Capacitação e vivência: como deve ser a transição de atleta para gestor do esporte

09 de novembro de 2017 ● POR Pedro Lopes

A aposentadoria representa um momento delicado na vida de qualquer atleta. Interromper um ciclo de décadas dedicadas a competições e treinamentos faz com que pipoque uma série de dúvidas na cabeça do esportista. Mas há quem não sinta o baque da aposentadoria ao continuar no esporte de uma forma diferente – sem o mesmo protagonismo de quem está em campos, quadras, pistas e piscinas. Ocupar um cargo de gestor do esporte tem sido alternativa cada vez mais comum para ex-atletas brasileiros e ajuda a preencher o vazio provocado pelo fim da carreira profissional.

As conquistas esportivas dão visibilidade a quem planeja seguir para a gestão do esporte, mas não garantem vida longa aos ex-atletas na nova área, explica Maria Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, uma das lendas do basquete brasileiro. Em entrevista ao Portal da Educação Física durante o 8º Congresso Brasileiro de Gestão do Esporte, realizado de 18 a 20 de outubro, em Curitiba, a criadora do Instituto Passe de Mágica explicou que a vida de cestinha pouco tem a ver com tomar decisões e controlar atividades de organizações esportivas.

“Não é porque você foi um bom atleta e se destacou dentro da quadra que você vai ser um bom gestor. Em tudo na vida é preciso se capacitar. Tem que estudar, se atualizar. A grande discussão que corre hoje é que os atletas têm que votar [em eleições de confederações], precisam participar mais da gestão. Espera aí, os atletas têm que ter muita calma nessa hora. Existem atletas que têm o perfil como gestor, já têm uma certa experiência e se prepararam para isso. É interessante porque nós podemos ver como é difícil o outro lado”, opina Magic Paula.

Apesar das funções distintas, os valores morais assimilados dentro da quadra auxiliam nas tarefas do dia a dia de quem segue trajetória como gestor do esporte. Reconhecer perfis e fazer com que companheiros de trabalho estejam com propostas alinhadas funciona tanto dentro quanto fora da quadra, garante Paula.

“Tem que descobrir o gosto pela coisa, ter intuições, sensibilidade, conhecer sua equipe. Não existe receita [para ser um bom gestor]. São mais questões pessoais que devem estar em jogo. É preciso conhecer aquilo que está fazendo. Se existe uma harmonia, um entendimento do perfil de cada um e todo mundo vai no mesmo sentido, se as pessoas entenderem o que querem, o caminho para o sucesso fica mais fácil”, acrescenta.

Aposentada desde 2010, a ex-judoca Danielle Zangrando, medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, hoje atua como diretora técnica da Fundação Pró-Esporte de Santos, que estimula o esporte de alto rendimento. A bagagem acumulada no tatame é vital para que Danielle defina prioridades e defenda os interesses dos atletas que representa.

“A grande vantagem de você ter sido atleta e estar no papel de gestor é que você sabe exatamente as necessidades do atleta. Você já passou por tudo aquilo. Em uma conversa, sabem que você está vendo aquilo que é melhor para eles. O gestor que nunca foi atleta não tem essa visão”, analisa.

Aos 30 anos e ainda em atividade, a nadadora Joanna Maranhão, tratada em meados da década passada como “queridinha” dos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), diz que os atletas podem ajudar a corrigir injustiças na distribuição de verbas no esporte nacional.

“Quando eu tinha 17 anos e era a bola da vez, era tratada como uma princesa, recebia muito dinheiro e não atentei que isso vinha somente para mim. Depois acordei, vi que estava errado e comecei a gritar por critérios, não só para mim, mas para todos. Eu repito sempre o mesmo discurso. É preciso mudar, admitir que errou e foi conivente, que poderia ter se posicionado e não fez. Eu estou no meu último ciclo, mas precisamos fazer isso por quem está vindo”, conclui.