece vias de investigação e reflexões alternativas”. Os desportos coletivos podem ser considerados sistemas sociais complexos de performance, caracterizados a partir de um grupo de elementos (jogadores), ligados por interações internas entre si (equipe) e interações externas entre o grupo e o meio externo, todos atuando sobre a finalidade do sistema (obtenção do ponto ou gol) (BOTA & COLIBABAEVULET, 2001; GARGANTA & OLIVEIRA, 1996). As interações que se estabelecem tanto entre companheiros de uma mesma equipe quanto destes com os outros elementos do ambiente (adversários, espaço, bola, alvo,…), geram um conjunto de comunicações simultâneas, entre jogadores da mesma equipe e entre jogadores da equipe adversária, conferindo aos jogos desportivos uma característica de aleatoriedade e imprevisibilidade constantes, ampliando o papel da estratégia e da tática no domínio dos desportos coletivos (GARGANTA & OLIVEIRA 1996; TAVARES & FARIA, 1996).

Nesta perspectiva, ao ensinar o gesto desportivo, o professor necessita promover um ambiente de aprendizagem que permita aos alunos compreender o significado das suas ações e assim fomentar o desenvolvimento da capacidade tática do jogador. Na formação inicial, as investigações tem apontado para alguns problemas na implementação do ensino dos jogos desportivos na Educação Física. Os resultados indicam que as habilidades de jogo têm sido apresentadas fora do contexto de jogo e as estratégias de jogo têm sido negligenciadas pelos estudantes universitários, tanto nas suas experiências de ensino quanto nas situações de estágio supervisionado (ROVEGNO, 1992, 1994, 1995).

Em face destas novas perspectivas conceituais e metodológicas de ensino dos esportes, esta investigação concentrou-se na estrutura do conhecimento pedagógico do conteúdo de estudantes estagiários durante o ensino do basquete, buscando responder os seguintes questionamentos: Quais os propósitos de estagiários de Educação Física para o ensino do basquetebol no contexto escolar? Como são estruturadas as atividades de ensino do basquetebol? Quais conteúdos específicos do basquetebol são privilegiados nas aulas? Quais abordagens metodológicas são utilizadas para implementar as propostas de ensino da Educação Física destes estagiários? Assim, o objetivo desta pesquisa foi descrever as atividades de ensino do basquetebol em contexto escolar de estudantes universitários de Educação Física em situação de estágio supervisionado, procurando identificar os propósitos para o ensino, os conteúdos selecionados e as metodologias utilizadas na iniciação desta modalidade desportiva.

Resumo
O objetivo desta pesquisa foi descrever as atividades de ensino do basquetebol em contexto escolar de estudantes universitários de Educação Física em situação de estágio supervisionado. Os procedimentos metodológicos adotados caracterizaram esta pesquisa como sendo descritiva e interpretativa de estudos de casos múltiplos. Os dados foram obtidos a partir de observações sistemáticas, entrevistas formais semi-estruturadas e planejamentos escritos de três estudantes da 6a. fase do curso de licenciatura. Os resultados mostram que dois estagiários utilizaram-se da metodologia analítica e destinaram mais tempo de suas aulas ao ensino dos fundamentos técnicos da modalidade desportiva em questão. Quanto às condições das tarefas de aprendizagem, estes estagiários empregaram principalmente exercícios para o desenvolvimento de fundamentos individuais de ataque e exercícios de combinação destes fundamentos individuais. As progressões de exercícios foram realizadas, em sua maioria, sem oposição do adversário. O terceiro estagiário utilizou-se da metodologia de ensino para a compreensão do jogo, destinando a maior parte de suas aulas aos conteúdos da tática individual e de grupo. Apesar das semelhanças verificadas entre os estagiários investigados, quanto aos conteúdos e às metodologias empregadas na iniciação do basquetebol, identificou-se propósitos pessoais distintos para o ensino, diretamente relacionados à experiência pessoal de prática desportiva.

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Autores: Valmor RAMOS; Amândio Braga dos Santos GRAÇA; Juarez Vieira do NASCIMENTO.
Publicação: Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, n.1, p.37-49, jan./mar. 2006