Competição para crianças na escola: bom ou ruim?

06 de julho de 2018 ● POR Redação

A competição é sempre uma dúvida entre os pais e educadores físicos, justamente, porque ela traz muitas perguntas sobre se é benéfica ou não às crianças. Contudo, Machado (2006, p. 23) aponta que “Omitir a competição numa sociedade que a mantém em sua natureza é criar um quadro artificial que levará à aquisição forçada de situações abstratas, servindo mesmo para provocar ou acentuar desajustamentos, marginalização e conflitos diante da realidade social em que se vive de fato”. Desta maneira, o afastamento ou alijamento de processos competitivos na infância e adolescência não é a solução”. Deve-se ter em mente que o processo competitivo quando bem conduzido, num ambiente que o professor e/ou técnico conseguem inserir na competição formas de desenvolvimento de valores e habilidades que serão fundamentais para a formação da criança e adolescente possibilita o aumento da resistência psicológica, do coping, desenvolvimento de formas de estratégia, controle de ansiedade, formas de orientação para a tarefa, foco, atenção, concentração e a criatividade entre tantas outras.

Na mesma perspectiva positiva da competição esportiva, Gomes e Júnior (2013) destacam que as competições amadurecem os participantes, o que os torna mais responsáveis e faz com que os mesmos pensem antes de tomar alguma atitude, ponderando não somente a si próprios, mas também se importando com os seus companheiros e adversários, pois qualquer escolha precipitada pode acarretar bons ou maus resultados.

Dessa maneira, podemos perceber que a competição é, sim, benéfica às crianças. A criança que está nesse âmbito esportivo estará se preparando melhor para o futuro, terá uma maior habilidade de enfrentar adversidades do seu dia-a-dia. Esse apontamento é corroborado por Jacobs e Wright (2018) que afirmam que, nos últimos 10 anos, tem aumentado significativamente o número de estudo que analisam o efeito da transferência da aprendizagem das habilidades esportivas (físicas, mentais, psicológicas) para as habilidades da vida e, complementam que as habilidades aprendidas no esporte na juventude podem gerar resultados positivos sobre a responsabilidade pessoal e social, sobre o desenvolvimento de habilidades sociais e resultado acadêmico. Contudo, ressalvam que que ainda há uma inconsistência nas pesquisas desenvolvidas sobre o tema. Principalmente porque há necessidade de um acompanhamento longitudinal dos jovens para ter maior precisão de como as habilidades e as transferências vão ocorrendo.

A competição, por sua vez, não é um fator exclusivo das experiências esportivas, estando presente também em outros setores da vida, nos quais o ser humano compete em todos em que atua: família, escola, trabalho e sociedades (DE ROSE JUNIOR, 2004). Dessa forma podemos observar os estudos de Coakley (1997) que revelaram que, em geral, os atletas universitários tem média de notas acadêmicas mais altas e aspirações educacionais mais elevadas do que os estudantes que não participaram de equipes esportivas e afirma que a participação no esporte terá efeito positivo na redução de comportamento desviante em atletas se eles praticarem esporte em associações com uma ênfase claramente expressa no seguinte : Filosofia de não violência, respeito por si mesmo e pelos outros, importância de aptidão física e do autocontrole, confiança, habilidades físicas e senso de responsabilidade.

Assim sendo, podemos entender que a competição tem caráter positivo na vida da criança e em seu futuro, tornando um adulto mais preparado para as adversidades. Desde que bem planejada e com propósitos claros. Mesmo assim, não afasta a controvérsia quanto sua utilização no ambiente escolar. Uma por questões ideológicas de que a competição esportiva não deve fazer parte das práticas escolares, usualmente confundida com práticas de performance esportiva do alunos, ou melhor, a preocupação apenas com o resultado esportivo nas competições escolares. Abstendo-se de compreender o universo de habilidades, já mencionadas, que podem ser trabalhadas via competição. O segundo aspecto é a dificuldade de realização de pesquisa que mensurem qualitativamente e quantitativamente os efeitos sistematizados da competição em jovens no desenvolvimento de habilidades para a vida. Isto se deve pela necessidade de que estes estudos, para um aprofundamento e melhor compreensão de como a competição, teriam de ter eminentemente um caráter longitudinal. Infelizmente, esse tipo de pesquisa de acompanhamento longitudinal é incipiente no Brasil.

Aqui fica o desafio!

Referências
COAKLEY, J. Sport in society: Issues and controversies. 5ª ed. St. Louis: Times Mirror/Mosby College. 1997.
DE ROSE JÚNIOR, Dantas. Tolerância ao treinamento e à competição: aspectos psicológicos. In: GAYA, Adroaldo; MARQUES, António; TANI, Go. Desporto para crianças e jovens: razões e finalidades. Porto Alegre: UFRGS, 2004, Cap. 12, p. 251-264.
DOS REIS GOMES, Bruno Baltazar; JÚNIOR, Cláudio Luiz Neves. Educação física escolar: inclusão, equidade e competição-conceitos e ações. Revista Evidência, v. 9, n. 9, 2013. JACOBS, Jennifer M.; WRIGHT, Paul M. Transfer of life skills in sport-based youth development programs: A conceptual framework bridging learning to application. Quest, v. 70, n. 1, p. 81-99, 2018.
MACHADO. A. A. Psicologia do Esporte: da educação física escolar ao esporte de alto nível. Rio de Janeiro. Editora Guanabara-Koogan. 2006.
SCALON, R. M.; BECKER, B.; BRAUNER, M. R. Fatores motivacionais que influenciam na aderência dos programas de iniciação desportiva pela criança. Perfil, v. 1, p. 10-5, 1999.

Geissiane Andrade – Professora de Educação Física e especializando em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio.
Flávio Rebustini – Doutor pela UNESP/Rio Claro. Coordenador da Pós em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio.