A importância do “jeitinho”

16 de novembro de 2012 ● POR Redação

Um povo que conhece a sua cultura e adota em relação à mesma uma conduta crítica, tem melhores condições para avaliar a importância, efeitos e utilidade das influências estrangeiras.

E portanto consegue reduzir o deslumbramento pelas técnicas e modismos importadas ou geradas por gurús que se julgam “globais”.

O livro de Lourenço Garcia, “Dando um jeito no jeitinho – Como ser ético sem deixar de ser brasileiro” é uma significativa contribuição para reflexões sobre as nossas origens, realidade presente e perspectivas futuras.

Contador na sua origem profissional, Lourenço se deparou muitas vezes com o pedido de clientes para que “desse um jeitinho na contabilidade das suas empresas”. E sabemos perfeitamente que este “jeitinho” tinha como finalidade enganar o fisco e pagar menos impostos. Alguns destes dilemas, mais a própria vocação o levaram para a teologia. Hoje o autor é mestre em Teologia com especialização em Ética. E no contato com seus novos “clientes”, os membros da Igreja Batista da qual é pastor, verificou que as dúvidas morais em relação ao “jeitinho” continuavam.

Resolveu então estudar o assunto para uma Dissertação de Mestrado com especialização em Ética. E esta dissertação transformou-se em livro. Quem já leu “Raízes do Brasil”, de Buarque Holanda ou “O que faz o Brasil, Brasil?” de Roberto da Matta – para ficar apenas em dois autores – vai encontrar no livro “Dando um jeito no jeitinho…” uma ótima resenha de vários trabalhos anteriores além de uma contribuição com peculiaridades interessantes.

Após introduzir o tema através de uma visão d’O Brasil do jeitinho, Lourenço discorre sobre “O lado positivo do jeitinho” e “O lado negativo do jeito” em dois capítulos de agradável e útil leitura.

Empresários, executivos, prestadores de serviço e estudiosos do comportamento brasileiro encontrarão na obra informações úteis para entender melhor algumas das razões para a conduta, hábitos e comportamento de todos nós brasileiros. Vale também como leitura interessante para estrangeiros que estão chegando junto com o capital que está vindo de outros países na busca de oportunidades entre a população brasileira.

Segundo Malinowski, cultura “é o ambiente artificial e secundário que o homem sobrepõe ao ambiente natural. E isto compreende a linguagem, hábitos, idéias, crenças, costumes, organização social, herança na produção, processos técnicos e valores”.

E neste sentido é importante entender que o Brasil – diferentemente dos Estados Unidos da América que foi resultado da transferência de populações com a intenção de fincar raízes – é produto de três raças distintas. Brancos, negros e índios compuseram esta miscigenação e sinergia. E embora os brancos tenham sido minoria por longo tempo eles terminaram impondo muitos hábitos. Mas ao mesmo tempo os portugueses que para aqui vieram não trouxeram famílias, pois vinham apenas explorar, mas ao mesmo tempo desenvolveram várias “relações ilícitas” que geraram os primeiros mestiços.

Para muitos estudiosos boa parte do que chamamos “flexibilidade do brasileiro” se origina desta mescla racial.

Lourenço utiliza em sua análise alguns “indicadores” que são úteis para entender o cenário nacional. O dilema permanente de nos tornarmos parte do primeiro mundo; A existência de “dois brasis”, um desenvolvido e outro totalmente subdesenvolvido; A distinção que fazemos entre “festa e prazer” bastante estudada por Da Matta em seu livro “Carnavais, Malandros e Heróis”; a importância do carnaval e do futebol na “psiquê” do brasileiro; A cultura dos relacionamentos onde se separam o público do privado; e por último a anarquia, cordialidade, emoções autênticas, disfarçadas ou “prá valer”.

Lourenço introduz o capítulo do “lado positivo do jeitinho” transcrevendo uma frase de Rogério Ekberg que diz: “A situação brasileira não está ruim. Para ficar ruim ainda tem de melhorar muito”.

Diz que “em geral o jeito é analisado pelo seu lado negativo. Mas ele pode se ambivalente, isto é, servir tanto para o bem quanto para o mal. Serve para alguém se livrar da norma, “quebrar o galho”, mas serve também para trazer benefícios numa situação difícil ou inesperada. Essa ambivalência do jeito tem sua raiz na própria natureza do homem cuja força vital original tem duas faces: de um lado a tendência para a novidade, o espírito aventureiro que se arrisca… e de outro o instinto de autoconservação, de segurança… que não esquece a ração de emergência na viagem”. E do lado positivo o autor menciona a inventividade, criatividade, a função solidária, o lado conciliador, e a simpatia que faz emergir relações interpessoais – ainda que superficiais. Em relação ao quadro negativo registram-se o lado ilícito de resolver os problemas, o individualismo, a excessiva importância do “aqui e agora”, a corrupção e o desprezo por qualquer conduta ética.

Enfim, recomendo a leitura de “Dando um jeito no jeitinho – Como ser ético sem deixar de ser brasileiro” publicado pela Editora Mundo Cristão a todos aqueles que imaginam poder simplificar soluções para o país, empresas ou no âmbito da casa, através da importação de algum modelo pronto de outra cultura. Existem respostas nossas que podem surgir como produto natural da melhor compreensão que tenhamos de nós mesmos. E neste sentido o livro agrega valor.

Por Renato Bernhoeft
Publicado no site Administradores.com