A importância da escalada no desenvolvimento da criança

08 de outubro de 2014 ● POR

A atividade de escalada é instintiva. A criança, ao andar, já também tenta escalar objetos. A prática e os ensinamentos desse esporte geralmente são perdidos ao longo do tempo, mas a escalada faz parte do desenvolvimento humano que nasce com habilidades naturais para a modalidade.

Segundo o pediatra e médico do esporte Getulio Morato Filho, a atividade física permite uma manutenção do estado de funcionamento do corpo, mantendo ativos o remodelamento ósseo e o metabolismo energético com uso de todos os tipos de fontes energéticas, como ácidos graxos (gorduras) e carboidratos (açúcares).

“A prática da escalada permite um ganho de força muscular global, um aumento da massa óssea, além de habilidades motoras e de coordenação”, explica o médico. “Esse ganho pode evitar fraturas nas crianças, pois a maioria dos acidentes ocorre exatamente por falta de força e fragilidade.”

Segundo pesquisas, nos dois primeiros anos de vida, devido à falta de coordenação motora e força, o número de acidentes, como quedas, é relativamente grande. Até os seis anos de idade, o número de acidentes permanece elevado, pois as crianças ainda apresentam habilidades variadas e falta de noção de risco, tentando escalar o máximo de objetos possíveis ou pendurar em árvores, subir em muros ou grades. A partir dos sete anos, há uma diminuição do risco, pois a criança já possui habilidades motoras e uma maior noção de risco de acidentes.

Rosita Belinky já escalou na Europa, na Patagônia, na América do Norte, em diversos lugares do Brasil e já foi campeã brasileira na modalidade. Ela e o marido têm uma grande história com o esporte e resolveram incluir os filhos Gabriel, de sete anos, e Tatiana de dois anos e meio na brincadeira.

“O Gabriel já subiu no Bauzinho e o Morro do Couto, em Itatiaia, umas quatro vezes e já escalou na Pedra Bela. A Tatiana até agora só foi para a montanha dentro da mochila”, conta Rosita. “O mais velho finge que não gosta, mas dá para ver o brilho nos olhos, ele se orgulha muito de já poder se dizer ‘montanhista’, de chegar na escola e falar que ‘escalou uma montanha’”.

Além da parte motora, a escalada proporciona o contato com a natureza, o desenvolvimento de habilidades e a capacidade de adaptação a ambientes diferentes, sem contar os benefícios para o psicológico da criança. “Eles aprendem a lidar com o medo. Aliás, que medo? Quem já nasce vendo tudo de lá de cima não aprende a ter medo de altura. Mas a gente ensina que tem que ter medo sim, é o medo que nos mantém atentos aos perigos e nos mantém vivos”, afirma a escaladora.

O medo é importante porque os perigos existem e são muitos na prática da escalada. Mas alguns cuidados, dos pais e treinadores, ajudam a evitar que a criança se machuque. É importante o uso de equipamentos adequados para o tamanho da criança e também a prática com dificuldades proporcionais à faixa etária. Equipamentos de segurança devem passar por manutenção periódica e os instrutores devem ser capacitados. “O limite da criança deve ser respeitado sempre sem necessidade de forçar superação de limites e a criança deve ser monitorada para mudanças de comportamento ou cansaço excessivo, pois a atividade pode causar sobretreinamento”, explica Getulio.

Segundo o médico, os cuidados variam de acordo com a faixa etária, mas não existe restrição de idade estabelecida. Até os dois anos, a prática não é recomentada pela grande variabilidade de habilidades motoras. Dos três aos seis anos, a criança pode ser colocada para subir paredes com inclinações leves, com todos os equipamentos de proteção (cadeirinha, freios, corda, saco para magnésio, sapatilhas), de preferência com paredes não muito elevadas, pois a criança pode se cansar rapidamente. A partir dos sete anos, as orientações de proteção são as mesmas, mas a criança já pode tentar inclinações maiores e muros mais altos. Depois da puberdade, a prática já se assemelha a do adulto, apenas com cuidados com comportamentos arriscados, mesmo com todos os equipamentos de proteção.

Com os cuidados necessários e com atividades na medida certa, a escalada é um ótimo esporte para ajudar no desenvolvimento físico e psicológico da criança, além disso, é uma ótima desculpa para passar mais tempo em família. “Desde cedo, eles já sabem que a atividade física é muito importante para a saúde. Sendo em família, praticando algo que todos gostam, passa a ser diversão e não obrigação”, conclui Rosita.

Matéria publicada pelo site Web Venture