Agora esporte olímpico, escalada cresce e pede passagem

26 de junho de 2018 ● POR Redação

Por Alessandro Lucchetti

“Higher Than Ever”. Foi com esse feliz slogan que a IFSC (International Federation of Sport Climbing) festejou a inclusão da escalada esportiva na programação dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Por aqui, a exposição que o esporte obterá deverá reforçar o crescimento da modalidade. Essa é a aposta de José Ricardo Auricchio, professor de Educação Física especializado em Educação Física Escolar e Esportes e Atividades de aventura.

“Algumas áreas da Educação Física estão de fato saturadas. É o caso de quem faz licenciatura e vai dar aulas baseado no famoso quarteto fantástico (handebol, basquete, futsal e vôlei). Vejo o mercado da escalada como bastante promissor. O esporte está crescendo. Algumas academias e escolas estão instalando paredes de escalada. Quem entender da parte técnica do esporte e souber montar um treino de força para auxiliar o praticante, por exemplo, será certamente um professor diferenciado”.

Auricchio entrou no mundo da escalada praticamente por acidente. Dava aulas de artes marciais numa academia que tinha uma parede de escalada. Por curiosidade, pediu orientação ao dono do estabelecimento, um ex-escalador, e começou a fazer suas peripécias. Com o tempo, conheceu um escalador de rochas que lhe mostrou como esse esporte é ao ar livre. Desde 99, Auricchio lidera o Cantareira Adventure Team, criado por um grupo de praticantes de esportes na natureza nascidos nos arredores da Serra da Cantareira, em São Paulo. Com o tempo, passaram a trabalhar com Ecoturismo, oferecendo atividades como escalada, rapel, trekking, mountain bike, cursos de primeiros socorros, técnicas verticais, caving e espeleologia.

Se muita gente corre motivada pela liberação de hormônios como a dopamina e a endorfina, os esportes radicais oferecem descargas não apenas dessas substâncias, mas também de adrenalina. “Eu tinha muito medo de altura quando comecei a praticar o esporte. Subia dez metros e já sentia uma descarga de adrenalina absurda. O medo tem que estar presente sempre, porque nos induz a ter um comportamento mais seguro. E ele está ligado à forte emoção que sentimos ao se completar uma via. É esse prazer que faz tanta gente repetir a experiência de fazer uma escalada depois de se iniciar no esporte”, diz o professor.

As crianças em idade escolar que praticam o esporte acostumam-se a pensar rapidamente e a tomar decisões. “O esporte melhora o repertório motor e as auxila a desenvolver a forma de resolver problemas. Não temos ainda 20 anos de estudos sobre a escalada como esporte, mas creio que ainda será demonstrado que essa habilidade pode ser levada pelas crianças para suas vidas”, diz Auricchio.

Os benefícios físicos são facilmente observáveis. Os ganhos de força, sobretudo nos membros superiores, são evidentes em quem pratica escalada por três vezes por semana. “O aumento da pressão palmar que os escaladores estudantes adquirem melhoram até a escrita. Observa-se também que os praticantes de judô que fazem escalada também se beneficiam disso para melhorar a pegada no quimono”.

Percebendo todos esses benefícios, não são poucas as escolas que instalaram paredes artificiais de escalada, até mesmo como forma de marketing. Auricchio calcula que, apenas na Grande São Paulo, 30 escolas disponham desse equipamento, incluindo uma pública, na Zona Norte da capital. “Em colaboração com os alunos, foi construída uma parede, recebendo agarras doadas. Se você colocar as agarras numa parede de tijolo, uma parede dessas sairá por uns R$ 2 mil. Caso você construa uma estrutura de ferro e madeira, poderá custar de R$ 10 a R$ 15 mil”, afirma o especialista.

São Bernardo do Campo chegou até a incluir a modalidade em suas políticas públicas de esporte. Foi construída uma parede no Parque da Juventude Città di Maróstica, contando com instrução gratuita, mas a manutenção insuficiente levou a Defesa Civil a interditar a área.

Mas nem tudo são flores na popularização do esporte. Vinte anos atrás, quando o esporte começou a crescer no Brasil, os equipamentos, todos importados, eram caros, o que fazia da escalada uma modalidade de elite. “A gente brinca que a Decathlon mudou tudo isso, com equipamentos importados, de boa qualidade, a preços mais razoáveis. Isso passou a representar um perigo a partir do momento em que as pessoas passaram a comprar equipamento, ver vídeos na internet e começar a escalar sem nunca terem tido instrução. No Cantareira Adventure Team, nosso curso tem 40 horas de aulas teóricas e mais 20 de práticas. Está crescendo o número de acidentes e nós mesmos acabamos fazendo resgate na Pedreira do Dib (Serra da Cantareira), onde há 70 vias de escalada”, diz Auricchio.

Outro estado em que a modalidade apresenta franco crescimento é Minas Gerais, graças ao relevo das Alterosas, com destaque para a bela região da Serra do Cipó, um dos polos do esporte no Brasil. Na Universidade Estadual de Maringá (PR), um grupo de pesquisadores realiza um interessante projeto de extensão, levando esportes radicais, entre eles a escalada, a escolas públicas.