Sem bola nem quadra: Educação Física pode ser dada apenas com lousa e carteiras

20 de fevereiro de 2018 ● POR Alessandro Lucchetti

“Para dar aula de Educação Física, você não precisa de bola ou quadra, apenas de uma sala de aula e de uma lousa”, diz o melhor personal trainer do mundo. Por incrível que possa parecer, o Brasil é o lugar que forma os melhores profissionais de Educação Física do mundo. Tudo bem, a avaliação foi feita por um brasileiro, o que em tese poderia colocá-la sob algum grau de suspeita de tendenciosidade. Mas trata-se de um brasileiro que é referência internacional no assunto: Cristiano Parente, eleito o melhor personal trainer do mundo em concurso realizado em Nova York, em 2014, pela Life Fitness, maior fabricante de aparelhos para academias do mundo. Naquela oportunidade, Parente superou mais de 1.700 treinadores de 43 países.

Aproveitando essa credibilidade, Parente criou cursos e um selo de qualidade internacional para personal trainers, o WTTC (World Top Trainers Certification), que certificou profissionais de 13 países da Oceania, África, Europa e Américas.

“No Brasil temos curso de graduação regulamentado de Educação Física e um conselho (CREF) que regula a profissão. Isso não se observa nos Estados Unidos, onde você pode se tornar personal trainer fazendo um curso de 30 horas. Eles sabem como ninguém ganhar medalhas, e só pensam em ser o número 1 na Olimpíada. Mas fazem absolutamente mal o trabalho de colocar a população para se exercitar, e é por isso que existe tanta obesidade por lá. Vários países europeus estão bem mais atrasados ainda”, avalia o profissional. “O Brasil tem tudo para ser referência em Educação Física e em fitness. Temos apenas que pensar mais fora da caixinha”.

Pensar fora da caixinha é uma atividade corriqueira para Parente. Por esse motivo, já levou muitas pedradas virtuais nas redes sociais de sua própria classe. Foi o que ocorreu, por exemplo, no ano retrasado, quando o governo Michel Temer enviou ao Congresso o texto de uma Medida Provisória que estabelecia o fim da obrigatoriedade da Educação Física e da Educação Artística da grade curricular do ensino médio. “Fui o primeiro a me colocar a favor da exclusão dessa Educação Física que está aí. Se for para ser assim, melhor não ter”, afirma o personal, que diz ter sido uma criança e adolescente que odiava as aulas de Educação Física da escola. “A Educação Física que eu tive, que você e tanta gente tiveram na escola, é um tempo inútil, desperdiçado. É apenas um momento de recreação, uma enganação. Soltam uma bola e colocam os alunos para jogar. Sou contra a imposição dessas quatro modalidades para todo mundo (futsal, basquete, vôlei e handebol. Por que ninguém tem lutas ou tênis nas aulas? Por que não se pode optar por fazer uma caminhada?”.

Quando se posicionou dessa forma, inclusive em reportagens veiculadas pela Rede Globo, Parente, que é dono, há 13 anos, de uma academia, a Koatch, situada no bairro paulistano de Cerqueira César, na porção elegante da Rua Augusta, muitos professores de Educação Física se magoaram e reclamaram da falta de estrutura de boa parte das escolas públicas. “Alguns se manifestaram, dizendo que não tinham nem bola para dar aula. Mas não é preciso ter bola, não se deve ser refém de modalidades com bola. Para dar aulas de Educação Física, você precisa da mesma estrutura que está disponível para o professor de português, o de matemática, o de história e o de geografia. Uma sala, cadeiras, mesas e uma lousa”, apregoa. “Os alunos devem entender como funciona o corpo humano, a parte científica, a fisiologia. Claro que isso deve ser transmitido de acordo com a faixa etária: desenhos para crianças, histórias para crianças um pouco mais velhas, mais conteúdo e conceito para os adolescentes. Eles devem aprender porque existe uma necessidade diária de se gastar calorias. Feito isso, aí sim você aproveita o espaço físico para aplicar esse conhecimento. E isso pode ser feito de várias formas. Você ensina sobre exercício anaeróbico e depois as coloca para correr, para que entendam porque você não consegue correr por mais de 30 segundos a toda velocidade”.

Bastante crítico a respeito de certos comportamentos de colegas de sua classe, Parente acha que a atitude de “menos de 5% dos professores de Educação Física condiz com a condição de educador”. Quanto a treinadores de academias e personal trainers, Parente considera uma estratégia errada que saradões exponham a todo o momento em redes sociais o abdome dividido em gominhos e que as mulheres façam questão de exibir com tanta frequência os glúteos bem esculpidos. “Os treinadores vendem essa imagem, as treinadoras põem a bunda pra fora a toda hora, e muita gente promete resultados rápidos a quem vai à academia. Mas você precisa de ao menos 5 anos de treinos para ter um corpo assim, isso se não usar esteroides anabolizantes, o que não se deve fazer nunca. Para ter resultados mais rápidos, você tem que fazer treinos de alta intensidade, que são duros e acabam afastando o frequentador da academia. Dessa forma, você está promovendo o sedentarismo”.

Vender imagem em vez de saúde é um grande erro, na avaliação de Parente. “É por isso que você não vê professores com cabelos brancos em academias. Com mais de 50 anos você não está mais saradinho, não tem mais corpo para vender”.

Esse posicionamento bastante assertivo de Parente, como já mencionamos, lhe atrai bastante desapreço. Nesse diapasão, é claro que muitos colegas questionam sua autoridade e até seu prêmio de melhor personal trainer do mundo. Ele é visto como o sujeito que ganhou notoriedade, que o alçou ao cume do Monte Olimpo, de onde agora dispara seus raios sobre os comuns mortais da categoria.

“Eu nem gosto desse título, e é arrogante eu me identificar como o melhor personal trainer do mundo. Inclusive não me inscrevi no concurso, fui indicado. O que ocorre é que a Life Fitness quer vender mais aparelhos para academias. Apenas 4% das pessoas praticam atividade física, e fica todo mundo se matando por esse pequeno aquário. O que a empresa quer é conversores, profissionais que transformem sedentários em praticantes de esportes. A ideia não é reconhecer o cara que ensinou o Neymar a jogar bola, é pegar um cara que nunca jogou e levá-lo a jogar. É fazer o cara ir para a academia, gostar e ir mais cem vezes, nunca mais deixá-la”.

Com essa preocupação, Parente incluiu, no currículo, em meio a três graduações e quatro pós-graduações sobre nutrição, gestão, marketing e direito esportivo, estudos sobre psicologia. “A maior parte das pessoas não consegue fazer exercícios. As sensações e memórias são ruins, pensam que é chato. O fio da questão é entender a pessoa como um todo, compreender seus medos e receios. Se tem um histórico de ter sido o último a ser escolhido para os times na escola, temos que trabalhar em cima disso. Nosso desafio é fazê-la gostar de atividade física. O que posso fazer para facilitar? Qual atividade posso propor que não demande tantas habilidades? Tenho que gerar um ambiente que a cative pelo prazer”.

Nesse sentido, a Koatch, a academia de Parente, se propõe a ser uma academia capaz de converter sedentários em pessoas ativas. “Aquele que tem bom histórico na escola, era o que fazia mais cestas no basquete, mais gols no futsal, mais pontos no vôlei, não precisa da minha orientação. Minha academia não é um produto efetivo para sele. Somos especialistas é em cativar aquele cara que pode se desviar do caminho da academia por qualquer pedrinha”.
Parente encara seu trabalho como uma missão. “Quando falhamos, e esses sedentários se transformam em pessoas obesas, eles se tornam um peso para a sociedade, para o Estado. Imagine os custos de saúde e transporte, por exemplo, que essas pessoas vão acarretar”.

Por todos esses motivos, Parente exorta os colegas a alargarem o mercado de trabalho. “O mercado poderia ser enorme. Ficamos brigando pelas mesmas pessoas, as que já fazem atividade física, e a grande maioria não faz. Precisamos ser conversores. Se conseguimos atrair mais gente, haverá mais trabalho do que somos capazes de oferecer”.