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O mercado negro do anabolizante

O mercado negro do anabolizante
Para comprar esteróides anabólicos em Goiânia, mais conhecidos como anabolizantes, é preciso

Para comprar esteróides anabólicos em Goiânia, mais conhecidos como anabolizantes, é preciso algo mais essencial que o próprio dinheiro: o contato com a pessoa certa. “Quem quer não fica sem”, afirma o professor de educação física e treinador de atletas goianos que disputam competições internacionais que pede para que seu nome não seja revelado. O dinheiro não é o mais complicado da negociação: apenas R$ 20 são suficientes para comprar uma ampola de Durateston – medicamento que combina quatro compostos de testosterona e usado na reposição hormonal em homens.

Quem faz o telefonema é o professor. Não é preciso sair para buscar o anabolizante; o medicamento é entregue em casa. Para a aquisição de forma regular em qualquer farmácia, seria necessária a retenção da receita tipo B, conhecida como receita azul; por isso o valor no mercado negro triplica. O entrevistado explica que o Durateston é apreciado por atletas e freqüentadores de academia pelos resultados apresentados no ganho força e massa muscular. A ação é imediata e prolongada.

Segundo a endocrinologista Eldeci Cardoso, os esteróides anabólicos funcionam como promotores do metabolismo positivo de compostos nitrogenados no organismo. Eles são naturalmente produzidos pelo corpo humano; os vendidos em farmácia são sintetizados em laboratório e são usados em pacientes com níveis hormonais baixos. Eles têm relação, entre outras coisas, com a libido, a memória, concentração e com o nível de glóbulos vermelhos no sangue. A médica diz que os anabolizantes fazem as células musculares crescerem, e não as multiplica, como muitos pensam.

De acordo com o livro O Mundo Anabólico, de Azenildo Moura Santos, anabolizantes foram liberados nos Estados Unidos para tratamento de anemias severas, para ganho de peso em pacientes com deficiência nutricional crônica e Aids, alívio da dor óssea provocada pela osteoporose. Segundo a obra, esteróides anabólicos são usados também em casos de doenças debilitantes crônicas, em terapias prolongadas com glicocorticóides, após cirurgias e traumas.

Contatos

Segundo o professor e treinador, o meio da venda ilegal de anabolizantes em Goiânia é muito fechado e não é entrando em uma academia ou farmácia, os principais locais para fazer um contato para comprar, e perguntando abertamente que se consegue o medicamento. “É preciso conhecer a pessoa certa. Ele vai dizer que nunca tem, mas que conhece uma pessoa, que conhece outra pessoa que tem e que dá um jeito de arrumar pra você.”

Esteróides anabólicos usados por atletas ou por freqüentadores de academia em Goiânia tem basicamente três fontes: o contrabando vindo, em sua maioria, do Paraguai, drogarias e distribuidoras dos medicamentos nacionais. Na Capital, são Deca-Durabolin e Durateston, drogas produzidas no Brasil, os anabolizantes mais usados. Entre as importadas, a Winstrol, desenvolvida na Espanha, é a mais apreciada, entre outros motivos, por apresentar baixo efeito colateral e por ser possível administrá-la com outros medicamentos.

No mercado ilegal, as duas nacionais custam entre R$ 15 e R$ 20 a ampola. Em qualquer drogaria, a Durateston e a Deca-Durabolin 25mg são compradas por pouco menos de R$ 7 cada ampola. A Winstrol é comprada nas drogarias do Paraguai por volta de US$ 20 e vendida ao consumidor por aproximadamente R$ 150.

Receitas falsas facilitam vendas

Além dos traficantes, há outras formas de conseguir o anabolizante, afirma o professor. Assim como no caso das anfetaminas, os usuários dos esteróides anabólicos conseguem receitas com médicos para que comprem legalmente o medicamento. Há também aqueles que falsificam a receita e um carimbo com número de inscrição de médico no Conselho Regional de Medicina para fazer a aquisição. Eldeci Cardoso também cita a facilidade em falsificar a receita, que pode ser impressa em qualquer gráfica. O professor diz que há algumas farmácias em Goiânia que vendem irregularmente hormônios sintéticos.

O professor de educação física afirma que não apenas os anabolizantes, mas outros medicamentos e até a alimentação de profissionais do esporte seguem o princípio da ergonomia, ou seja, tudo visa à otimização do desempenho atlético. Desde comida completamente sem sal, água destilada, diuréticos, broncodilatadores, insulina, suplementos alimentares que desintoxicam o fígado durante uso de esteróides anabólicos, efedrina (uma anfetamina que estimula a circulação, atenua asma e congestão nasal e inibe a dor), até o hormônio do crescimento, tudo que traz qualquer tipo de benefício é usado por profissionais do esporte. Eles normalmente não são flagrados nos exames antidoping porque observam a meia-vida da substância no organismo, ou seja, param de consumir o medicamento em tempo para não ser constatada sua presença no teste de urina.

Fora do universo amador, atletas são acompanhados por médicos, nutricionistas e outros especialistas não apenas para melhorar seu desempenho, mas também para minimizar os afeitos adversos do uso de tais medicamentos. As eventuais vítimas dos anabolizantes, afirma o professor, são jovens que almejam atingir um padrão estético que não pode ser alcançado rapidamente sem uso de anabolizantes.

O professor de educação física diz que o desconhecimento e a falta de acompanhamento, como o feito para atletas profissionais, é o que tem vitimado jovens, como no caso do pintor Julieber Costa dos Santos, 26, de Catalão, que morreu no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), no dia 6 de julho, em decorrência de uma infecção generalizada. Especialistas da medicina e da educação física consultados pela reportagem afirmam que, ao que tudo indica, pela descrição da lesão no braço do pintor, Julieber provavelmente não fazia assepsia para a aplicação dos anabolizantes que afirmou tomar. É possível que ele reutilizasse agulhas e seringas ou que não limpava o braço onde se desenvolveu a infecção.

Os efeitos adversos do uso indiscriminado de esteróides anabólicos mais relatados são calvície, tumores de próstata, agressividade, alteração do humor, ginecomastia (aumento do volume das mamas), virilização, tremores, acne, dores nas articulações, elevação da pressão sangüínea, diminuição dos níveis de HDL (o bom colesterol) e, principalmente, tumores no fígado, que metaboliza o excedente do hormônio administrado.

Há informações de câncer de fígado e rins associados ao uso excessivo. Eldeci diz que estudos médicos sobre uso indiscriminado desse tipo de medicamento são baseados em relatos; segundo a endocrinologista, ainda não há pesquisas feitas com ex-atletas.