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Professores enfatizam a importância da prática da Educação Física

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Trabalho com o corpo repercute na independência, autoestima e, consequentemente, na socialização dos alunos.


A prática da Educação Física pode ser de grande ajuda na recuperação ou manutenção da saúde corporal e, até mesmo, emocional de pessoas com deficiência. A opinião unânime de professores e especialistas vai na direção de que, na maioria dos casos, as orientações e os consequentes benefícios da prática dependem diretamente do tipo de limitação que acomete a pessoa.

O coordenador da Faculdade de Educação Física da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Fabrício Madureira, explica dois lados desses ensinamentos. "Devemos nos concentrar, inicialmente, nos problemas particulares de cada disfunção, construindo um programa de exercícios que possa beneficiar os alunos nas suas possíveis desvantagens".

Mas isso pode mudar. "Quando a restrição esta estabilizada, os programas de treinamento objetivam metas similares aos de uma pessoa sem deficiência". E cita um exemplo: "Em 2011 realizamos um estudo com adolescentes com síndrome de Down.

As características da doença estavam estabilizadas. Desta forma, não havia nenhum jovem em situação de risco, apenas obesos".

A partir daí, o grupo desenvolveu um programa de treinamento de natação, com estratégias distintas de aprendizagem motora (com nadadeira e sem nadadeira). "Os resultados corroboraram os efeitos encontrados em pessoas sem a síndrome. Isto é, o pessoal que usou nadadeiras não só aprendeu a nadar com mais eficiência como apresentou um maior gasto energético durante o programa", revela.

Caso as pessoas com deficiência apresentem limitações neurológicas, os exercícios que estimulam os órgãos sensoriais são os mais indicados. "Neste tipo de estratégia, o professor consegue potencializar o movimento por meio do desejo natural humano da exploração. Concomitantemente, construímos restrições no deslocamento para que o aprendiz possa se deslocar da forma e intensidade que serão prescritas em seu programa", explica Madureira.

O coordenador divide em três categorias os estímulos que devem ser explorados: "Exteroceptivos (captação de informações por meio dos órgãos sensoriais): são estratégias com materiais de cores, formas e movimentos diferentes (visão); ou que possuam ritmos, timbres e intensidades sonoras distintas, tais como a música, chocalhos, instrumentos musicais (audição). Capacidades físicas: força, resistência e flexibilidade. Capacidades coordenativas: coordenação interbraços, óculo-manual, óculo-pedal, equilíbrio dinâmico e estático. As três fontes de estímulos são essenciais para a construção de habilidades motoras fundamentais como o andar, correr, agarrar e manipular".

Na análise de Madureira, com base nessas considerações, portadores de disfunções neurológicas ou sensoriais devem ter ênfase na primeira categoria de estímulos. Já os portadores de disfunções físicas, podem trabalhar com mais ênfase os estímulos 2 e 3. "Cabe ressaltar que a sequência da progressão na complexidade de ações habilidosas passará sempre pela captação da informação (estímulo 1), condicionamento físico para a execução (estímulo 2) e, finalmente, controle apurado na execução (estímulo 3)".

As principais técnicas pedagógicas utilizadas, segundo o professor, são as estratégias de desempenho relativo, isto é, a maior quantidade possível de tarefas aplicadas. Devem ser desenvolvidas com estímulos, no qual o indivíduo só possa ser comparado a seu desempenho anterior. "Sendo assim, as tarefas de superação e de cargas relativas resultarão em um aumento na autoeficácia, o que induz a uma maior resiliência e, por conseguinte, mais autoestima".

Segurança

Fabrício Madureira aponta que a escolha da atividade física depende, fundamentalmente, do aspecto segurança. "Caso seja uma criança autista, onde a percepção dos riscos é pequena por parte do jovem, o ambiente aquático deve ser visto com muita cautela e as aulas precisam ter um profissional atuando diretamente com a criança. Em contrapartida, no caso de um jovem obeso com disfunção física dos membros inferiores, o ambiente aquático, além de potencializar mais segurança pela diminuição dos riscos de queda, provoca melhor deslocamento e, em consequência, maior gasto de energia em função da sustentação de um menor peso corporal (ausência da ação da gravidade)".

O coordenador da faculdade só vê vantagens na prática da Educação Física. A atividade oferece mais qualidade de vida, servindo não apenas como prevenção de doenças que, muitas vezes, são consequências da deficiência, bem como, aprimorando o bom desenvolvimento de todos os sistemas corporais (muscular, cardiovascular, respiratório, endócrino, entre outros).

Nas escolas

A professora Mônica Lopes de Mello, graduada pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, pós-graduada em Performance do Treinamento Desportivo pelo Grupo Palestra e mestre na área de Desempenho Humano na mesma instituição, enumera os estímulos desenvolvidos em suas nas aulas: percepção corporal, noções de espaço-tempo, sensibilidade ao tato, visão, audição, além de capacidades físicas, como força, velocidade, agilidade, equilíbrio, coordenação, flexibilidade e resistência.

Mônica trabalha diretamente com Educação Física para crianças e adolescentes em escolas. É professora da disciplina na Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro e na Secretaria Municipal de Educação. Ela defende que esses estímulos devam ser trabalhados de acordo com cada limitação. "Todos podem ser trabalhados. É claro que, dependendo da deficiência, o professor vai estimular mais a área que oferece menos possibilidades. O que faz a diferença é a resposta. Se for uma criança, por exemplo, e ela for estimulada desde cedo, é sociabilizada e os pais participam de todo o processo da vida escolar de seus filhos essa resposta é mais rápida".

Para a professora, os benefícios da Educação Física são inúmeros, como a sociabilização, porque se trata de uma atividade muitas vezes lúdica e isso aproxima as pessoas; desenvolve a autoestima, uma vez que a criança percebe que pode fazer algo como executar um movimento dentro de suas possibilidades; melhora as funções orgânicas, porque está praticando uma atividade física; aumenta a independência, e consequentemente, dá autonomia, porque trabalha com possibilidades de escolha.

A escolha da atividade física a ser empregada depende, fundamentalmente, do aspecto segurança

A professora Vera Lícia Baruki, graduada em Educação Física pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, mestre e doutoranda em Educação na Universidade Católica Dom Bosco, ressalta que o papel da Educação Física para pessoas com deficiência vem mudando e a evolução da prática vem sendo conquistada através dos anos.

"O primeiro grande estímulo dado pela Educação Física às pessoas com deficiência foi possibilitar sua participação e favorecer o gosto pela atividade física". Ela explica que a disciplina veio de um modelo médico terapêutico, no qual o corpo deveria se apresentar dentro de uma normalidade que fosse útil à sociedade. "Atualmente, a disciplina reconhece que legitimou uma identidade de corpo ideal e, desta forma, excluiu a participação de outros corpos em suas aulas, como por exemplo, aqueles que apresentavam algum tipo de deficiência. Contudo, a Educação Física contemporânea reconhece que as diferenças estão presentes e, devido a isso, teve que aprender a trabalhar um novo conceito de corpo".

Desta forma, segundo a professora, o trabalho da Educação Física se tornou mais abrangente e mais responsável. "Não se trata apenas de uma atividade física, mas de um trabalho com o corpo (orgânico), que repercute na independência, autoestima e, consequentemente, na socialização".

Vera Baruki considera importante a participação da criança nas aulas de Educação Física desde cedo. "Vejo que, por meio do brincar, ocorrem muitas trocas de conhecimentos e descobertas entre elas. É nesse momento que nós professores entramos nas brincadeiras como mediadores de outros saberes, que poderão contribuir na formação quando adulto. Porém, somos apenas parte de uma soma de fatores que se alternarão e acompanharão essa criança na sua juventude até a fase adulta".

Motores e Psicomotores

O professor Ubiratan Fonseca de Andrade, mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cita os estímulos motores e psicomotores como os mais desenvolvidos pela Educação Física em pessoas com deficiência. Ele também acredita que esses estímulos diferem de acordo com a limitação. "Cada patologia apresenta valências físicas específicas para atender às deficiências motoras e psicomotoras". Segundo Ubiratan, a Educação Física traz muitas vantagens às pessoas com deficiência, como ajudar nas reabilitações clínica, psicológica e social. "Além de tudo isso, ainda desenvolve os aspectos de autonomia, sociabilização, autoestima, funções orgânicas e atividades diárias. Por lidar com desafios constantes, pode ajudar muito no quesito independência, principalmente em relação às atividades individuais. É o que eles mais buscam".