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Qual é a origem do bullying?

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Qual é a origem do bullying?
Mesmo sendo a questão sendo complexa e multicausal a violência doméstica pontua como um dos principais causadores.

O bullying é um problema social, e não apenas uma questão ligada ao comportamento agressivo de algumas crianças. Essa é a constatação de especialistas no tema reunidos na mesa-redonda Bullying: diferentes olhares, realizada durante a 63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que termina hoje no câmpus da Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo pesquisas e observações dos especialistas, o problema tornou-se generalizado e é influenciado por diversas questões, que vão desde a violência doméstica até a falta de infraestrutura e treinamento dos professores brasileiros. A solução? Valorizar a escola como local de aprendizado e combater todas as formas de violência, mesmo aquelas que acontecem fora dos ambientes educacionais.
Uma das debatedoras do tema foi a pedagoga Ana Carina Stelko-Pereira. Ela é autora da cartilha Psiu, repara aí! Vamos refletir sobre a violência entre os colegas?, proposta para o Ministério da Educação (MEC) como alternativa para lidar com o problema nas escolas. Baseado nos dados levantados na tese de doutorado da pesquisadora, o material mostra que a maioria dos estudantes de estabelecimentos públicos de ensino sofrem com o problema. “Durante a elaboração de minha tese, entrevistei alunos e me surpreendi. Cerca de 70% responderam que sofreram algum tipo de violência física nos últimos seis meses e que eram xingados e humilhados sete vezes ou mais por semana”, relata.
A cartilha elaborada por ela está em fase de testes e já foi utilizada com 70 alunos de escolas públicas. Segundo um questionário anônimo que eles responderam após as atividades lúdicas que o material propõe, que incluem caça-palavras e histórias, 95% do conteúdo foi aproveitado. “Nossos testes com os alunos destacaram que o material os ajuda a agirem caso sofram com esse problema. Além disso, alerta que violência não leva a nada de positivo”, completa a pesquisadora, que planeja elaborar um livro e um vídeo para apoiar o uso da cartilha, que pode ser usada ainda no fim de 2010.
Em casa
De acordo com a especialista, a questão é complexa e multicausal. “Em estudos com 239 estudantes de escolas públicas, constatamos que, quando a criança sofre violência doméstica, ela tem muito mais chance de sofrer bullying”, conta Ana Carina. “Quando a violência é proveniente dos pais, essa chance aumenta três vezes”, completa a pesquisadora, integrante do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (Laprev), da UFSCar.
O problema pode ser maior do que se imagina. A mesma pesquisa, apresentada por Ana Carina na reunião da SBPC, mostra que 14% das meninas e 7,5% dos meninos presenciaram agressões físicas entre os pais, em casa, e também revelou que 60% dos pais e 85% das mães utilizam castigos físicos nos filhos. “A violência não é exclusiva do ambiente escolar, mas tem reflexos importantes tanto no desempenho quanto na forma como as crianças se relacionam”, alerta.
Para ela, embora o problema não seja novidade, a sociedade deve ficar mais atenta às novas maneiras que a questão se apresenta. Se, antes, o bullying ficava restrito às escolas, agora ele já ganhou outros espaços, como a internet e os celulares, o que para ela é bem mais grave. “Praticado da forma tradicional, ele é restrito a locais e tempos específicos. No entanto, quando é o praticado pela internet, ele atinge a vítima em qualquer lugar e a qualquer hora”, alerta a especialista em educação especial.
Para o psicólogo Josafá Moreira Cunha, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma das causas do problema é exatamente a dificuldade que as pessoas enfrentam para se adaptar às mudanças sociais. “Nas últimas décadas, a educação pública cresceu muito, mas as escolas não conseguiram atrelar a esse conhecimento treinamento dos professores e funcionários para lidar com a violência”, acredita Cunha. “Desde o Estatuto da Criança e do Adolescente, a escola perdeu parte de seu caráter punitivo, como a possibilidade de expulsar os alunos. Essa mudança é muito bem-vinda, mas as instituições não conseguiram criar estruturas que as ajudassem a lidar com a violência”, completa.
Para os especialistas, a grande maioria das abordagens atuais contra o bullying falhou exatamente porque elas são focadas em aspectos físicos e de infraestrutura das escolas, e não nos aspectos sociais do problema, como a valorização que os agressores têm entre os demais colegas. “Investir em mais segurança física, como a colocação de câmeras, só mascara o problema. Na prática, essas escolas continuam sendo palco de violência entre as crianças”, afirma Cunha. “Por outro lado, em geral os agressores são vistos entre os outros alunos como ‘os bons’. Acho que é aí que precisamos trabalhar, desvalorizar a violência e dar mais valor ao desempenho escolar”, completa.
Por Max Milliano Melo