O menino da canoa: um sonho, um rim e duas medalhas olímpicas. Rema, Izaquias!

19 de agosto de 2016 ● POR

Que ser um atleta é algo, inacreditavelmente, difícil no Brasil não é uma novidade. Mas agora pense tentar ser um atleta sem ter um Rim? Estou escrevendo sobre Izaquias Queiroz, um menino de 22 anos de idade, 85kg de massa corporal e 175cm de estatura. Um pequeno grande vencedor. Ele disputa as provas curtas, as que chamamos de explosão. Essas exigem uma característica fisiológica muito específica, as vias energéticas chamadas de “anaeróbias”. Sinceramente, não gosto dessa expressão: eu prefiro dividir as fontes de energia em alta intensidade, média intensidade e baixa intensidade.

Em provas 100 – 400, e no caso da canoagem, 1000 metros são provas com uma predominância de fontes de alta intensidade. Izaquias Queiroz, o nosso canoísta medalhista olímpico tem uma dessas fontes melhor desenvolvida. Para ter chance de competir e ganhar ele precisou fazer treinamentos específicos de altíssima intensidade e alternou isso ao longo da preparação com treinos de média e baixa intensidade, algo que leva anos para desenvolver para se tornar competitivo. No caso dessas provas, as vias glicolíticas, que usam muita glicose, são muito exigidas.

Ao analisar, superficialmente, é claro, as características do menino da canoa uma situação me chamou atenção. Um acidente. O que aconteceu com ele, ainda quando criança pode ter influenciado, em parte, no processo de desenvolvimento esportivo desse atleta. Depois de um acidente, ele caiu de uma árvore, teve a necessidade de retirar um dos Rins. Os Rins tem uma função muito importante, filtrar as impurezas de nosso organismo e excretá-las junto com a urina.

Mas o que tem a perda de um Rim com o desempenho glicolítico?

Os Rins são responsáveis por produzir um hormônio, chamado de Eritropoietina. Pessoas com insuficiência renal produzem menos esse hormônio que tem a função de estimular a produção de hemácias, que são responsáveis por transportar oxigênio para as células. Izaquias não tem um rim, isso pode atrapalhar as adaptações oxidativas em seu organismo, pessoas com insuficiência renal podem apresentar até mesmo anemia. Será que isso pode ter ajudado nas adaptações? Essa é uma ótima pergunta a ser feita. Será que não ter um Rim pode melhorar suas vias glicolíticas? Será que isso o deixaria mais potente?

Bem, precisaria de mais tempo e mais informações específicas para dizer que isso realmente aconteceu. Eu gostaria de ter acesso a uma biópsia muscular, de uma análise de ângulos das fibras musculares, amostras de sangue e testes de força e potência. Sem dúvida alguma isso poderia nos dizer se as vias glicolíticas, do menino da canoa, são acima da média. Interessante seria realizar uma boa análise antropométrica para saber o perfil físico de nosso atleta, aparentemente (pelo vídeo) ele tem um tronco mais largo, curto e com braços mais longos, isso o deixaria mais perto da água e muito mais rápido na remada.

Claro que tudo isso não passa de especulações baseadas no que sabemos por meio da mídia. Os médicos e treinadores do atleta poderiam dizer com muito mais propriedade sobre tudo que estar por trás desse menino evoluído fisicamente e vencedor por necessidade.

Conhecido como “o menino da canoa” ele um dia teve um sonho, perdeu um rim e ganhou 2 medalhas olímpicas.

Pense nisso, realize seus sonhos, ganhe suas medalhas e mantenha os 2 rins saudáveis.

(Fonte: o Prof. André Lopes é Phd em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS, pesquisador científico e expert no Portal da Educação Física. Durante as Olimpíadas, analisou para o Portal a performance física inacreditável de alguns atletas medalhistas).