O maravilhoso mundo da Educação Física nas escolas particulares

15 de fevereiro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

Disputar uma partida de um estranho esporte suíço chamado tchoukball, correr numa pista de atletismo em ótimo estado, nadar numa piscina olímpica ou sugerir a seu professor que se pratique beisebol numa aula (e ter sua sugestão atendida!). Esse é o maravilhoso mundo da Educação Física nas escolas particulares com mensalidades mais pesadas. O Portal conversou com professores de três colégios renomados, em cidades diferentes do país, para mostrar como se oferece a Educação Física nesses recantos privilegiados.

O Colégio Suíço-Brasileiro de Curitiba, incluído num levantamento das escolas mais caras do país, elaborado pelo site da revista Forbes Brasil, procura conciliar as tradições na Educação Física helvética com os costumes tupiniquins.

“A gente procura misturar algo da Educação Física da Suíça com coisas nossas. Somos favorecidos por uma boa estrutura e pelo fato de termos poucos alunos por classe, cerca de 25”, conta Ana Cristina Pasini Branco, formada na PUC do Paraná.

Em visitas à Suíça, Ana Cristina pôde entender melhor os conceitos da Educação Física de lá. “As escolas costumam ter aparelhos de ginástica olímpica, é um esporte de base por lá. Outra coisa curiosa é a valorização da técnica. Eles dão nota para os gestos esportivos. Lá não se disputa apenas um jogo de voleibol, por exemplo. Atribuem nota para a execução da técnica, reconhecem o aluno que executa o toque com maior perfeição, por exemplo”.

Ana Cristina enfatiza outros aspectos. “A gente procura ser inclusivo. Alguns alunos têm dificuldades para executar a técnica da melhor forma. Procuramos medir a capacidade em torno do esforço, da participação”.

Alguns professores vêm da Suíça para dar aulas em Curitiba, e, por meio desse contato, as crianças têm a oportunidade de praticar modalidades diferentes, como o tchoukball, uma mistura de pelota basca, handebol e futebol criada pelo médico suíço Hermann Brandt nos anos 60. “Os suíços também aprendem com a gente atividades diferentes, como alguns jogos cooperativos que são muito legais”, diz Ana Cristina, que faz um esforço para expurgar de suas aulas traços que a Educação Física brasileira desenvolveu ao longo do regime militar, em sua opinião.

“Ainda se percebe uma valorização excessiva da competição, uma coisa militarista de ver quem corre mais, quem é mais forte”, observa a educadora.
Oferecer uma Educação Física inclusiva é um objetivo perseguido também por Petrônio Alves Ferreira, coordenador da área do Colégio Santo Agostinho, de Contagem (MG), há nove anos.

“A gente trabalha aqui a Educação Física de uma forma crítica, sem assumir exclusivamente nenhuma teoria específica. Nós trabalhamos com quatro eixos principais: esportes de quadra, lutas, jogos e brincadeiras e danças”.

As crianças têm liberdade para sugerir a prática dos mais variados esportes. Petrônio e os oito outros professores da disciplina procuram adaptar a prática de acordo com as possibilidades. “A gente já praticou beisebol, futebol americano e patinação artística. Tem um grupo de alunos que não se encontra em nenhum dos quatro esportes principais (futsal, vôlei, basquete e handebol), e então procuramos abrir o leque. Nós arrumamos uns patins e fizemos duas aulas de hóquei, por exemplo. Foi o suficiente para um aluno se encantar e se inscrever num projeto de hóquei da cidade”, afirma Petrônio.

O educador observa que, ao trabalhar com famílias mais abastadas, lida com uma percepção também bastante crítica dos pais. “A gente vivencia dois fenômenos que decorrem dessa visão mais crítica. Muitos pais se encantam pela perspectiva de crescimento que seus filhos terão porque nossa Educação Física não é só de rolar bola, ela induz a reflexões. E há também os que têm uma atitude de estranhamento, que gostariam que utilizássemos o tempo de uma forma mais esportivista”.

Fiel a suas convicções, Petrônio procura ampliar as possibilidades de aprendizado dos alunos, utilizando a estrutura oferecida pela instituição. “Nos Jogos Internos, procuramos refletir sobre a ideia da competição. Na última edição, contemplamos os esportes para deficientes, e procurei transmitir o conceito de que somos todos deficientes, de uma certa maneira. O lema dessa edição foi ‘Dê eficiência à diferença’. Recebemos visitas de atletas com deficiência motora, mental e auditiva. Os alunos correram com vendas, praticaram atividades com cadeiras de rodas e tiveram uma vivência muito intensa”.

Mensalidades caras nem sempre correspondem a uma estrutura invejável para a prática da Educação Física. O Colégio FAAP de São Paulo, também incluído na relação da Forbes Brasil, tem uma estrutura até comum para escolas particulares. Isso decorre, segundo o professor Gilberto Coelho de Lima, de prioridades diversas estabelecidas pela Fundação Armando Álvares Penteado, que se preocupou mais com as artes – ergueu no local o MAB (Museu de Arte Brasileira) e o Teatro FAAP.

“Temos uma quadra coberta e uma descoberta. A academia é muito boa, top. Mas, no geral, não temos uma estrutura cinco estrelas, com parte aquática, pista de atletismo e campo de futebol, por exemplo”, diz Gilberto.

O desafio de Gilberto, segundo ele, é se manter à altura das expectativas dos alunos, que são bastante críticos e exigentes. “Aqui é necessário ter experiência, formação acadêmica e estar antenado à área científica”, diz Gilberto, que tem licenciatura, bacharelado e pós-graduação em Fisiologia do Exercício pela Escola Paulista de Medicina. “Muitos alunos aqui têm personal trainers. Se não demonstrarmos conhecimento, não seremos respeitados”, observa o professor, que trabalha também com categorias infantis de futebol no São Paulo Futebol Clube.