O perigo silencioso das doenças assintomáticas

13 de janeiro de 2006 ● POR Redação

Temos que ter uma posição ativa na busca das formas de minimizar os fatores de risco das doenças a fim de evitar complic

Temos que ter uma posição ativa na busca das formas de minimizar os fatores de risco das doenças a fim de evitar complicações
Diálogo telefônico:
– Boa noite, o doutor não me conhece. O senhor me foi indicado para tentar ajudar meu marido, que está na UTI após ter sido operado de rotura de aneurisma da aorta abdominal. Não sei bem o que é isso, mas creio que seja grave. Ele está entubado e dependente de aparelhos e de drogas para sobreviver. Posso contar com a sua colaboração?
– Sim, mas antes preciso saber quem é o médico que o acompanhava.
– Médico, que médico? Meu marido tem 72 anos e nunca sentiu nada. Não faz consultas há muitos anos nem toma remédio, embora seja obeso, nervoso e fume muito.
– Foram poucas visitas à UTI, visto que o paciente resistiu por apenas três dias. Todas as vezes em que me encontrei com a família me foi perguntado como era possível uma doença tão grave passar totalmente desapercebida. É aí que nos falta, geralmente, um conceito fundamental, principalmente para os que vivem a sua segunda metade da vida. A maioria das doenças importantes, que provocarão as graves limitações durante o envelhecimento, é totalmente assintomática na maior parte do tempo, até que se manifesta de forma explosiva. Assim ocorre com a hipertensão arterial ou com a osteoporose. Outras provocam sinais e sintomas que são erroneamente aceitos como “próprios da idade”, como as dores articulares e os declínios de memória, de audição ou de visão. Não há por que aceitar isso como natural. Como regra, recomendo pensar que, quando uma função apresenta súbito declínio, em qualquer idade, esse fato deve ser entendido como conseqüência de uma enfermidade. Torna-se fundamental que saibamos procurá-la. Erra, porém, quem acha que isso depende de um processo complexo e caro. A maioria das doenças aqui referidas é diagnosticada mediante uma boa avaliação clínica, que inclui uma detalhada troca de informações e um exame físico. Evidentemente, o médico deve estar preparado para saber o que está procurando. Um dos maiores médicos de todos os tempos, sir William Osler, postulou, há mais de um século, que “quem não sabe o que busca não sabe o que fazer com o que encontra”. Para tal, faz-se necessária a mistura correta de conhecimento, interesse e empatia. O profissional deve conhecer e se interessar por todo o universo que envolve o cliente, e este poderá contribuir para o sucesso da interação quanto mais participativo for. Os outros fatores, como exames laboratoriais e de imagens, são complementares. Em cada fase da vida, porém, há peculiaridades de forma e de conteúdo nessa fantástica composição de arte e ciência. O respeito a essas diferenças permite que a intervenção seja mais eficaz, utilizando adequadamente os recursos necessários. O caso acima relatado é um bom exemplo dessa condição. Tivesse esse paciente passado por uma avaliação periódica, não apenas os fatores de risco que contribuíram para a formação desse aneurisma teriam sido evitados ou tratados bem como essa dilatação arterial poderia ter sido detectada por uma simples palpação do abdome. Que pena. Foi desperdiçada uma chance de evitar essa grave doença. Além disso, não foi possível aproveitar a oportunidade de detectá-la, de forma simples e eficaz, antes que produzisse uma grave complicação. Infelizmente, perdemos todos. Paciente, familiares, profissionais e os sistemas de saúde. Todos foram muito onerados, física e emocionalmente. Não basta, porém, torcer para que isso não ocorra. Todos temos que adotar uma posição ativa em busca das formas de minimizar os fatores de risco das doenças, bem como diagnosticá-las em fase inicial de desenvolvimento a fim de evitar suas complicações, principais causas de perda da autonomia e da independência no transcorrer da vida. Sábio, portanto, é quem procura quando tem condição de tratar.
WILSON JACOB FILHO, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas (SP), é autor de “Atividade Física e Envelhecimento Saudável” (ed. Atheneu)