Ensine a moçada a jogar vôlei

04 de dezembro de 2012 ● POR

Para entrar em quadra e mandar bem, os alunos têm de analisar os fundamentos e as estratégias do esporte. Conheça três vivências práticas.

Uma das modalidades esportivas tradicionais nas aulas de Educação Física, incluída no planejamento de muitos professores, é o vôlei. A maioria dos alunos se interessa pelo tema, conhece os movimentos básicos (saque, toque, cortada, bloqueio e manchete) e se organiza com facilidade para jogar, inclusive fora do ambiente escolar. Isso se deve, em grande parte, à visibilidade que o esporte conquistou nos últimos anos no Brasil, com destaque para a medalha de prata da seleção masculina e a de ouro da feminina na Olimpíada de Londres, realizada neste ano.

Antes de armar a rede e liberar a bola para a turma, pense na estrutura das aulas e planeje o que você pretende ensinar. Lembre-se de que a disciplina tem objetivos mais amplos e profundos do que o jogo pelo jogo. “É importante que os estudantes pratiquem, evidentemente. Mas é necessário, sobretudo que eles analisem as técnicas e as estratégias por trás das jogadas”, diz Fernanda Impolcetto, docente das Faculdades Integradas Claretianas de Rio Claro.

Para começar, Marília Souza, professora do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS), reuniu a turma para assistir a cenas de partidas oficiais. “A intenção era que a moçada observasse os fundamentos e a postura dos atletas em quadra”, diz. Nesse ponto, tem de ser avisado aos estudantes que não se espera deles um desempenho como o dos profissionais. “Eles não são atletas. Não precisam imitar uma equipe de alto rendimento”, diz André Barroso, da Faculdade de Jaguariúna (FAJ).

Ainda com base nos vídeos, vale abordar os conceitos de habilidade e força. Para abrir a discussão, faça perguntas como estas: “Quando cada uma das jogadas é colocada em cena e por quê?”, “O levantador precisa usar muita força para suspender a bola ou isso atrapalha o companheiro de equipe?” Aproveite para estimular os estudantes a fazer análises sobre o papel de cada um no time.

Sobre os movimentos e as regras, foque em questões como: “Qual a diferença entre receber uma jogada com saque e manchete?” e “É permitido bloquear a bola invadindo o lado adversário da quadra com as mãos?”. Lembre-se de que essas questões devem ser trabalhadas visando passar a bola – literalmente – para a meninada vivenciar o vôlei. Confira três sugestões de atividades:

Minivôlei

Reúna dois ou três estudantes em um espaço amplo, mas menor que a quadra esportiva da escola. A ideia é explorar os movimentos do esporte, inclusive saques e cortadas. Garanta que os meninos joguem com as meninas e cuide também para que a composição dos grupos mude com o passar do tempo da atividade a fim de que todos se ajudem, dando dicas aos colegas e corrigindo ou aperfeiçoando os movimentos deles. “O perímetro reduzido do minivôlei contribui para que a garotada desenvolva a consciência sobre os movimentos desse esporte”, explica Barroso. Além disso, cada aluno pode participar com frequência das jogadas, pois a atividade é desenvolvida com grupos pequenos. Combine as regras com os jovens: algumas podem ser copiadas do jogo oficial, como a obrigatoriedade de passar a bola a um colega depois de dar um toque. Outras podem ser criadas pela própria turma ao longo da vivência. Por exemplo, dar uma cortada somente depois da terceira jogada consecutiva.

Jogo de Câmbio

Durante o jogo de câmbio, os estudantes ocupam espaços diferentes na quadra. Esse rodízio permite a eles analisar o papel de cada jogador
– Jogo de câmbio É hora de a moçada entrar em quadra, mas o objetivo não é realizar uma partida de verdade. O foco dessa atividade é a experimentação dos diferentes papéis que os jogadores têm, considerando que ocupam posições e espaços diversos. Divida os estudantes em dois grupos de seis e peça que eles ocupem lados opostos da rede. Estabeleça que de tempos em tempos será realizado um rodízio – tal como ocorre nas partidas oficiais. Quem estiver sacando ora ocupa a posição de defesa, na rede, ora faz as vezes de atacante. “Essa é uma ótima chance para os alunos se conscientizarem do espaço da quadra pelo que são responsáveis estando em determinada posição”, explica Fernanda. É interessante aqui retomar os vídeos assistidos no início do trabalho para que a garotada relembre o modo como cada profissional faz isso. Vale ainda conversar sobre o que foi aprendido durante a atividade de minivôlei, valorizando os jeitos de realizar e recepcionar a bola em cada um dos movimentos típicos do esporte.

Vôlei em outros espaços

Sugira jogos em ambientes diferentes da quadra da escola – pode ser na grama, na areia ou no chão de terra batida. O foco da proposta é a turma experimentar como a mudança do piso interfere no jogo e refletir sobre isso. “Oriente os alunos a observar se é mais difícil saltar na grama ou no cimento e a analisar como cada um impacta as jogadas”, indica Fernanda. Essa atividade é um bom gancho para a moçada se aproximar de uma variação do vôlei que também faz sucesso no Brasil, a modalidade praia. Para isso, além de variar o terreno, é interessante organizar a classe em duplas e propor que uma jogue contra a outra, separadas pela rede. Explique algumas regras específicas. Além de os atletas ficarem descalços, por exemplo, é permitido a eles invadir a rede por baixo desde que isso não prejudique a dupla adversária. Interrompa a prática em momentos específicos para problematizar algumas questões, como a rapidez que esse tipo de jogo exige, já que é disputado em duplas. 

Na hora de jogar para valer, é importante fazer adaptações

Nesse ponto da leitura, você pode estar se perguntando onde é que o jogo de verdade entra na história de trabalhar o vôlei na Educação Física. Embora as três atividades apresentadas tenham a ver com o esporte e reproduzam algumas de suas características, nenhuma delas é uma partida propriamente dita.

Faz sentido organizar uma disputa entre times? É claro que sim, de acordo com Barroso. Não há nada de errado em propor até competições desde que algumas adaptações sejam feitas. Para tal, é pertinente levar em conta o planejamento, as características da turma e também o desenvolvimento das atividades anteriores. Afinal de contas, o que interessa na escola é o que se aprende sobre o esporte, e não somente o jogo.

Meninos e meninas podem estar no mesmo time ou competir uns contra os outros, por exemplo. Em cada uma das variações, são possíveis diversas análises, dentre elas a da importância da cooperação entre os integrantes da equipe, que têm habilidades diferentes. Também é interessante baixar a rede de acordo com a altura dos jovens, o que facilita a execução das jogadas e, principalmente, o bloqueio. “Até mesmo a bola pode ser outra que não a oficial”, cita Barroso. Um modelo maior e mais leve é interessante para diminuir a velocidade das jogadas.

“Seja lá quais forem as adaptações, o educador tem de cuidar para que a valorização da vitória não seja extrema e os perdedores não fiquem em segundo plano. O que tem de ser ressaltado nas aulas é o processo de aprendizagem, e não o resultado final”, enfatiza Barroso.

Matéria publicada em Revista Nova Escola Online