Praticar atividade física reforça o sistema cognitivo

28 de setembro de 2016 ● POR pedro.cunacia@nortemkt.com

Os efeitos da prática sistemática da atividade física e do esporte podem ser constatados em todas as etapas de nossa vida. Na infância, a importância para o desenvolvimento motor e a progressão ao longo das fases de desenvolvimento, seja pelos fundamentos destacados por Piaget, Gallahue e outros.

Na adolescência, a latência de diversas valências físicas que encontram nesse período da vida a fase mais sensível de desenvolvimento. A busca de uma vida saudável e mais produtiva com o auxílio do esporte e atividade física regular nas fases adultas. O ingresso da ginástica laboral no ambiente de trabalho e, não menos importante, o desenvolvimento na 3ª idade da prática esportiva, para um envelhecimento mais saudável.

Essa breve introdução é para enfatizar que até os dias atuais o potencial da Educação Física como campo de estudo interdisciplinar não tem sido trabalhado a atingir todo seu potencial. Vejamos como exemplo e norte deste artigo, a questão da utilização da Educação Física como um dos recursos para o desenvolvimento cognitivo.

Basta orientarmo-nos por algumas pesquisas que tem estudado a associação entre a Educação Física e a cognição. Piestch e Jansen (2012) encontraram que os alunos que estavam envolvidos há anos na prática esportiva e musical obtiveram melhores desempenhos em tarefas cognitivas específicas. Hötting e Röder (2013) sugerem que o exercício físico pode desencadear processos que facilitem a neuroplasticidade e, assim, aumentar a capacidade de um indivíduo para responder às novas demandas com adaptações comportamentais.

Além de reforçar a hipótese de que o exercício físico afeta a cognição, prevenindo doenças associadas ao declínio cognitivo. Indicando claramente a importância da Educação Física para minimizar os efeitos do Alzheimer, das demências e de outras doenças que afetam a cognição. Os autores ainda destacam que a interação entre as intervenções cognitivas e físicas ainda não é bem conhecida, bem como a modulação e a influência de variáveis psicológicas e físicas adicionais, o que abre diversos campos de estudos.
A conjugação com o ambiente escolar parece ainda mais forte e relevante. A meta-analise desenvolvida por Singh e colaboradores (2013) e a revisão sistemática de Peralta e colaboradores (2014) indicam evidências de uma relação positiva entre a prática esportiva na infância e adolescência com o desempenho acadêmico.

Num estudo com 6 escolas holandesas, Mullender?Wijnsma e colaboradores (2015) que utilizaram um grupo controle e um grupo que foi integrado à Educação Física com as atividades acadêmicas indicaram em seus resultados que os resultados de matemática e linguagem dos alunos do grupo integrado foram significativamente mais altos em comparação com as crianças do grupo controle.

Neste mesmo sentido Ericsson e Cederberg (2015) indicaram que alunos que apresentaram um menor nível de atividade física na escola obtiveram um menor desempenho nos exames nacionais, além disso, apontaram que os alunos que exibiam uma melhor autoestima eram significativamente mais ativos do que os com uma autoestima menor.

E, por fim, em um estudo ainda mais extensivo (RESALAND E COLABORADORES, 2015) realizado em 57 escolas norueguesas, que avaliou o desenvolvimento das aulas de Educação Física e o desempenho em leitura, matemática e inglês (segunda língua) através do Teste Nacional Norueguês, evidenciou uma forte relação entre atividade física e a melhoria do desempenho escolar. Os autores complementam que a Educação Física é um dos possíveis caminhos para a escola melhorar o desempenho dos alunos.

O que quero demonstrar nesse texto é que há inúmeros campos fecundos e que não estão sendo aproveitados pelos profissionais de Educação Física. Contudo, a inserção nestes campos exige do profissional saberes além da média; requerem estratégicas de ensino, de integração com as outras disciplinas que estão não estão assentadas sobre um modelo convencional; requerem estudos longitudinais, e exige um modelo mais pragmático e científico do que ideológico. Talvez quando conseguirmos esse grau de integração, as conversas sobre a pertinência da Educação Física no ciclo de vida sejam extemporâneas e desnecessárias.

Fontes:
HÖTTING. K.; RÖDER, B. Beneficial effects of physical exercise on neuroplasticity and cognition. Neuroscience and biobehavioral review, 37, p. 2243-2257, 2013.
MULLENDER?WIJNSMA, M. J.; HARTMAN, E.; DE GREEFF, J. W.; BOSKER, R. J.; DOOLAARD, S. VISSCHER, C. Improving Academic Performance of School?Age Children by Physical Activity in the Classroom: 1?Year Program Evaluation. Journal of School Health, v. 85, n. 6, p. 365-371, 2015. PERALTA, M.; MAURICIO, I.; LOPES, M.; COSTA, S.; SERMENTO, H.; MARQUES, A. A relação entre a educação física e o rendimento académico dos adolescentes: uma revisão sistemática. Revista de Psicologia da Criança e do Adolescente, v. 5, n. 2, p. 129-137, 2015. PIESTCH, S.; JANSEN, P. Different mental rotation performance in students of music, sport and education. Learning and Individual Differences, 22, p. 159-163, 2012. RESALAND, G. K.; MOE, V. F.; AADLAND, E. STEENE-JOHANNESSEN, J.; GLOSVIK, Ø.; ANDERSEN, J. R. MVALHEIM, O. M.; McKAY, H. A.; ANDERSSEN, S. A.; Rationale and design of a cluster-randomized controlled trial investigating the effects of daily physical activity on children’s academic performance and risk factors for non-communicable diseases. BMC Public Health, 15: 709, 2015. ERICSSON, I.; CEDERBERG, M. Physical activity and school performance: a survey among students not qualified for upper secondary school. Physical Education and Sport Pedagogy, 20:1, 45-66, 2015. DOI: 10.1080/17408989.2013.788146.
(*Flávio Rebustini é Doutor pela UNESP/Rio Claro. Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br)