O aprendizado de vôlei vai além das quadras no Instituto Compartilhar

14 de novembro de 2017 ● POR Redação

O voleibol brasileiro é amplamente reconhecido pelo seu sucesso: o país é o maior campeão do planeta com nove títulos mundiais no masculino e doze Grand Prix conquistados pelo feminino. A Superliga Brasileira de Vôlei é um campeonato de altíssimo nível e que bate de frente com as competições europeias. O que nem todos sabem, entretanto, é que o esporte também funciona como ferramenta social no país.

O Instituto Compartilhar, organização sem fins lucrativos, promove aulas de vôlei para crianças entre 9 e 15 anos, mas seu foco não é a performance dentro de quadra. Os valores de cooperação, responsabilidade, respeito e autonomia são os pilares que regem o Instituto, conta Luiz Fernando Nascimento, ou Nando, o gerente executivo do projeto: “Nos baseamos no minivôlei, metodologia da Federação Internacional de Voleibol. Inserimos os valores dentro dessa metodologia”.

Ele ainda acrescenta que as particularidades do esporte são favoráveis para que a transmissão de valores aconteça: “A tomada de decisão no vôlei é um conceito a se levar para a vida. Com 14, 15 anos, a criança já sabe que terá de fazer decisões importantes”. A parte prática, portanto, é essencial para que os alunos compreendam os conceitos passados pelo professor: “Não adianta fazer uma aula sobre cooperação e não colocar na prática”.

Fundado no Paraná em 2003 por Bernardinho, icônico ex-técnico da seleção brasileira, o Compartilhar foi fruto de uma boa experiência de um projeto que se iniciou em 1997 junto ao governo do estado. Depois de esquematizar o funcionamento da organização, o idealizador voltou ao Rio de Janeiro; Nando, que já estava envolvido com seu grupo de trabalho, preferiu ficar: “Não quis voltar para o Rio pois já estava com doze anos de equipe em Curitiba”.

Nesses 14 anos de estrada, o Instituto já possui 42 núcleos espalhados pelo país e mais de 22 mil alunos já passaram pelas aulas. Em seu site, é possível encontrar inúmeras pesquisas que controlam os resultados da metodologia: “Quando se tem tantos núcleos, você tem que exigir e convencer que os controles são importantes pro processo e vão melhorar o conhecimento do professor e sua aula de educação física”.

Os educadores, muitas vezes, são vistos com admiração pelos alunos e acabam se tornando uma referência para toda a vida. Lucas Eidi, ex-aluno do projeto, confirma essa imagem e também acrescenta os benefícios trazidos pelo Compartilhar: “Com os valores que aprendi lá pude ter maior oportunidade de tentar conhecer pessoas, entendê-las e fazer amizades”.

Kaoana Deuchmann foi ainda mais longe. Depois de passar pelo Instituto dos 9 aos 16 anos, ela decidiu seguir carreira na enfermagem, uma profissão em que poderia manter o contato com o vôlei, e acabou se tornando voluntária do projeto.

Ela mantém contato com vários professores da sua época como aluna, um deles até a levou para jogar voleibol em um clube. Encontrar talentos acaba sendo uma consequência das aulas, mas não é a prioridade, de acordo com Nando: “São alguns casos de sucesso, mas não é a intenção inicial”.

Kaona, era uma pessoa muito fechada antes de entrar no Instituto: “Não sabia trabalhar com pessoas, o projeto me ajudou muito em relação a isso e a saber lidar com elas e respeitá-las”. Retornar ao projeto, então, foi como um presente: “Eu me vejo nas crianças e como eu evoluí, entrei crua e saí com uma bagagem muito grande”.

Nando explica isso pelo “efeito esporte” promovido pela metodologia, ele é o que causa esse retorno: “Algumas crianças que entram com comportamento acelerado recebem um calor humano, começam a se identificar com o professor e pensam ‘eles são muito importantes na minha vida’”.

Nem todos alunos escolhem seu futuro por influência do projeto, mas eles costumam manter contato com seus núcleos e ajudar como podem: “Muitos ex-alunos aparecem nas aulas para ajudar o professor porque tem uma recordação positiva”, conta Nando. Lucas diz que não tem mais tempo para se dedicar ao Compartilhar por conta da faculdade de Engenharia, mas confirma as boas lembranças: “Dá saudade”.