Para que serve a Educação Física na escola?

18 de dezembro de 2017 ● POR Redação

O consenso passa longe na maioria das respostas. A pergunta feita no título da matéria carece de definições coesas tanto de professores, quanto do governo. A impressão que fica quando tocamos nesse assunto e fazemos esse questionamento, é que não existe diálogo e união entre os principais interessados pela Educação Física no país, e que isso impacta diretamente no desenvolvimento dessa disciplina e na evolução do tema como uma área do conhecimento.

Desde o ano passado, professores e pesquisadores buscam interpretar, da melhor maneira, o texto sobre a Educação Física publicado na Base Nacional Comum de Educação, pelo então Ministro Renato Janine.

Com a possibilidade de diferentes interpretações e com uma clara falta de foco e objetividade, o texto não apenas deixa de dar uniformidade ao ensino da disciplina em todo o país, como abre a discussão que abordamos na matéria. O que queremos da Educação Física escolar?

O Portal resolveu procurar acadêmicos do Brasil e, uma professora brasileira que leciona nos Estados Unidos, e fazer a seguinte pergunta procurando esclarecer alguns pontos e direcionar o foco do debate: na sua opinião, qual deve ser o objetivo da Educação Física nas escolas? Pessoas mais conscientes e saudáveis ou futuros atletas olímpicos? As respostas foram variadas e fica claro que o assunto ainda precisa ser amplamente discutido tendo em vista uma uniformidade em torno do tema. Veja abaixo e deixe a sua opinião.

Professor Flávio Rebustini– Universidade Estácio de Sá
O Prof. Flávio Rebustini é ex-atleta, doutor em educação física e pesquisador do tema

Portal– Na sua opinião, qual deve ser o objetivo da Educação Física escolar? Por que?

Flávio– Há um escopo de possibilidades que tem sido, rudimentarmente, utilizadas. Principalmente, porque o sistema educacional, de uma maneira geral, não faz uma conta de chegada como deveria. O que isto significa? Deveríamos saber ou no mínimo prever adequadamente como o conjunto de conceitos, técnicas e rotas estabelecidas em qualquer normativa devem ou deverão ser aplicados na infância e adolescência, visando o desenvolvimento de um conjunto de competências e habilidades que auxiliem ao longo da vida do jovem.

O que e como se espera que essas competências e habilidades estejam ao final do ciclo fundamental? Quanto do desenvolvimento poderá ser utilizado ao longo da vida. Essa decisão tem de ser apartidária, eminentemente técnica, apartada de ideologias, como regularmente é feito nos países que têm uma cultura esportiva; que surge, desenvolver-se e perpetua-se através da escola. Mesmo que tenhamos alguns países mais focados nas questões da saúde e profilaxia; outros no desenvolvimento cultural, moral e ético, ou em outros aspectos. Há um ponto de convergência: a capacidade de projetar a longo prazo.

Como esperamos que a geração que está tomando seu primeiro contato com a Educação Física, agora, esteja daqui 30 anos?. Quais são os parâmetros e como podemos acompanhá-los? o quão longitudinalmente conseguimos visualizar? Veja o problema que temos – quantos estudos longitudinais sobre o tema existem no Brasil? Como podemos medir os efeitos das políticas se elas mudam ao bel prazer do mandatário de hora?

Fundamenta-se todas essas preocupações pelo singelo fato que de a educação física é eficiente para a criação de uma cultura profilática, somam-se as fortes evidências contemporâneas da contribuição da Educação Física no desenvolvimento cognitivo, o uso para o desenvolvimento moral e ético das crianças e jovens, a queda do absenteísmo, a redução do uso do sistema de saúde em decorrência da redução de doenças oportunistas decorrente de uma vida ativa, a redução da sintomatologia decorrentes das doenças cognitivas como demência e Alzheimer.

Diante de um cenário amplo de atuação durante o ciclo vital, é fundamental que a Educação Física Escolar, através dos profissionais, tenha a capacidade de contemplar um universo amplo de conceitos e recursos, que possibilite o desenvolvimento profilático, moral e ético, da prática regular de atividade física ao longo da vida e, também, não se abstenha de cultivar e prover os primeiros passos para o esporte competitivo. Isto exige além de políticas claras e efetivas uma preparação do profissional que tenha consciência e repertório teórico e técnico para suprir as demandas para uma Educação Física Escolar com esse dimensionamento.

Professor Denis Pereira– Mestre em Gestão do Esporte e Professor de Educação Física
Denis Pereira é pesquisador, coordenador de projetos sociais esportivos e professor em diversas escolas

Portal– Na sua opinião, qual deve ser o objetivo da educação física escolar? Por que?

Denis– No meu ponto de vista, o objetivo da educação física escolar é proporcionar a vivência das atividades motoras, na primeira fase que é da educação infantil ao ensino fundamental. Proporcionar ao aluno experiências motoras com o fim de contribuir para aquisição da bagagem motora do aluno. No fundamental 2, estes movimentos devem ser melhorados e aprimorados por meio de habilidades específicas e não apenas as básicas.

Já no médio o primordial é instrumentalizar o aluno, para que o mesmo tome gosto pela atividade física e tome consciência de que a atividade física é importante para a manutenção da saúde e aquisição de qualidade de vida. O aluno que quer se tornar um atleta deve procurar as turmas de treinamento e rendimento dentro ou fora da escola. Já a educação física escolar dever ser de direito a todos e as turmas de treinamento são excludentes, ou seja, seleciona os melhores e mais habilidosos.

Professora Carla – University of Louisville (EUA)
Carla Vidoni é brasileira, PhD no assunto e professora da University of Louisville

Portal– Qual a sua opinião sobre esse assunto? Para que serve a educação física escolar?

Carla– Acho que a nossa área está passando sempre por mudanças que acompanham as transições sociais. A gente tem sempre que se ajustar a essas mudanças. Porém, o que não podemos perder de vista é que a educação física é uma disciplina que faz parte do programa de educação dos indivíduos. Portanto, não podemos deixar nossa área se confundir com lazer, recreação, e plena atividade física.

Acredito que o currículo na educação física deve se concentrar na competência de formas físicas e conceitos relacionados a elas, que possam ajudar nossos alunos a fazerem escolhas de hábitos saudáveis. Não podemos esquecer que os contextos podem variar nas escolhas das formas física e conceitos. Focar em formação de atletas e competição para mim não faz parte da educação escolar.
Esses itens podem ser trabalhados na escola em programas de atividade física depois do período de aula, não nas aulas de educação física. Isso é mais um trabalho de comunidade que a escola pode proporcionar aos indivíduos.

Portal- Você pode discorrer sobre o foco desse tema nos EUA?

Carla– Nos EUA o foco, embora também haja controvérsias, está cada vez mais direcionado na “alfabetização física” (physical literacy). Esse conceito se refere a habilidade de se movimentar com competência e confiança em diversas formas de atividades físicas e em contextos diferentes, que beneficiam o desenvolvimento da pessoa como um todo. O foco atual não é mais no esporte, “atleticismo” ou competição, mas em hábitos saudáveis que possam contribuir para uma vida saudável.