“Comunidade não é sinônimo de carência, mas de potência”, diz especialista em políticas públicas

05 de março de 2018 ● POR Redação

Há muitos anos o Brasil se ressente da falta de uma política esportiva federal digna de receber esse nome. Mas isso não significa que os formuladores de políticas públicas no Brasil estejam dormindo no ponto. O que temos são diversos projetos, nem sempre articulados entre si. Ainda assim, algumas iniciativas rendem excelentes frutos. É o caso do Programa Segundo Tempo, implementado pelo Ministério do Esporte, que revelou o canoísta baiano Isaquias Queiroz, primeiro brasileiro a conquistar três medalhas olímpicas numa mesma edição dos Jogos Olímpicos.

Idealizador do programa Cultura Viva e dos Pontos de Cultura, na gestão de Gilberto Gil à frente do MEC, Célio Turino hoje atua como conferencista e divulga projetos e colabora na implantação de leis e políticas públicas, tendo já atuado na Guatemala, Argentina, Peru, Colômbia, Costa Rica, México e Espanha.

Durante sua gestão na Secretaria de Cultura e Turismo de Campinas, entre 1990 e 92, no mandato do prefeito Jacó Bittar (PT), Turino implantou com grande sucesso o “Recreio nas Férias”, projeto que replicou na gestão de Marta Suplicy (2001 a 2004) na prefeitura da capital paulista, na qual ocupou o cargo de Diretor de Promoções Esportivas e Lazer. O programa foi depois adotado pelo Ministério do Esporte, e hoje é conhecido nacionalmente.

O “Recreio nas Férias”, de forma resumida, é a utilização de equipamentos públicos para o oferecimento de esporte, lazer e cultura para melhor aproveitamento do tempo livre de crianças e adolescentes.

Turino já foi até recebido pelo Papa Francisco, que tomou inspiração nos Pontos de Cultura, entre outros programas, para reformular o Scholas Ocurrentes, que pretende atingir 200 milhões de jovens em 20 anos de atividade. O indaiatubense de 56 anos, formado em história pela Unicamp, tem um curso de especialização em Administração Cultural pela PUC de São Paulo. Embora valorize o conteúdo que se aprende na academia para a formulação de políticas públicas, Turino alega que falta vontade para que bons projetos conheçam a luz do dia. Em português claro, trata-se da conhecida atitude de “meter as caras”.

“Nós implementamos o ‘Recreio nas Férias’ em 90, quando havia decorrido um mês de governo Collor. Era um período muito acirrado. Na época, o Antônio Carlos Gomes da Costa estava na Unicef e havia uma verba de 100 mil dólares para recebermos as crianças nas escolas, durante as férias, e oferecer lanche e algumas atividades esportivas e culturais. Era um bom dinheiro na época, mas muitos governos do PT não quiseram receber essa verba, porque temiam que se vinculasse qualquer iniciativa desse tipo ao governo Collor. Mas esse projeto chegou na nossa mesa e resolvemos inverter o projeto, focando em lazer, ocupação da cidade, turismo social”.

Segundo Turino, muitas crianças da periferia sequer conheciam o Parque Taquaral, principal área verde de Campinas. “Fizemos uma maluquice de divulgar muito esse programa na cidade. E o resultado é que atendemos 90 mil crianças. Lembro que a população da cidade, na época, era de 900 mil habitantes. Ou seja: atendemos uns 10% da população. Nós ocupamos espaços culturais, abrimos para entidades comunitárias e demos atividade a oficineiros de arte, lazer e esporte. O pessoal do Unicef até foi para a cidade para ver o que estava acontecendo”.

Turino tem uma explicação simples para esse sucesso: vontade. “Eu tinha 29 anos e estava doido para fazer coisas. Não tínhamos muito planejamento. Se alguém chegasse com uma proposta de se recuperar um terreno baldio para fazer um campo de futebol ou abrir uma rua (fechar o trânsito) para atividade de lazer, nós acolhíamos. Acolhíamos o que vinha da comunidade”.

O projeto assumiu diferentes roupagens e foi implementado até em presídios. “Contratamos presidiários como monitores de recreação e lazer. Eles promoviam oficinas de pipas, por exemplo, e atividades esportivas. Lembro que os meses de atividade do projeto apresentavam excelentes números. Todos os meses havia conflitos internos. No mês de julho de 90, quando implantamos no presídio de Hortolândia, não houve nenhum conflito”.

Nos anos seguintes, o projeto se abriu para os idosos. “Incorporamos o pessoal mais velho. Fizemos parceria com mais de cem entidades comunitárias e Escolas de Samba, com muita programação de teatro. Essa atividade fez muito bem aos idosos, que criaram vínculos com as crianças. O pessoal do Unicef veio novamente e gostou muito”.

Em números percentuais, a replicação da atividade na capital paulista não alcançou tanto sucesso. Mesmo assim, atingiu 200 mil crianças. “Ocupamos todos os Centros Esportivos Municipais (CDM). Pegamos o quadro de professores de Educação Física da SEME, que era velho e desmotivado, e conseguimos engajá-los. Os professores da rede pública também trabalharam: eles ganhavam um extra e formação no Sesc. Levávamos 15 mil crianças por dia ao Sesc Itaquera, por exemplo. Movimentávamos mil ônibus por dia, cheios de crianças, durante as férias”.

Turino enxerga um pouco de burocratização na construção de políticas públicas. “Os estudos estão sempre muito cheios de indicadores. Na verdade, você tem que ir fazendo. O segredo, para dar certo, é o vínculo comunitário. Às vezes as atividades eram muito simples. O grosso das propostas vinha da comunidade. Se propusessem um campeonato de queimada na rua, fazíamos um campeonato de queimada na rua. As coisas aconteciam espontaneamente. Eu lembro que, em Campinas, recebemos, uma vez, muita doação de bananas. E aí apareceram várias tortas, cucas e bolos de banana, feitos por quem? Pelas mães das crianças”.
“Ir criando no fluxo” é uma expressão que agrada a Turino. “Acho importante estudar a teoria, mas é preciso ter uma visão mais redonda, menos quadrada”.

A maior parte dos projetos de políticas públicas, na opinião de Turino, padece de alguns vícios. “A gente trabalha com o conceito de estruturar as coias de baixo para cima. As políticas públicas são construídas, no Brasil, de cima para baixo. Você trabalha sempre com a visão da comunidade como carente. Quando se passa a enxergar a comunidade como fonte de potência, a coisa se inverte”.

Atua como conferencista e divulgador da teoria de conceitos dos Pontos de Cultura e da Cultura Viva, auxiliando na implantação de lei e políticas públicas em diversos países da América Latina (Argentina, Peru, Colômbia, Costa Rica, Guatemala e México, entre outros) e Espanha;

Idealizador e gestor do Programa CULTURA VIVA e dos Pontos de Cultura. Política Pública referência para diversos países da América Latina e Europa, com mais de 3.000 Pontos de Cultura espalhados em 1100 municípios do Brasil e beneficiando 8 milhões de pessoas. O programa contempla ações como: Cultura e Saúde, Escola Viva, Agentes Jovens de Cultura, Valorização da Cultura tradicional e dos mestres Griôs, Cultura lúdica e Infantil, Interações Estéticas (residências artísticas em Pontos de Cultura, incluindo intercambio internacional), Mídia Livre, Cultura Digital, entre outros;

História – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (Graduação 1979/1984 e Mestrado 2000/2004)
– Especialista em Administração Cultural – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP (Pós Lato Sensu – 1986)