Autofagia e jejum: segundo Nobel de Medicina, isso nos faz viver mais

12 de dezembro de 2016 ● POR

Parece estranho imaginar que ficar sem comer pode melhorar nossa saúde, mas quem afirma isso é o ganhador do Nobel de Medicina e Fisiologia deste ano, Yoshinori Ohsumi. Segundo ele, existe uma relação entre autofagia e jejum. A autofagia é o processo intracelular que faz as células se reciclarem – e isso também acontece quando fazemos jejum. Essa renovação nos faria viver mais.

O organismo seria capaz de se reciclar? Parece que sim. Pelo menos, Yoshinori levou o maior prêmio da ciência por suas pesquisas acerca deste fenômeno, a autofagia, mecanismo pelo qual células digerem partes de si mesmas.

Autofagia – o que é?
O conceito de autofagia foi descoberto nos anos 1960. Mas pouco se sabia até o início dos anos 1990, quando Ohsumi começou a fazer experiências com levedura para identificar os genes envolvidos na autofagia. Ao compreender os mecanismos, o cientista conseguiu relacionar autofagia e jejum – e mostrar um processo semelhante que ocorre nas nossas células.

Mecanismo da autofagia intracelular: ilustração 3D do Nobel de Medicina 2016Mecanismo da autofagia intracelular: ilustração 3D do Nobel de Medicina 2016

A autofagia está envolvida em vários processos, como o desenvolvimento do embrião, o câncer e as doenças neurológicas. As descobertas do Nobel de Medicina abrem portas para compreender o papel da autofagia em doenças neurodegenerativas, câncer, diabetes tipo 2 e processos como a adaptação à fome e a resposta a infecções.

Quando o organismo está desnutrido, a autofagia é uma estratégia de sobrevivência que permite que a célula redistribua os nutrientes para as atividades essenciais. Além disso, destrói organelas celulares (estruturas que ficam dentro das células e executam funções importantes para a manutenção da vida) já desgastadas ou envelhecidas, fazendo uma espécie de “controle de qualidade”.

A redução da autofagia leva ao acúmulo de componentes danificados, o que está associado à morte das células e ao desenvolvimento de doenças. Por essa lógica, manter o mecanismo ativo seria uma forma de prevenir problemas: este seria o principal link entre autofagia e jejum.

Perda de peso ou aumento da expectativa de vida?
Muita gente que quer perder peso costuma ficar em jejum, mas imaginar que a prática pode aumentar a expectativa de vida pode soar um pouco estranho para quem é adepto de um estilo de vida saudável; afinal, uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes é fundamental para uma boa saúde. Porém, o Nobel de Medicina afirma que o jejum faz as células se comerem – e isso te renova por dentro.

Essa autolimpeza no organismo é ativada quando a célula está em situações de estresse, como ficar algum tempo sem se alimentar. Nestes casos, a célula passa a “comer” partes internas para sobreviver, degradando tudo o que tem de ruim. Quanto mais o mecanismo funciona, maior a faxina.

Autofagia e jejum
O jejum induz à autofagia e agora os especialistas precisam de novos estudos para entender a conexão entre a autofagia ativada pelo jejum e a longevidade das células, além de descobrir exatamente a frequência de jejum que seria benéfica e segura para o organismo. São necessárias mais pesquisas para traçar uma indicação ideal do tempo que deveria durar o jejum para garantir esses benefícios.

Além do jejum, outra forma de ativar a autofagia seria a restrição no consumo de alimentos. Mas, segundo estudos, a redução deve variar entre 20% a 60% do consumo de calorias total, priorizando carboidratos e proteínas. Porém, atenção: privar-se de nutrientes por muito tempo faz o mecanismo funcionar de outra maneira e os efeitos são negativos. Essa “faxina interna” deve durar tempo suficiente para trazer benefícios e não problemas.

Segundo especialistas esse jejum não deve durar mais do que 24 horas e precisaria ser feito de forma periódica, apenas por pessoas saudáveis. E pode ser específico: cortar carboidratos e proteínas, por exemplo.

Cuidados
Atenção, durante o jejum é importante manter o consumo de água e de sais minerais, evitando a desidratação e o aumento da pressão arterial. E só faça isso sob orientação do seu médico e nutricionista.