Território proibido? Por que existem poucas mulheres na gestão esportiva no Brasil?

30 de outubro de 2017 ● POR Pedro Cunácia

Por Pedro Lopes

“A mulher pode ser nutricionista do esporte, psicóloga do esporte, fisioterapeuta, mas gestora, não”. A frase de Paula Gonçalves da Silva, a Magic Paula, uma das melhores jogadoras da história do basquete brasileiro, retrata as dificuldades que as mulheres enfrentam para ocupar cargos na gestão do esporte.


Das 30 principais confederações filiadas ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), apenas uma é presidida por uma mulher. A única representante feminina é Luciene Resende, da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Além de Resende, outras quatro mulheres atuam como vice-presidentes em confederações nacionais. O número baixo contrasta com a participação expressiva de mulheres na delegação brasileira nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro: 44%.


“Estamos muito aquém do que poderíamos. Na gestão, a presença da mulher é pífia, está muito aquém do que deveria. Isso tem que mudar. Eu já tive técnicos homens e mulheres e sempre havia o mesmo questionamento: ‘Você prefere ser comandado por um homem ou uma mulher?’. Eu prefiro alguém competente. O esporte foi concebido para ser algo masculino, e isso tem mudado bastante”, disse Magic Paula, criadora do Instituto Passe de Mágica, em entrevista concedida ao Portal da Educação Física durante o 8º Congresso Brasileiro de Gestão do Esporte, realizado de 18 a 20 de outubro, em Curitiba.


Para Flávia Bastos, professora de educação física da Universidade de São Paulo (USP), o domínio masculino, o preconceito, o conflito entre vida pessoal e profissional e o estereótipo de homossexualidade são empecilhos para as mulheres no segmento. Ela explica que, para que atinjam cargos na gestão do esporte, mulheres buscam se aproximar de características do perfil masculino, dedicando mais tempo aos clubes e entidades e deixando em segundo plano a formação de família.


Primeira presidente da história do Flamengo, Patrícia Amorim entrou em uma espécie de território proibido para mulheres ao dirigir o clube carioca entre 2010 e 2012. Em entrevista ao jornal Extra no fim de seu mandato, ela falou sobre a dificuldade de ser apontada o tempo toda como figura frágil e inocente.

“Você passa o dia inteiro tentando se adequar ao que as pessoas acham que você tem que ser. Acho que não sou artificial. Por isso não me enquadro no perfil que as pessoas acham que tenho que ter. Fico como um estranho no ninho. Mas é um estilo sereno. Me sinto incomodada muitas vezes. Não é diário. Mas acho que sou correta, digna, direita. Mas no futebol você tem que desempenhar um papel. Falhei porque não quis ser esse personagem, quis ser correta com o clube. Tem essa coisa de falar alto, ter que bater na mesa. Não aprendi assim. Conquistei as coisas. Pode ser dura, mas minha forma é doce, serena, gentil, educada, talvez inocente. Mas fragilidade, não. Não cola. Essa coisa de coitada eu não gosto. Às vezes, me fecho um pouco. Me chamam de omissa. Quero falar, não querem ouvir, então já formaram uma opinião”, afirmou.


COTAS


Pipocam pelo mundo movimentos e fóruns que lutam pelo crescimento feminino em cargos de gestão. Um deles é o Women Leaders in College Sports, organização de liderança dedicada a capacitar, desenvolver e promover o sucesso de mulheres no nicho. A iniciativa oferece programas educacionais, networking e experiências às suas filiadas.


Bastos vê com bons olhos a iniciativa e aponta que “a participação feminina na gestão esportiva tem sido estimulada” no Brasil e no mundo, mas que a entrada feminina em cargos importantes “passa por uma capacitação em questões de liderança”. Segundo Magic Paula, uma saída para mudar o cenário seria a criação de cotas para mulheres em posições de chefia do esporte brasileiro.


“Nós ainda vivemos uma gestão arcaica no esporte. Vivemos em um feudo. Vivemos de pessoas que se perpetuaram nos cargos. Talvez uma das propostas seria ter cotas para as mulheres na gestão do esporte. Eu acho válido, porque, se isso não acontecer, a mulher vai esperar mais 40 anos para assumir alguns postos. Quanto mais sobe a hierarquia, menos chance a mulher tem de estar em uma posição de chefia”, sugere.


Paula, entretanto, usa sua própria experiência como gestora esportiva para aconselhar outras mulheres mais jovens que desejam entrar na área. Após deixar as quadras, ela foi convidada em 2001 pela Prefeitura de São Paulo para assumir o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, iniciando sua carreira como gestora esportiva. Dois anos depois, assumiu a Secretaria de Esporte de Rendimento, no Ministério do Esporte, onde permaneceu por apenas seis meses. O desligamento fez com que Paula saísse “atirando para todos os lados” – postura que levou que a TV Globo a vetasse em seus programas durante uma década. Aos 55 anos, ela vê o comportamento de algumas mulheres como “visceral”, o que impede uma parcela da ala feminina de subir degraus no segmento.