Futebol entre amigos também requer preparo físico para evitar as lesões

17 de abril de 2014 ● POR

O gosto pelo futebol faz parte da cultura do povo brasileiro. Desde criança, jogar bola é uma das brincadeiras mais prazerosas e, na idade adulta, as partidas entre amigos ou aquelas não oficiais no fim de semana, também conhecidas como “peladas” – estão inclusas.

Entretanto, é necessário estar atento às lesões que podem decorrer dessa atividade, mesmo sendo uma partida descontraída.
“A pessoa tem uma vida sedentária e, normalmente, quando chega no fim de semana, quer jogar. Porém, não pode esquecer do alongamento, isso é fundamental para tentar evitar lesões.” Quem faz o alerta é o especialista em ortopedia e traumatologia e autor do livro “Apenas Futebol”, João Rozas Barrios. Uma dica que ele dá aos peladeiros de fim de semana é: tome um copo de água com uma colher de chá de bicarbonato de sódio uma hora antes da partida. Isso evitará a dor muscular no dia seguinte.

De acordo com Barrios, o maior número de lesões sérias nos atletas profissionais são as musculares, mas os tornozelos e os joelhos também sofrem com a quantidade de impacto, pois funcionam como para-choques de todos os movimentos que um jogador faz durante a partida; salta, corre e para de repente. “Os tornozelos, nas estatísticas, são responsáveis por 20% das complicações mais sérias no futebol; 15% estão no joelho e 35% são musculares.”

Porém, a gravidade da lesão está em relação ao tempo em que o jogador fica fora do esporte.

Lesões musculares

As complicações mais comuns no futebol são as contusões. De acordo com o livro “Apenas Futebol”, as contusões e lesões musculares foram as mais frequentes e a maior incidência ocorreu nos jogadores de meio-campo e ataque. Também revela que 45% das lesões acontecem durante os jogos, 40% nos treinos táticos-técnicos e as restantes nos exercícios físicos.

“Quando pensamos em futebol, achamos que é utilizado apenas os membros inferiores. Porém, na verdade, o organismo inteiro participa de uma partida. Caso fique muito tempo sem jogar e, de repente, volte, no dia seguinte o corpo irá sentir”, lembra o médico.

A coluna cervical participa do jogo o tempo todo. Por isso, essa musculatura do jogador é bem fortalecida. Durante a partida, os músculos paravertebrais são utilizados, assim como os abdominais, estes que, de tão utilizados, se houver um problema, eles produzem uma lesão no púbis, trazendo um quadro de pubalgia, sendo de difícil tratamento – quem sofreu isso foi Kaká, cita Barrios.

Entorses e luxações

As lesões mais comuns ao longo da vida de um jogador de futebol profissional são: as contusões, que são as batidas sobre uma determinada zona do corpo; as entorses, resultado de quando se ultrapassa o limite normal de movimento de uma articulação; distensões musculares – podendo ser em grau leve, médio e grave -, causadas pelo estiramento das fibras musculares, mas sem provocar lesão; rupturas musculares; problemas tendinosos, e as luxações.

“Muita gente confunde luxação com contusão, mas são muito diferentes”, diz Barrios. A luxação é o deslocamento de um osso da articulação. E, por último, a fratura.

Hoje o jogo é muito mais físico e mais rápido. Existem pessoas que analisam o futebol e sabem quantos quilômetros o jogador percorre durante uma partida. Fazendo uma análise desde 1950 para cá, antes, era considerado um futebol arte, pois os atletas tinham tempo para olhar e pensar, comenta o especialista.

“Li num artigo uma comparação de quantos quilôemtros percorria-se antigamente. Nenhum jogador passou dos 4 km nos anos 60, 70. Na última Copa, na final de Espanha e Holanda, o Iniesta correu 12 km”, diz Barrios. Como a participação é exaustiva, os clubes possuem um médico, fisioterapeuta, nutricionista, e em alguns, há até psicólogos.

Um tipo de fratura que existe em vários esportes é a por estresse, que acontece, na maioria, nos pés dos futebolistas. São fissuras microscópicas dos ossos, causadas por uma soma de quantidade de impacto. A maior parte das lesões ocorre sem haver toque. 

Joelho e tornozelo

O joelho e tornozelo não têm envoltório muscular que possa os proteger. Portanto, qualquer movimento inadequado trará lesão. O joelho é uma articulação complexa, pois são quatro ligamentos que fornecem estabilidade; dois laterais, impedindo que abra, e os cruzados, não permitindo um movimento de gaveta.
“A lesão dos cruzados é aterrorizante pra quem joga futebol, só volta depois de seis meses”, explica o ortopedista. O meio-campo Paulo Henrique Ganso sofreu duas complicações desta, sendo uma em cada joelho.

Devido ao progresso da medicina, próteses e tratamentos, a artroscopia (permite refazer os ligamentos), deixou os jogadores mais tranquilos.
“Quando comecei, as lesões eram meniscais, e são mais benignas do que as dos ligamentos.” Há meio século, quando se operava um menisco, abria a articulação e não deixava um resto meniscal. O paciente era internado de três a quatro dias, havia um pós-operatório mais longo. Hoje, retira-se o menisco em 30 minutos. “Se for problema no menisco, à noite está em casa. A lesão dos ligamentos cruzados também não são mais incapacitantes como era antes”, afirma Barrios.

Já a articulação labral raramente é lesada no futebol, mas nos tenistas é mais comum. “Se não for prontamente tratada, ela leva à incapacidade. Foi o que aconteceu com o Guga. Pouca gente sabe que ele tem uma prótese”, elucida Barrios.

Outra lesão, que é rara, mas pode acontecer, é quando o jogador está com a boca aberta, leva uma bolada na mandíbula e sofre uma fratura na articulação temporamandibular. “Pouca gente sabe que temos como se fosse menisco nessa articulação”, finaliza Barrios.

Estudante teve lesão grave

Quem sofreu uma lesão grave durante uma partida de futebol não oficial foi o estudante de engenharia mecânica Lucas Prezotto, 22 anos. Ele teve uma ruptura total do ligamento cruzado anterior do joelho direito (igual Paulo Henrique Ganso, do São Paulo ).

“Foi em uma disputa de bola normal. Eu estava jogando como zagueiro e dividi a bola com o centroavante. Não houve falta e nem maldade no lance, foi uma fatalidade”, lembra o estudante, afirmando ter sentido muita dor na hora da ruptura do ligamento.

A recuperação, de acordo com Lucas, pode ser entendida de duas formas: para poder andar e realizar atividades diárias, demorou de 15 a 20 dias. Porém, para jogar uma partida de futebol após a cirurgia levou 10 meses. O tratamento foi baseado em 30 sessões de fisioterapia e 15 de hidroterapia. “Foi dado início ao fortalecimento com exercícios funcionais e depois fortalecimento especializado em academia, que venho dando sequência até hoje.” Entretanto, a cirurgia não foi feita de imediato. Lucas esperou a época de provas terminar para operar.

A lesão ocorreu em abril do ano passado, porém, o joelho ainda dói em certas ocasiões, como em situações de sobrecarga. “Voltei a jogar bola só agora. E, um dia após a partida, sinto uma leve dor, mas isso é normal”, finaliza. 

Matéria publicada pelo site Cruzeiro do Sul