Doping no esporte amador: 1 a cada 5 praticantes já fez

13 de dezembro de 2017 ● POR Flávio Rebustini

Em 29 de novembro de 2017 escrevemos um texto para este site sobre o doping no esporte profissional, e através da manifestação do leitor ficamos instigados a escrever sobre o doping em outro contexto bastante diferente ao do esporte de alto nível. Agora o esporte amador recebe nossas atenções, assim como os contextos de práticas de exercícios físicos em geral, especialmente aqueles presentes em academias e clubes sociais, permitindo que novos aspectos possam ser levantados como veremos a seguir.

Nosso leitor levantou um ponto bastante interessante e atual, qual seja, a influência das novas tecnologias e mídias, em especial as redes sociais, como Facebook e Instagram, nos casos de doping em atletas amadores ou praticantes de exercícios físicos não competitivos. Este tema foi alvo de uma matéria jornalística do Esporte Espetacular da Rede Globo de televisão, veiculada também na internet, por exemplo em matéria do Globo Esporte no seu portal da internet (https://globoesporte.globo.com) no dia 01/10/2017, com um título bastante inquietante: “Desejo de ostentar nas redes sociais faz doping de atletas amadores crescer”, indo direto ao ponto que nosso leitor abordou. Mas será que é este mesmo o maior problema do doping no esporte amador?

Se pensarmos as redes sociais através da teoria da determinação tecnológica, onde as tecnologias determinam o comportamento dos seres humanos, pensaremos que as redes sociais são totalmente responsáveis por este problema. Porém, se pensarmos estas tecnologias sob a perspectiva da modelagem social do uso das tecnologias, veremos que o uso que é feito delas depende em grande parte da característica da sociedade em questão, colocando as pessoas em pé de igualdade com a tecnologia na determinação do comportamento de se dopar ou não. Assim, embora as redes sociais pareçam ser um meio capaz de estimular o uso de doping entre amadores, as características pessoais e sociais destes grupos contam enormemente para o problema.

Se nos casos de doping no esporte profissional (abordado em nosso artigo passado) verificamos que se trata de um fenômeno de diferentes níveis e com diversos responsáveis, no doping amador o quadro é bastante semelhante, e diversos aspectos interagem na determinação do uso, ou não, de substâncias dopantes. Mas, preliminarmente, uma diferenciação logo emerge, enquanto o uso de doping no esporte de competição volta-se para o desempenho esportivo, em alcançar níveis de resultados que não seriam possíveis de forma limpa e que, também, requerem sistemas de treinamentos adequados para que se possa ativar e usar estimulação gerada pela substância. Ingerir a substância e ficar deitado no sofá, obviamente não trará resultados de desempenho. De cara temos um diferencial, pois não é possível descartar o uso mais estético do que de performance, por exemplo, no uso em academias, ou o uso por atletas amadores para melhorar a imagem do corpo sem que essa ingestão seja ativada no intuito de melhoria do resultado esportivo. Mas veremos a seguir que os estudos têm encontrado motivos diferentes que levam os atletas amadores ao uso dessas substâncias.

Claro que as pessoas sempre serão responsáveis pelo seu corpo e pela decisão de usar, ou não, tais drogas, assim como o uso que fazem das redes sociais e outras tecnologias, mas o problema parece envolver outros personagens, como médicos, influenciadores digitais, blogueiros e blogueiras, nutricionistas, profissionais de educação física, entre outros.

A respeito deste ponto, muita gente deve conhecer pessoas que logo ao iniciarem frequentar uma academia, por exemplo, receberam rapidamente indicações de suplementos ou até de anabolizantes por parte de seus professores, sem que eles tenham conhecimento para tal, além de estarem infringindo o código de ética do profissional de educação física. E este problema pode ser ainda pior quando o professor nem mesmo é credenciado junto ao Conselho de Educação Física (CREF).

Um interessante estudo realizado em cinco países europeus por Lazuras e cols. (2017) encontraram que a cada 5 praticantes de atividades físicas, um já fez uso de substâncias controladas ou proibidas, e que os principais motivos para este uso foram: atingir os resultados desejados mais rapidamente, levar o corpo ao limite e se recuperar mais rapidamente de uma sessão de treinamentos, enquanto que os motivos alegados para não utilizar tais substâncias foram: possíveis riscos à saúde, não sentirem necessidade para fazer uso e a vontade de verificar quais os resultados podem ser atingidos sem o uso de tais drogas.

Podemos perceber que o doping nos contextos alheios ao esporte profissional é anda mais sério e preocupante do que a simples ostentação nas redes sociais, vejamos: Outra matéria veiculada na internet, esta divulgada pela famosa emissora de rádio e televisão em seu portal da internet (www.bbc.com), no dia 20/03/2017, trazia no título uma preocupação, o aumento rápido do uso de drogas no esporte, em especial o esporte amador, tornando este problema uma verdadeira crise em todo mundo. Em sua investigação jornalística, ficou claro na matéria que o principal motivo para uso de substâncias neste público é para o alivio de dores, seguido da recuperação de lesões e da melhora do rendimento. Em 4º lugar apareceu a melhora da aparência física, contrastando com o que foi abordado na matéria citada anteriormente.

Estes dados nos fazem ver um enorme problema de saúde pública, pois em nosso país existe uma população bastante desinformada, com uma cultura de automedicação, além do forte tráfico de substâncias, incluindo diversas substancias dopantes proibidas, como esteroides anabolizantes, e até mesmo anabolizantes de cavalos acabam sendo utilizados por este público a fim de terem resultados mais rápidos.

Isto posto, vemos que os casos de doping estão se tornando cada vez mais presentes nos contextos do esporte amador ou da prática esportiva não competitiva. Este quadro tem levado algumas instituições esportivas a pensarem em realizar o controle do uso de doping neste público semelhante ao que já vem sendo feito com atletas profissionais, onde a testagem e a punição são as principais “armas” utilizadas. Em seu artigo, Henning (2017) discorda totalmente desta proposta, e sugere que seja feita uma abordagem centrada no fortalecimento dos atletas amadores sobre os riscos e benefícios do uso de doping, esclarecendo sobre as melhores formas de tomar decisão sobre o tema.

Neste mesmo sentido, Barkoukis e colaboradores (2016) realizaram um estudo de intervenção com jovens em idade escolar da Grécia, procurando promover o controle do uso de doping e suplementos nutricionais através da conscientização e da educação sobre os valores do esporte, a saúde e as normas sociais. Os resultados do estudo permitiram aos autores promoverem políticas públicas de promoção de uma cultura antidoping com os jovens.

Assim, embora existam diversas forças que atuam nos casos de doping em praticantes de atividades físicas e atletas amadores, podemos perceber que não existe um determinismo tecnológico, não sendo as redes sociais responsáveis pelo comportamento dos atletas amadores que fazem uso de doping para “ostentar” nas redes sociais, mas sim uma interação entre fatores tecnológicos, pessoais, sociais, entre outros que fazem com que algumas pessoas adotem estes comportamentos. A tecnologia não pode ser vista como uma vilã nesta história, pois ela pode ter um papel fundamental no caminho oposto, no da educação e conscientização destas pessoas, devido ao seu enorme poder e alcance.

Enfim, nos parece, também, que a melhor alternativa que existe hoje em dia é o da educação, através da informação aos atletas e demais praticantes de atividades físicas, sendo fundamental que este tema faça parte das grades curriculares de crianças e adolescentes, para que melhor lidem com estas situações ao longe de toda sua vida, seja como atleta ou não.

REFERÊNCIAS

Barkoukis, V.; Kartali, K.; Lazuras, L.; Tsorbatzoudis, H. Evaluation of na anti-doping intervention for adolescentes: Findings from a school-based study. Sport Management Review, v. 19, n. 1, p. 23-34, 2016.

Henning, A. Challenges to promoting health for amateur athletes through anti-doping policy. Drugs: Education, Prevention and Policy, v. 24, n. 3, p. 306-313, 2017.

Lazuras, L.; Barkoukis, V.; Loukovits, A.; Brand, R.; Hudson, A.; Mallia, L.; Michaelides, M.; Muzi, M.; Petróczi, A.; Zelli, A. “I Want It All, and I Want It Now”: Lifetime Prevalence and Reasons for Using and Abstaining from Controlled Performance and Appearance Enhancing Substances (PAES) among Young Exercisers and Amateur Athletes in Five European Countries. Frontiers in Psychology, v. 8, 2017.

http://www.bbc.com/sport/38884801

https://globoesporte.globo.com/programas/esporte-espetacular/noticia/desejo-de-ostentar-nas-redes-sociais-faz-doping-de-atletas-amadores-crescer.ghtml

Carlos Drigo é Profissional de Educação Física e Psicólogo. Especialista em Psicologia do Esporte, Futebol e Treinamento Esportivo. Mestrando em Desenvolvimento Humano e Tecnologias e membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte (LEPESPE) na UNESP / Rio Claro.

Flávio Rebustini é Pos-Doutor pela UNESP/Rio Claro e Pós-Doutor pela UQTR (Canada). Membro do LEPESPE – Laboratório de Estudos e Pesquisas em Psicologia do Esporte/UNESP-RIO CLARO. Coordenador da Especialização em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio de Sá. E-mail: frebustini@uol.com.br