Lúdico, barato, inclusivo: o miniatletismo merece a sua atenção, professor

06 de julho de 2017 ● POR Pedro Cunácia

É inevitável: quando se ouve a palavra atletismo, a imagem mental que se forma é a de uma final olímpica, disputada num moderníssimo piso emborrachado, tocado pelas pernas velocíssimas de um Usain Bolt. Os mais velhos pensam também em Michael Johnson, Carl Lewis, Edwin Moses, Joaquim Cruz. Sequer passa pela cabeça de muitos professores de educação física, acostumados a mostrar aos alunos os encantos do basquete, vôlei, futsal e handebol (nas escolas com quadras), a possibilidade de inserir os alunos no esporte mais emblemático dos Jogos Olímpicos.

A Iaaf (Associação Internacional das Federações de Atletismo) compilou diversas práticas válidas para iniciação no esporte e lançou, no final dos anos 90, o programa “Atletismo para Todos”. O conteúdo referente a crianças de 6,7 anos até 12 recebeu o nome miniatletismo. Caso um adolescente não tenha recebido esse conteúdo antes, pode perfeitamente tomar contato com ele aos 13, 14 ou 15.

Conversamos com o professor de educação física e técnico de atletismo Lázaro Pereira Velázquez, que realiza clínicas para difundir o miniatletismo pelo país afora, para sabermos mais sobre essa barata e eficiente forma de envolver os alunos nas aulas.

Em 2007, o cubano Velázquez, que foi maratonista e representou a Ilha em competições importantes, participou de curso promovido pela Iaaf em Santa Fé, na Argentina, onde está situado o Centro Regional de Desenvolvimento credenciado pela Federação Internacional para a América do Sul, e desde então ministra cursos a pedido da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), FPA (Federação Paulista) e por prefeituras.

“O miniatletismo é uma forma de desenvolver coordenação, ritmo, habilidades, capacidades, força, resistência e velocidade em forma de brincadeiras”, diz Velázquez.
Em escolas com boa verba, podem ser adquiridos kits com o material necessário, fabricados no Brasil. Nas escolas sem esse respaldo financeiro, é possível construí-los com material reciclável – e a diversão pode ser ainda maior.

“Construir os materiais é uma atividade lúdica e que proporciona engajamento das crianças. A gente faz barreiras com cabo de vassoura, garrafas pets cheias de areia, caixa de papelão, bolinhas velhas de tênis, por exemplo”.

Para que o miniatletismo funcione nas aulas, alguns cuidados devem ser tomados. “Ele deve ser atrativo. Porque as crianças são seduzidas pelos videogames? As telas são coloridas, é um ambiente virtual convidativo, os desenhos são legais. As quadras, para atrair as crianças, devem estar limpas. Sabemos que há problemas de infraestrutura, mas a quadra não pode estar suja, com papel, com terra. Estando limpa, podemos enfeitá-la com balões, fitas, cartazes. Uma quadra assim dá outra conotação à atividade”.

Prossegue o professor: “Segundo requisito: a prática deve ser inclusiva – as atividades devem ser concebidas de forma a permitir a participação de todos”.

Por fim, segundo Velázquez, é necessário saber introduzir o aspecto competitivo. “A atividade deve ser instrutiva, desenvolver o ambiente em grupo. O atletismo é esporte em individual no mais das vezes, mas é recomendável incentivar atividades em equipe. Pode-se até mesmo realizar atividades competitivas com uma só equipe. Como? A gente bota todos os alunos de uma turma para fazer salto em distância e soma as marcas, coloca no quadro negro. Na semana seguinte, fazemos de novo e comparamos as somas. Podemos somar as marcas dos alunos do período matutino e compará-las à soma de uma turma do vespertino. Isso tudo é lúdico e amplia o engajamento”.

No Brasil todo, há uns 15 professores ministrando o miniatletismo a outros professores, segundo Velázquez. Há cursos on line também, o que deve aumentar a difusão desse conteúdo. “Falta muito por capacitar. O Brasil é gigantesco. A CBAt tem a meta de atingir 35 mil escolas com minitatletismo”, acrescenta o profissional.

Os professores podem e devem dar asas à imaginação para incentivar as atividades onde for possível realizá-las. “Se o que houver for um corredor com 20 metros, ele é perfeito para o arremesso de peso. Essa é uma atividade que as crianças brasileiras não sabem fazer. É algo natural em países com futebol desenvolvido. Brinca-se pouco com as mãos. Se você der uma bolinha para qualquer criança cubana, ela saberá lançar”.

O salto em distância pode ser feito em terrenos onde haja areia, mas também é permitido organizá-lo com colchões. “Sabemos das dificuldades materiais das escolas públicas, mas acredito que umas quatro ou cinco provas pelo menos possam ser realizadas em cada escola”.

O miniatletismo, assim como minibasquete e o minirrúgbi, por exemplo, nasceram da constatação de que as modalidades seriam mais atraentes para as crianças com um certo grau de adaptação. “As federações internacionais perceberam que as crianças não poderiam fazer as atividades nos mesmos moldes que os adultos. Os tempos mudaram, e os esportes competem com os jogos eletrônicos pelo tempo das crianças. Antigamente só tinha um dominó, um xadrez, e era fácil para os esportes vencerem essa competição. Hoje precisamos de criatividade e atratividade”.

A falta de recursos nem sempre pode ser empregada como desculpa para justificar o crescimento dos índices de sedentarismo. “Mesmo em faculdades, mesmo em espaços com boa estrutura de quadras e equipamentos, às vezes sinto falta de proatividade”, diz Velázquez. “Acho que tem sucesso aquele professor ativo, que brinca junto. Em Cuba, a despeito de todos os nossos problemas, as crianças estão lá, praticando os esportes, porque o professor é um motivador muito grande. E aqui tiro o meu chapéu a todos os professores de educação física brasileiros que se esforçam, tiram leite de pedra. Conhecemos as histórias de muitos atletas do Nordeste, como a Keila Costa (bronze no Mundial Juvenil de Atletismo de Kingston, em 2002, no salto triplo). Ela começou com uma iniciação precária, em Abreu e Lima (PE)”, diz Velázquez, aludindo ao esforço do professor Roberto Ribeiro de Andrade.

O esforço por melhores condições de trabalho pode envolver o próprio professor. “Em Cuba, se encontrávamos um campo com grama alta, nós mesmos a cortávamos. Não se pode esperar tudo cair do céu. Em qualquer país subdesenvolvido, não se pode esperar isso”.

Por fim, fazendo referência ao início do texto, Velázques lembra da essência do atletismo, esporte que é também base para outros. “Podemos combinar o miniatletismo ao basquete, ao handebol, ao vôlei. Desenvolvemos as capacidades de saltar e de correr, que serão aplicadas em outros esportes”.