Política esportiva invertida: tivemos Olimpíadas, mas não temos nem quadras nas escolas

19 de junho de 2017 ● POR Redação

“A gente não aguenta mais discutir. Fazemos três, quatro encontros, que geram documentos muito bons. E esses projetos morrem na paralisia do Congresso. Já houve três conferências organizadas com o objetivo de se formular uma política de Estado esportiva para o Brasil. A gente não aguenta mais debater”.

“Ter pistas de atletismo revestidas com material emborrachado, certificadas pela Iaaf, é para atletas de alto rendimento. Precisamos de pistas também para as pessoas que vivem no bairro onde elas (as pistas) estão. Com chão de terra, piso de carvão. Ter uma pista de atletismo tão cara para atender a amadores é como dar um tiro de bazuca para matar uma formiga”.

Ana Moser, vice-campeã do Mundial de Vôlei de 94, medalhista olímpica (bronze) dos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996 e diretora do Instituto Esporte e Educação

“Fui a um desses debates no Senado sobre política esportiva. Um senador do Acre, não me recordo o nome, referiu-se ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) como ‘a’ COB. Eu entendo que os senadores se ocupem de diversos outros assuntos e que o esporte não seja prioridade num país carente de tudo. Mas eles deveriam se preparar um pouquinho mais antes de participar de uma atividade como aquela”.

Alberto Murray, graduado em Estudos Olímpicos pela Academia Olímpica Internacional em Olímpia, Grécia. Árbitro da Corte Arbitral do Esporte, membro do COB de 96 a 2008, diretor da ONG Sylvio de Magalhães Padilha, que estimula a divulgação dos ideais olímpicos.

O país que realizou a mais recente edição dos Jogos Olímpicos não tem uma política esportiva que possa merecer esse nome. Encerrada a festa, restaram contas ainda não pagas e instalações olímpicas caríssimas não devidamente utilizadas pelos atletas brasileiros de alto nível, tampouco pelos cidadãos que habitam os bairros de seu entorno.

Em vez de oferecer esporte à população, beneficiando crianças, adultos e idosos, extrair talentos dessa massa de praticantes, treiná-los com estrutura adequada, organizar os Jogos Olímpicos e aí então mostrar ao mundo toda a capacidade esportiva nacional, o Brasil tornou-se sede do evento e investiu rios de dinheiro público nos escassos atletas que despontaram, num esforço malogrado para se situar entre os dez países com o maior número de medalhas da Rio-2016 (o Brasil encerrou sua participação na 13ª posição).

Murray, neto de Sylvio de Magalhães Padilha (presidente do COB de 1963 a 1990), é um advogado que acompanhou, in loco , todas as edições dos Jogos Olímpicos desde 1972. Estudioso dos temas olímpicos, vê sérios problemas no Ministério do Esporte, que, desde sua criação, foi feudo de políticos do PFL (hoje DEM), passou para as mãos do PC do B, daí para os evangélicos do PRB para então repousar sob controle do PMDB. Murray se pergunta até mesmo se deve existir um Ministério do Esporte.

“O Ministério do Esporte e nada é a mesma coisa, é um órgão que simplesmente repassa recursos, e tem menos funcionários do que uma empresa de porte médio. Se pensarmos num organograma, onde entraria o esporte? Ele tem um papel que tem a ver com a política de saúde e também com a de educação. Antes (até o primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso), era uma secretaria do MEC, e acho que fazia mais sentido. O esporte e a educação deixaram de conversar. É difícil ter uma política esportiva de base sem passar pelas escolas”.
Segundo Murray, historicamente, o esporte “entrou pela porta errada”. “O governo Lula é o que mais investiu em esporte, acho que se encantou por essa coisa de medalhas olímpicas. Pergunto como estaria hoje o esporte brasileiro se, em vez de organizar os Jogos Olímpicos, o País tivesse investido esse dinheiro em políticas de massificação do esporte, para levar a população a praticar esportes onde hoje eles sequer existem?”.

Nessa realidade alternativa imaginada por Murray, haveria centros esportivos locais espalhados pelo Brasil, com professores de educação física competentes, bem remunerados, trabalhando com entusiasmo.

Em vez disso, temos alunos de escolas públicas tendo um contato muito precário com o mundo do esporte em seus anos de formação. “Não me recordo exatamente o percentual, mas muitas escolas públicas não têm praças esportivas. Parte das que existem são quadras com um cimentão meio esburacado. As crianças crescem achando que o esporte é aquilo. Praticam, nas aulas, da forma que dá, umas misturas de futsal com queimada. Acho que precisamos discutir essa reforma do ensino. É necessário colocar o esporte na grade escolar com a mesma relevância das outras matérias. Parece-me que ele é visto, infelizmente, como um professor de segunda classe, que dá uma matéria que está ali no currículo porque tem que estar”, analisa Murray.

O Censo Escolar de 2015 apontou que 65,5% das unidades públicas do País não contam com quadras esportivas. Esse número melhorou um pouco em relação ao de 2013 (68,1%), mas deixa patente o grau de dificuldade do aprendizado associado à educação física, componente curricular obrigatório do ensino básico.

Na opinião do especialista em olimpismo, é necessária uma transformação na mentalidade. “O esporte ainda é visto como recreação, mas é muito mais do que isso. Há pesquisas que mostram uma equação: cada dólar investido em esporte pelo poder público significa três dólares economizados na saúde. Vemos todo o incentivo que os pais norte-americanos transmitem aos filhos, para que se entusiasmem pelo esporte. É claro que eles enxergam vários benefícios no esporte, mas um deles é puramente econômico: caso seus filhos se destaquem em alguma modalidade, futuramente poderão pleitear uma bolsa universitária e isso representará um alívio muito grande nos gastos com educação”.

O desporto brasileiro de alto nível tem um modelo bem difente do norte-americano, que se assenta fortemente sobre o desporto universitário. “Aqui, a maneira que se encontrou, e isso vem desde os tempos em que Zico e depois Bernard ocuparam a Secretaria de Desportos (ao longo do governo Collor), foi financiar gastos de confederações com dinheiro de estatais. Sou contra fazer isso sem contrapartida, sem investimento no esporte para todos. Veja o que ocorria nos tempos em que a Eletrobras patrocinava a CBB (Confederação Brasileira de Basquete): o dinheiro entrava na confederação e parte ia para o alto rendimento, mas os campeonatos brasileiros de base eram lastimáveis e paupérrimos. Não se pode construir a casa começando pelo telhado”, assinala Murray. “O ente estatal deve fazer exigências, reforçar sempre a necessidade no investimento em esporte para a população”.