Por que o minibasquete sumiu das aulas de educação física?

19 de janeiro de 2017 ● POR

Professor aposentado do curso de Educação Física da Universidade de São Paulo, no qual trabalhou de 1977 a 2012, com inúmeros trabalhos publicados sobre basquete, Dante de Rose Júnior hoje está aposentado. Mas isso está longe de significar que o velho mestre, apaixonado pela bola laranja, esteja refestelado numa poltrona, apenas lendo jornais.
Com mais tempo, Dante tem viajado bastante para disseminar o conhecimento acumulado ao longo de muitos anos de cátedra, pesquisa e experiência pessoal em torno de uma de suas paixões: o minibasquete. Co-autor de “Minibasquetebol na Escola”, ao lado de Tácito Pinto Filho, ex-treinador do Palmeiras, hoje no Círculo Militar, e de Wilson Correia Neto, Dante acredita que o minibasquete tem muito espaço a conquistar.
O Minibasquetebol é uma adaptação do basquete para crianças. Essencialmente, é uma versão do jogo adaptada aos pequenos. As regras foram padronizadas pela Fiba em nível internacional em 2005. A filosofia é não obrigar as crianças a arremessar uma bola pesada demais, num aro alto demais.
O Minibasquete é um esporte que tem a ambição de entusiasmar e cativar as crianças. À medida em que forem crescendo, elas deverão transferir esse amor ao basquete, contribuindo para o crescimento do esporte.
No Brasil, o Minibasquete está meio sumido das quadras da maior parte das escolas. Obviamente, nas públicas, é ainda mais raro. Confinado a clubes, algumas instituições e projetos sociais, sente as consequências do impacto sofrido pelo basquete no país, na avaliação de Dante.
Péssima e temerariamente gerido por uma Confederação falida, com maus resultados em competições internacionais, perdeu espaço no imaginário das crianças e na dos pais.
“É uma pena que esteja assim. Os clubes buscam desenfreadamente resultados. O minibasquete, no Brasil, vive de projetos isolados”, diz o mestre. “A implantação do minibasquete em escolas não só é viável, mas fundamental. Infelizmente, esse esporte está abandonado. O esporte está abandonado, a educação está abandonada”, acrescenta.
Dante isenta os professores de educação física de responsabilidade pelo sumiço, nas escolas, das pequenas tabelas de minibasquete que já fizeram a alegria de gerações ao longo dos anos.
“Infelizmente, os professores são obrigados a dar 200 aulas por dia para poder sobreviver. Como agora tenho mais tempo para viajar e levar o curso, eu o faço. Quando eles vêem a oportunidade de fazer, são sempre muito receptivos”.
A crise econômica não é suficiente para explicar o abandono do minibasquete. A Argentina, que padece de desarranjo sistêmico e ainda mais profundo em sua economia, apresenta maior vigor na transmissão do amor pelo esporte a seus niños.
O próprio Rubén Magnano, campeão olímpico no comando da seleção argentina em 2004, trabalhou por seis anos com minibasquete no Instituto José Peña, em Córdoba.
Por sinal, originou-se, na Argentina e no Uruguai, a Rede Internacional de Basquetebol Educativo, empreitada da qual participa Dante. A entidade tem hoje braços na África e na Europa.
No Brasil, nos lugares onde há mais paixão pelo esporte, o trabalho com o minibasquete é mais consistente.
Dois bons exemplos são de crias da escola francana. Chuí, exímio arremessador, treinador com passagem por importantes clubes, incluindo Franca e Uberlândia, é hoje um batalhador do minibasquete, bem como Fausto, clássico armador de Franca e da seleção brasileira, que dissemina a prática em Ribeirão Preto e Olímpia, no interior paulista.
Em se tratando de projetos, há boas iniciativas do Passe de Mágica, instituto criado por Magic Paula, e no CEPEUSP, o Centro de Práticas Esportivas da USP.
Os professores interessados, portanto, têm boas fontes a recorrer. Eterno batalhador, Dante chega a comprar o próprio livro que escreveu da editora para distribuir a quem queira disseminar o método. Para o minibasquete se propagar, será necessário, uma vez mais, o esforço hercúleo de abnegados.
Eles é que se encarregam de, a duras penas, elevar o nível da educação física num país com tantos problemas de gestão.