Gol contra: reflexões sobre a eliminação da seleção

10 de julho de 2018 ● POR Redação

No dia 20 de junho fiz um longo texto (aqui) sobre a estreia do Brasil na Copa com o intuito de refletir sobre uma série de apontamentos e comentários feitos em reportagens após o empate entre Brasil e Suíça. Esse novo texto é uma nova reflexão sobre o que foi publicado sobre a eliminação do Brasil da COPA com a derrota de 2 x 1 para a Bélgica. O que impressiona preliminarmente é a escassez de reportagens que fizessem análises técnicas e equilibradas sobre a eliminação. Parece que aquilo que por vezes foi questionado sobre o despreparo emocional da seleção, e que refutei no texto anterior, eiva a mídia esportiva.

Mas é preciso contar um pouco de história para se entender a dificuldade de se vencer uma Copa do Mundo de Futebol. Apenas em duas oportunidades em 88 anos de história ocorreram bicampeonatos (Itália 1930-34 e Brasil 1958-62). Portanto há nada menos que 56 anos não há um bicampeão; como essa Copa não teremos novamente. Pode-se projetar como improvável que tenhamos um novo bicampeão tão cedo. Para outra referência, a única chance de não termos 6 campeões diferentes nas últimas 6 COPAS é se a França vencer. Nas últimas 5 Copas – 3 delas foram vencidas pelos gigantes (Brasil, Itália e Alemanha), duas equipes debutaram Espanha e França. Mesmo os gigantes tiveram muito mais dificuldades nas últimas Copas. O Brasil demorou 24 anos para vencer uma Copa após 1970; o mesmo aconteceu com a Itália de 1982 até 2006 e pela Alemanha de 1990 a 2014. Caso a França vença o mundial terão se passado 20 anos. Portanto, vitórias seguidas em Copas é algo raríssimo. Por 2 vezes um time jogou três finais seguidas a Alemanha de 1982 a 1990 só tendo ganho 1990 e o Brasil de 1994 a 2002 tendo perdido a de 1998. Obviamente que os gigantes entram com grandes expectativas, mas nessa Copa a Itália e a Holanda – que tem 3 vice-campeonatos -, ficaram de fora.

Esse preâmbulo é só para marcar o quão raros são os períodos de hegemonia de uma seleção. Além de que precisamos destacar que a equipe da Bélgica era apontada como uma equipe que corria por fora, a despeito dos resultados nos últimos anos. Terminaremos a Copa tendo em Brasil e Bélgica o confronto mais forte no ranking da FIFA, 2º contra o 3º. Então por que tanta exasperação com a eliminação para a Bélgica? Se as duas seleções foram as que tinham os melhores resultados nos últimos 2 anos. A derrota para a Bélgica foi a segunda do Brasil em 2 anos e a primeira em um jogo oficial, foi a primeira em que o Brasil sofreu 2 gols em 2 anos. Sendo que a Bélgica está invicta a 23 jogos. Os jornalistas especializados apontavam a Bélgica fazendo parte do grupo de segundas forças apesar de todos os resultados positivos nos últimos anos. Por lógica podemos dizer que os especialistas estavam praticamente todos errados.

Uma questão que regularmente apareceu na COPA e, principalmente, nos jogos contra a Sérvia e a Bélgica foi a diferença de estatura das seleções europeias em relação ao Brasil. Aqui cabe apenas uma pergunta: quando foi mesmo que as seleções latino-americanas em algum momento foram maiores do que as Europeias? Mas isso não é apenas no futebol. Passemos ao voleibol – que é modalidade com o maior número de títulos internacionais nos últimos 30 anos -, quando foi que as seleções brasileiras de voleibol, tanto feminina quanto masculina, foram mais altas que as europeias? Isto em um esporte que a estatura é muito mais fundamental que no futebol.

Só para se ter ideia a seleção brasileira de futebol de 1958 tinha uma média de 1,76, a de 1962 de 1,72, em 1970 tínhamos 1,75, em 1994 era 1,78 e em 2002 foi nossa seleção com melhor média 1,82. As grandes potencias europeias sempre foram maiores do que as nossas. Serem mais altos e fortes ajuda em alguns momentos, mas não decide. Vi a seguinte relação, a fragilidade do Brasil nos cruzamentos porque 5 dos 8 gols tomados pela seleção brasileira desde que o Tite assumiu foram de cabeceio. Hum!!! Quantas bolas foram alçadas??? 5 bolas? Isso só se torna relevante se contabilizarmos a relação de chutes/gol e de cruzamentos/gol. Apenas estabelecendo essa relação é possível dizer isso. Ela foi feita? Portanto, a conclusão a partir dos 5 gols como fragilidade pode ser no mínimo imprecisa. Tomar 5 gols em 100 cruzamentos reflete em 1 gol para cada 20 tentativas, se tomamos 2 gols em 2 chutes temos para cada chute 1 gol, qual é mais frágil?!!

Outro aspecto é que nas últimas 4 copas as finais foram vencidas por europeus. A probabilidade de um Europeu vencer a Copa é muito maior o número de seleções europeias que participam é muito maior, por lógica, a probabilidade é maior de que cheguem as fases finais. Cabe um maior equilíbrio entre os países no continente europeu que colocou outras seleções em condições de competitividade, em razão do intercâmbio proporcionado pela União Europeia e pela entrada em vigor da Lei Boosman que retirou o limite de atletas estrangeiros nas equipes, e que proporcionou que jogadores dos países ao redor dos grandes centros passagem a jogar em grandes clubes. Inclusive, por serem em sua maioria mais baratos que os atletas dos grandes centros. Esse intercâmbio também ocorreu entre os técnicos que passaram a dirigir com uma maior incidência tanto os clubes de outros países quanto as seleções de outros países. A Bélgica é treinada por um espanhol. Outro aspecto pode ser a transição entre gerações, bem como, problemas de calendário. É um ótimo ponto a se observar já que a próxima Copa, em 2022 no Qatar, ocorrerá pela primeira vez num final de ano (novembro)

Feitos esses primeiros apontamentos vamos ao jogo e ao pós-jogo.

O quadro 1 mostra as estatísticas dos 5 jogos do Brasil na COPA.

A primeira constatação é que o Brasil foi melhor que a Bélgica em todos os quesitos, menos no resultado final. Inúmeras vezes durante a transmissão do jogo foi apontado um número de erros imensos de passe. Com exceção do jogo contra o México em todos os outros a precisão de passe do Brasil foi maior do que a dos adversários. A tão exaltada eficiência de passe Belga não foi real, a precisão da Bélgica só foi melhor do que a Costa Rica contra o Brasil – Suíça, Sérvia e México tiveram maior precisão do que a Bélgica.

Quando olhamos para os passes no ataque a eficiência do Brasil só não foi melhor do que no jogo contra a Costa Rica. Portanto, contra os adversários, que podemos considerar mais fortes, foi exatamente contra a Bélgica que o Brasil teve o seu melhor desempenho (88,8%). A Bélgica só teve uma melhor precisão de passes no ataque (69,3%) do que a Costa Rica contra o Brasil (60%). Como comparação no jogo contra o Japão em que se salvou no último minuto a Bélgica acertou 89% dos passes (aqui).

Vejamos como algumas análises são complicadas. Hazard, Lukaku, Meunier e Fellaini tiveram eficiência de passe abaixo de quase todos os nossos jogadores. Apenas o William (68%) no primeiro tempo teve menos de 80% de eficiência de passe. Como é que um time desequilibrado tem uma eficiência de passe maior do que o dito equilibrado. O De Bruyne, eleito o melhor jogador da partida, teve um eficiência de 85%. Nada menos do que 8 jogadores do Brasil tiveram eficiência maior do que a dele.

Quadro 1. Estatísticas do jogo

Estatística Brasil x Suíça Brasil x Costa Rica Brasil x Sérvia Brasil x México Brasil x Bélgica
Total de passes 544 x 453 705 x 208 632 x 442 382 x 408 520 x 376
Precisão dos passes 87,9 x 79,9 91,5 x 70,7 85,9 x 79,4 83,5 x 86 88,8 x 80,6
Precisão dos passes no ataque 82,2 x 72,5 87,6 x 60 83,9 x 74,1 76,1 x 82,7 85,3 x 69,3
Resultado do Jogo 1 x 1 2 x 0 2 x 0 2 x 0 1 x 2
Total de chutes 20 x 6 22 x 3 13 x 10 21 x 13 26 x 8
Chutes no gol 4 x 2 10 x 0 6 x 1 10 x 1 9 x 3
Chutes bloqueado 6 x 0 2 x 0 5 x 3 4 x 8 11 x 2
Chutes de fora da área 9 x 3 10 x 2 4 x 4 7 x 7 11 x 5
Chutes de dentro da área 12 x 3 12 x 1 10 x 6 13 x 7 16 x 4
Precisão dos chutes (%) 33.3 x 33,3 50 x 0% 66,7 x 28,6 62,5 x 16,7 56,3 x 42,9

Fontes: https://www.fifa.com/worldcup/; www.goal.com

No quesito eficiência de chutes. A pior eficiência foi na estreia, com Brasil e Suíça acertando apenas 33,3% dos chutes no gol. Se considerarmos essa baixa eficiência associada a ansiedade e desequilíbrio emocional, como foi propalado na mídia esportiva e por profissionais da psicologia do esporte. Podemos considerar então que a Suíça também se apresentou ansiosa e desequilibrada emocionalmente? Ou só vale para o Brasil?

O que caiu no jogo contra a Bélgica foi a eficiência do chute com 56,3% atingindo o gol, menor do que nos jogos contra o México e Sérvia. A eficiência da Bélgica foi ainda pior (42,9%). Agora vão falar que foi ansiedade na hora de chutar, prove? O erro técnico pode ser consequência de muitas coisas, velocidade da bola, um chute mais pressionado pela defesa, um desequilibro de pé de apoio, um erro de precisão do movimento, há inúmeros outros fatores antes da ansiedade. Então vamos lá!!! A eficiência de passes no ataque do Brasil foi maior do que a Bélgica. A eficiência de passes da Bélgica no ataque foi pior do que a da Suíça, México e Sérvia…Quantas bolas atingiram o gol do Brasil no segundo tempo? DUAS. A Bélgica chutou menos no nosso gol do que o México e a Sérvia. Acertou 3 vezes o gol brasileiro, infelizmente, UM entrou, e o outro gol foi considerado contra.

No primeiro gol, o Kompany erra a cabeçada e é isso que faz com que a bola bata no ombro do Fernandinho e não na cabeça dele. Tanto que erra que a concentração de jogadores belgas estavam no segundo pau, significando que se ele acertasse a cabeçada, ela deveria ir do centro para o segundo pau, o que não ocorreu. Vi críticas de que o Fernandinho e o Gabriel Jesus estavam de olhos fechados na hora do eventual cabeceio, mas o Kompany também estava… Este é um movimento reflexo. Vários jogadores de voleibol de alto nível fecham os olhos nos bloqueios. É um ato reflexo. O que melhor são preparados para evitar esse tipo de reflexos são os lutadores que se preparam para manter os olhos abertos durante os golpes. Há uma foto emblemática do Anderson Silva se esquivando de um soco e acompanhando sua trajetória de olhos abertos.

Veja que apesar das estatísticas é óbvio que o que vale é o resultado final, mas o esporte e, principalmente, os coletivos em que as interações são maiores, há eventos que não podem ser previstos. Como exemplo: antes do jogo contra a Suíça a revista Exame (aqui) apresentou os resultados de um estudo de três universidades europeias que indicavam que o Brasil não ganharia a Copa com base em 100 mil simulações e apontou que a Alemanha e a Espanha eram as que tinham maior chance de ganhar a Copa, o Brasil era o 3º, a França a 4ª, a Bélgica a 5ª e a Argentina a 6ª.

E já vou começar a dizer e, logo, vou reforçar que a despeito de vários comentários negativos foi o melhor jogo do Brasil na COPA. O problema é que não ganhou. Em um dos programas esportivos foi muito interessante ver o Cuca (Treinador) e o Petkovic apontarem que o Brasil jogou muito melhor que a Bélgica diferentemente dos jornalistas, destacando que o Brasil teve muito mais chances e que o maior nome do jogo foi o Courtois. Da mesma maneira, o Tite disse na entrevista coletiva que o melhor da partida deveria ter sido o Courtois, as defesas dele foram inclusive mais complexas do que as que Ochoa fez no jogo do México (bastar assistir os lances da partida). Apenas a Veja a partir do conteúdo da Placar estampou “Com milagres de Courtois, Bélgica elimina a seleção brasileira”. Vejam a comemoração do Courtois no final do jogo, está estampado que ele tinha consciência da partida que tinha feito. Outra questão é que muitos disseram que o Brasil foi surpreendido pela tática Belga? É verdade? O jogo começa com domínio do Brasil. Quem teve duas chances de gol foi o Brasil e não a Bélgica. E a tal declamada tática belga funcionou apenas 1 vez, lógico que basta! Mas os outros contra-ataques foram anulados. Achar que o Brasil foi surpreendido pela tática Belga, considero, ingenuidade com todo o aparato de análises que existe hoje.

Nos dados do jogo abaixo é possível ver a distribuição de bola. Vejam que os dois times tiveram 48% de posse de bola na faixa central, o Brasil mais centralizado. O Brasil teve 35% de posse no ataque enquanto a Bélgica 16%.

Fonte: https://www.fifa.com/worldcup/;

Já é possível quebrar outra máxima já decantada, o tal do desequilíbrio emocional – Em que universo um time em desequilíbrio emocional tem um grau de eficiência de passes maior do que o adversário, dito equilibrado. Ah! Mas ficou tocando de lado a bola, não é verdade. Os dados apresentando até agora não evidenciam isso. Vi e li inúmeros comentários sobre o problema estar na cabeça dos jogadores, alguns ditos especialistas em psicologia do esporte apontado a necessidade de um psicólogo (a) na equipe. Primeiro todas as equipes deveriam ter, e como alguém que está a mais de 20 anos estudando a psicologia do esporte, não seria eu a não defender a existência de um na equipe. Interessante que quando a Regina Brandão foi acompanhar a seleção na Granja Comary, na Copa de 2014, houveram inúmeros questionamentos!!!??? Inclusive dos mesmos que questionaram a ausência de um psicólogo(a) agora. Ah! Entendi, só vale se forem eles!! Outros não são capazes? Contudo é pouco provável que haja alguém com mais experiência no Brasil com futebol profissional do que ela. Não se esqueçam que ela já havia trabalhado com o Scolari durante a Copa de 2002, que, por acaso, foi vencida pelo Brasil.

Doravante, não há um dado que aponte para o tal desarranjo, a não ser advogar em causa própria. O que mais assusta é que alguns “especialistas” não apontam uma evidência que comprove que suas afirmações estão embasadas no resultado final do jogo e são apenas especulações. Não há contexto e nem dados que consigam sustentar esse apontamentos. São apenas mistificações para tentar criar benefício próprio. Lembremos, e isso é área de estudo na comunicação, que leads negativos recebem mais cliques que leads positivos. Um recado àqueles que querem ingressar na psicologia do esporte ou que estão iniciando carreira, esporte de alto nível é ciência. A arte e/ou criatividade dos atletas também fazem parte de campos de estudo das Ciências do Esporte. Agora vou fazer uma leitura como ex-atleta e ex-técnico. Esse tipo de manifestação obsessiva sobre o possível desequilíbrio ou o constante retorno do trauma do 7 x 1, só serve para fechar portas e para criar mais barreiras, pois são apenas manifestações que tentam um valorização pela desvalorização do trabalho do outro. E isso não é bom!

Vamos lá! Como é que uma equipe desarranjada e desequilibrada emocionalmente tem nesse jogo o melhor desempenho em passe em relação aos outros adversários que enfrentou, exceção ao jogo da Costa Rica, sendo que este era a equipe com melhor ranking? Como é que há um desarranjo coletivo e o Philippe Coutinho põe uma bola daquela na cabeça do Renato Augusto. Se houvesse um desequilíbrio emocional como explicar o nível de precisão? Foi o jogo em que o Brasil mais chutou de dentro da área (16 vezes). Significa que por diversas e diversas vezes o Brasil passou pela segunda linha da Bélgica, mais do que contra os outros adversários. Mas o que importa é o resultado final!!!! Não! Não é verdade. Ou aprendemos a criar uma cultura esportiva que veja do esporte como ele é ou continuaremos nos frustrando.

Este é um ponto fundamental. É dominante nos textos a expressão “não rendeu o que esperávamos”… bom, estamos no mundo das expectativas e não da realidade!! Expectativa de quem? Vamos continuar nos confrontando entre o real e o ideal. O Brasil não jogou um futebol brilhante. Depois de 1970, a Copa mais brilhante foi a de 1982 e o Brasil não ganhou!!! Isto é esporte de altíssimo rendimento e nesse cenário há outras equipes de altíssimo rendimento, não apenas o Brasil. E não vi na preparação dessa Copa e na Copa qualquer comportamento da comissão técnica e dos atletas que dessem indícios de que o Brasil estava em uma posição de vantagem em relação aos demais.

Cansei de ouvir ao longo dos anos, inclusive da imprensa esportiva que era necessário planejamento e trabalhos de longo prazo. Não foi isso uma das motivações para levar o Tite como técnico da seleção? Espero que renovem com ele! Li que o Tite deveria pensar em não renovar se fosse campeão, pois haveria dúvida de que obtivesse um novo título, caso tivesse ocorrido. Esse é um pensamento peculiar no Brasil. É o mesmo que dizer que o Steve Kerr (Técnico do Golden State Warriors), três vezes campeão nos últimos 4 anos da NBA, que após o primeiro título ele não deveria renovar. Ah! Ele ganhou mais 2 e perdeu uma final, que entrou para a história do basquete americano como a primeira vez que um time ganhando de 3 x 1 nas finais tomou uma virada. Eles perderam de 4 x 3 para os Cleveland Cavaliers. É mais ou menos o nosso 7 x 1. Qual a lógica desse tipo de pensamento?

Então por que temos de nos centrar ou arrumar erros para a derrota? Por que temos de caçar culpados? Por que temos de execrar os NOSSOS? Por que temos de recorrentemente trazer o 7 x 1 para o cenário como se ele fosse causa da derrota para a Bélgica? Por que temos de trazer e evocar que vários dos jogadores estavam no 7 x 1? Qual a comprovação de causa e efeito do 7 x 1 com o resultado do jogo contra a Bélgica? Sabe qual? NENHUMA!!!

Continuaremos nos martirizando como fizemos após a Copa de 1950? Com o “Maracanaço”, que é seguido pelo período mais brilhante da história do futebol brasileiro e talvez mundial. Mas que jogou ao sacrificou uma geração de jogadores. Será que teremos de rotular como fizemos na Copa de 1990? “Era Dunga” que é seguida por três finais seguidas de mundial, com duas conquistas.

Agora tudo é o Tite que errou!!! O Brasil foi mal escalado?!!! Gostaria que provassem que se ele tivesse mudado a escalação o Brasil teria ganho o jogo? Provem??!!! Não dá para provar.

Se ele tivesse alterado e perdido, as chamadas das matérias seriam as seguintes “Os erros de Tite causam a eliminação”, portanto na derrota o lead é o mesmo. Querem outra, “Por que TITE mudou o time que estavam embalando”, mais uma “Queda de rendimento de Neymar, Philippe Coutinho e William passa pelas mudanças que TITE fez”. Talvez seja o aspecto mais severo e que poucos se atentem. A frase final já está pronta, em razão dela independer do desempenho, depende apenas e somente do resultado. O intermédio é irrelevante.

Interessante que alguns comentaristas esportivos apontaram que os erros do Tite estavam, por exemplo, na convocação do Taison. Questionaram o que o Taison estava fazendo na Copa se não entrou. Há duas perguntas a serem feitas? A primeira: A Seleção Brasileira passou a fazer parte de jogos cooperativos? Que todos os convocados têm de participar das partidas. A segunda pergunta contém a resposta da primeira: Quantas vezes na história das Copas do Mundos de todas as seleções, todos os jogadores convocados entraram nos jogos?

Outra aventada foi a teimosia do Tite em suas convicções e por isso ele não alterou a equipe. Novamente provem que as alterações teriam surtido efeito? Se ele tem que alterar suas convicções conforme o contexto. Temos com resultado final que ele não tem convicções. Espero sinceramente que ele renove teríamos uma mudança importante de olhar e de comportamento quanto ao planejamento esportivo. Pensem o trabalho longitudinal feito na Alemanha. Todos os anos de comando do Joaquim Low e que já está renovado até 2022. Alguém questionará, mas perdeu na primeira fase pela primeira vez na história da Alemanha? Verdade, mas o que está sendo olhado é o trabalho e não o resultado pontual. Outra para mim é muito melhor: o Tite protegeu os atletas. Ora essa tipo de apontamento faz parte de um véu negro. É desconhecer os modelos de liderança no esporte contemporâneo, de coesão, de comunicação e confiança necessários para formar uma equipe. É a primeira copa em anos em que não se ouviu de problemas de comportamento intra e extra campo.

Poucos dos questionamentos feitos após a derrota se sustentam em evidências claras. Em sua maioria são especulações. Mas há opiniões divergentes. Ótimo. Mas especialista não deve dar opinião sem fundamentação. O que ocorreu no jogo para nós não foi o esperado. Na verdade, o resultado pode estar desconexo em alguns casos do desempenho. Na minha visão foi o que ocorreu. E as estatísticas de jogo dão força a isso. Um dos alicerces da ciência é a criação e comprovação de hipótese e elas podem sem amparadas na simulação de cenários com “ses”. Se a bola que bate na coxa do Thiago entra o jogo teria sido diferente? Ou a Bélgica teria conseguido virar o jogo? Se tirasse o William depois do melhor jogo dele na Copa (contra o México) e entrado Douglas Costa e perdêssemos o jogo. As críticas continuariam sendo contundentes.

As informações sobre os jogos com diversos tipos de análises estão disponíveis no site da Copa do Mundo, basta acessá-los e analisar com calma.

Não entrei especificamente na análise de nenhum jogador nem de desempenho em campo nem fora dele. E não farei antes de coletar mais algumas informações, mas já tenho uma clara ideia sobre o que dizer sobre a repercussão e as cobranças que estão sendo feitas.

Obrigado pela paciência se chegou até o final!

Flávio Rebustini – É pós-doutor pela UNESP e pela Universidade de Quebec em Trois-Rivieres. Coordena o curso de Pós-graduação em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com